02 março 2015

Sou um segredo bem guardado

sou um segredo bem guardado. 
uma só palavra silenciosa
sussurrada na noite completa.
não tenho corpo e as horas 
fogem. outros aproximam-se e 
o peso deste silêncio é grande.
não há tempo para o amor, mas
procura-se um calor próprio com dedos
ávidos. é tarde e guardaram-me dentro
da boca, dentro das mãos. está frio.
escondem-me a voz e os lábios
dentro de outros lábios. secos. 
estou cansado e fechado do lado 
de fora de uma porta que não abre

para mim.

19 janeiro 2015

O homem invisível

O meu nome fui eu quem o escreveu sobre a pele 
para não esquecer quem sou para os outros. 
Encho-me de sinais silenciosos que ninguém sabe e
tenho uma vida vazia e como lembrar tudo agora? 
As mãos lavadas pelo tempo, pela água dos olhos, 
e nenhuma boca me recorda com a forma do medo…
O passado morto. Eu morto. Há muito fechado 
ou caído sobre eu mesmo como uma ruína. 
Ninguém que me veja a dormir e pense que eu preciso 
que afastem a noite de cima de mim. Quando durmo
é um ensaio da morte. Já tenho medo de fechar os olhos. 
Nem sei se eles ainda me pertencem ou apenas olham.
Não é neles que as palavras se complicam. A minha boca
também ninguém vê ou alguma vez eu peguei numa caneta 
para escrever. Não há sombras nestas letras. Falta-lhes corpo. 
O meu.
Vou contar o fim desta noite, o recomeço sempre do poema:
Estou a chegar a casa e não reconheço nada do caminho. 
Onde estou? Vim de dentro da cidade, sozinho e cansado
de voltar sempre a casa, sempre a mesma casa, sempre a casa
vazia que me espera fria, portas fechadas, silêncio de mim.
Distraí-me entre o fumo e as vozes e a música e bebi e fumei.
Ninguém me vê. Em silêncio no redemoinho da festa. Sair,
ruas cheias de rostos que não me dizem nada, vozes sem fim 
a preencher o meu silêncio. E eu não consigo dizer que sou;
o que fui e que agora está tão longe de mim como um sonho.
Sou uma criança outra vez e o meu rosto perde-se no escuro
e no fumo e no fundo dos copos. Sem substância ou voz.
Beleza e fogo perdidos, desperdiçados na passagem das horas.
Ninguém a quem os dar ou entregar em paz. A noite regressa.
Só eu vejo as minhas rugas a crescer, a cavarem-se no rosto 
que também não me dá respostas. O espelho está vazio. 
Envelheço com palavras, mas sem a história. Sou esquecido 
a cada dia que passa. Ainda estou no bar, recordo-me, e lembro 
os mortos e as suas vozes. Os olhos que suplicam um segundo 
mais;
as mãos já sem peso que não os conseguem prender aqui. 
O horizonte é uma navalha. É lá que o tempo se divide, 
é lá que nos separamos das esperanças e entregamos moedas
em troca da vida e da paz que trazíamos dentro. 
Anos e anos de espera, de esperança que haja luz noutros olhos 
porque os meus estão mortos - não sei quem vê o quê com eles. 
Mas a vida já não cresce nas paredes e os meus dias passo-os só.
Agora estou num quarto e é de manhã. Sempre a mesma sequência 
dramática de mais um dia fechado. Já alguém acabou de apagar 
as velas da noite, os autocarros recomeçam a sua carreira de insectos
e vozes despertam, crianças gritam na rua a caminho da escola. 
Ninguém consegue espreitar por detrás destas paredes. 
Ainda ninguém sabe quem eu sou. 



07 dezembro 2014

A morte de um bonsai

o corpo frágil esconde-se dentro da terra 
e estica para fora os seus dedos finos,
mãos velhas de menino que agarram o ar
que tarda na tarde longa e fria do inverno.
claudicantes raízes agarram-se febris 
a menos que uma mão cheia de terra 
- um vaso simples, pequeno demais 
para a vida que que tem dentro. simples.
aproximo-me. o topo da árvore, tempo,
o cabelo que rareia, os pequenos ramos,
a ilusão de vida. o bonsai moribundo
aninhado a um canto dentro de um vaso 
longe do sol, perto da água, lua vegetal 
incompreensível. está ali. olha-me. 
agónico e estático, verde e doente, 
membro amputado da natureza, tentativa
de salvamento de trazer por casa: sinal
gritante da minha incapacidade de cuidar.

28 outubro 2014

Amor no camião de recolha do óleo

Ao longe tem aquele brilho baço de uma pedra 
suja e pouco preciosa. Aproximando os olhos
vemos os vultos (dois) e o cansaço daquela 
máquina, a madeira inchada e manchada;
os metais brilhantes das mãos e do óleo
que cai dos bidões de plástico azuis
- uma vez azuis - e se perde no chão.
Ele inclina-se através da janela 
do passageiro. Retroiluminados 
por um farol cliché - lábios
que se movem - silenciados
pelos motores. Espreitam
do restaurante em frente; 
alguém se dirige, passos
lentos pelo corredor 
das mesas até à porta
onde vai gritar Venha!
Ele não sabe. 
Está de costas
para o trabalho,
olhos abertos

para o amor.

14 agosto 2014


"I think one of photography’s difficulties in being considered on equal footing with other mediums is that there are these types associated with it, and the types are generally subject-based. So you’re this kind of photographer, and you’re this kind of photographer, and that puts you in this little box. And then people see photography as a set of boxes. We have to work pretty hard to break down those stereotypes."


Larry Sultan

22 julho 2014

Como dizer adeus

Já nada bate no silêncio da casa. Só o sussurro 
do relógio esfregando os ombros no tempo. 
Para onde foi ele? Apenas resta uma visão turva
da despedida. O adeus contido. Já nem sei escrever, 
se é que alguma vez soube juntar letras para formar
palavras para formar um corpo simbólico de mim.
Explico-me inutilmente: bebo para esquecer os últimos
anos, o sangue e as vozes silenciosas de amigos 
que foram ficando pelo caminho;  o sangue e as rochas 
mastigadas até serem o cimento da minha indiferença, 
a estrutura da minha ausência. Amores perdidos, 
mulheres esquecidas e iradas… edifícios abandonados. 
Tenho o mesmo encanto de uma ruína em progressão. 
Engenharia em queda. Fraco vestígio biológico
deste esquecimento que nos roubou o poder de escolha. 
Para onde ir agora? É demasiado cedo para tudo estar 
perdido ou demasiado tarde para alterar tudo - para voltar 
a viver e aprender a respirar entre rostos anónimos,
procurando uma trajectória entre o fumo dos carros
e as suas trajectórias desconhecidas (alheamento
mecânico do movimento feito desejo e intenção).
Olhando de dentro da publicidade, a vida possível 
de um produto feito em linha, a ideia do passado 
desperdiçado, ninguém está aqui agora, nem eu 
ou uma qualquer imagem de mim. Barrigas inchadas
de fome contam a sua história nos ecrãs e limitamos 
a sentir-nos gratos por serem outros e não nós a sentir 
aquela fome, o vazio da carne morta, e continuamos 
a sonhar os desejos materiais do corpo. Estou ancorado
aqui agora, por muito que queira fugir e encontrar outros
olhos, outras mãos. Reencontrei o caminho para o buraco
onde os sonhos se perdem na respiração. Sou um elefante 
ferido no flanco: sangro o vermelho da estrada solitária 
e os pés pesados do caminho afundam-se na lama podre 
que é o corpo feito homem dos meus ossos quebradiços.

20 julho 2014

6.
Vamos lá então juntos recitar
Este belo acordo que nos vai ligar
Juro pela vida nunca me trair
Juro pela vida sempre resistir
Juro pela vida nunca obedecer
A qualquer vontade fora do meu ser
Juro pela vida sempre acreditar
No poder sagrado que nos faz amar
Juro pela vida sempre contrapor
O valor da festa contra o tédio em vigor
Juro pela vida todo me entregar
À paixão do jogo do corpo e do criar
Radical radical radical
Hei-de ser no agir no pensar
Só na luta há festa só na luta há gozo
Para ter um destino aventuroso
Eis o Graal nosso Graal
O mundo é nosso vamos a ele
O mundo é nosso não há que ter medo
O mundo é nosso vamos com ele brincar

Mão Morta, Gumes

Há muitos anos atrás, quase todas as histórias começam assim, escreveram-me estas frases num postal. Depois a pessoa partiu e ficou o postal. Depois partiu o postal e fiquei eu. Agora só estão as palavras para me fazer pensar em tudo o que se perdeu. Tantos anos depois ainda se procura o Graal. Cada vez mais longe da música e mais perto dos gumes que tudo cortam.