14 Agosto 2014


"I think one of photography’s difficulties in being considered on equal footing with other mediums is that there are these types associated with it, and the types are generally subject-based. So you’re this kind of photographer, and you’re this kind of photographer, and that puts you in this little box. And then people see photography as a set of boxes. We have to work pretty hard to break down those stereotypes."


Larry Sultan

22 Julho 2014

Como dizer adeus

Já nada bate no silêncio da casa. Só o sussurro 
do relógio esfregando os ombros no tempo. 
Para onde foi ele? Apenas resta uma visão turva
da despedida. O adeus contido. Já nem sei escrever, 
se é que alguma vez soube juntar letras para formar
palavras para formar um corpo simbólico de mim.
Explico-me inutilmente: bebo para esquecer os últimos
anos, o sangue e as vozes silenciosas de amigos 
que foram ficando pelo caminho;  o sangue e as rochas 
mastigadas até serem o cimento da minha indiferença, 
a estrutura da minha ausência. Amores perdidos, 
mulheres esquecidas e iradas… edifícios abandonados. 
Tenho o mesmo encanto de uma ruína em progressão. 
Engenharia em queda. Fraco vestígio biológico
deste esquecimento que nos roubou o poder de escolha. 
Para onde ir agora? É demasiado cedo para tudo estar 
perdido ou demasiado tarde para alterar tudo - para voltar 
a viver e aprender a respirar entre rostos anónimos,
procurando uma trajectória entre o fumo dos carros
e as suas trajectórias desconhecidas (alheamento
mecânico do movimento feito desejo e intenção).
Olhando de dentro da publicidade, a vida possível 
de um produto feito em linha, a ideia do passado 
desperdiçado, ninguém está aqui agora, nem eu 
ou uma qualquer imagem de mim. Barrigas inchadas
de fome contam a sua história nos ecrãs e limitamos 
a sentir-nos gratos por serem outros e não nós a sentir 
aquela fome, o vazio da carne morta, e continuamos 
a sonhar os desejos materiais do corpo. Estou ancorado
aqui agora, por muito que queira fugir e encontrar outros
olhos, outras mãos. Reencontrei o caminho para o buraco
onde os sonhos se perdem na respiração. Sou um elefante 
ferido no flanco: sangro o vermelho da estrada solitária 
e os pés pesados do caminho afundam-se na lama podre 
que é o corpo feito homem dos meus ossos quebradiços.

20 Julho 2014

6.
Vamos lá então juntos recitar
Este belo acordo que nos vai ligar
Juro pela vida nunca me trair
Juro pela vida sempre resistir
Juro pela vida nunca obedecer
A qualquer vontade fora do meu ser
Juro pela vida sempre acreditar
No poder sagrado que nos faz amar
Juro pela vida sempre contrapor
O valor da festa contra o tédio em vigor
Juro pela vida todo me entregar
À paixão do jogo do corpo e do criar
Radical radical radical
Hei-de ser no agir no pensar
Só na luta há festa só na luta há gozo
Para ter um destino aventuroso
Eis o Graal nosso Graal
O mundo é nosso vamos a ele
O mundo é nosso não há que ter medo
O mundo é nosso vamos com ele brincar

Mão Morta, Gumes

Há muitos anos atrás, quase todas as histórias começam assim, escreveram-me estas frases num postal. Depois a pessoa partiu e ficou o postal. Depois partiu o postal e fiquei eu. Agora só estão as palavras para me fazer pensar em tudo o que se perdeu. Tantos anos depois ainda se procura o Graal. Cada vez mais longe da música e mais perto dos gumes que tudo cortam. 



07 Julho 2014

Imensas possibilidades

É neste momento em que todas as circunstâncias 
históricas e ideológicas se precipitam sobre ti,
como que um regresso, lentamente, a quem se sabe
ser, vindo de um lugar familiar, mas sempre desconhecido,
que sabes quem não és nem consegues ser. Silêncio agora.
Tudo acontece. Pára um pouco. Preciso de tocar este reflexo 
para saber se existo… que existo assim, mas do outro lado.
De madrugada, eterno não-lugar de silêncio, mundo
em âmbar - estou aqui, fora de ti e de mim, falando 
um espelho sem saber quem sou, excepto este sentimento
ondulante sobre esta superfície gelada que eu sou em mim.
Alguém me fale, por favor, que este rosto aqui à minha frente
não me diz nada e a sala está vazia, mais ninguém que não eu.
Só, o sopro das paredes, os mecânicos tornos da claustrofobia, 
pedaços fechados de quem sou feito casa, feito coisa,
e mais um pouco que não sei dizer o quê... Fica-me mal 
esta fraqueza de não ter palavras para dizer, mas continuar
falando para não me esquecer nunca do que pensei ou tentei
esquecer. Comunicar. Tentar dizer como sou por dentro
esperando encontrar menos que um eco. Continua a não haver
ninguém a quem ligar às quatro da manhã. Ninguém na noite
de domingo. Nenhum rosto adormecido no sofá à espera de ser
despertado. Apenas esta cara diante de mim. Sem sorrir. 
Nenhuma mão disposta a despertar do sono como uma serpente
de muitas cabeças e a agarrar o telefone que tocapara dizer vem. 
sei no fundo de mim quem és. sei que palavras te dizer, mas hoje,
só hoje, vamos reencontrar a eloquência do silêncio a dois.
Sobre o mundo, contudo, sucedem-se as cicatrizes das notícias:
as circunstâncias históricas e ideológicas que te ensinaram;
o acaso lancinante da existência de todos, de todos em existência;
o desconhecimento pleno de quem se é aqui, do que esperam...
Das imensas possibilidades de quem não tem nada para oferecer.

James Brown. Live At Montreux . 1981 .

01 Julho 2014

Na dúvida se existo

Passemos agora ao exercício da noite:
o poema escrito sobre o silêncio do mundo, 
mãos frias atacando o teclado e lá fora a chuva.
Mais uma vez. Como sempre, afinal. Pensa-se 
em música, mas já não tem nome nem corpo a mulher 
que cruza as ruas e anda sobre a água. Imagem indistinta. 
Cliché. 
Todos os possíveis rostos flutuam, misturados, 
sob a água, 
sem respirar. Não se ouve música. Apenas silêncio. 
Um vento que ganha velocidade à superfície e que entra 
pelas frinchas das frágeis paredes da casa de papel.
O que fazer agora para não me sentir incompleto, 
uma farsa sempre que respiro mais profundamente
e me sinto vivo e em dúvida sobre quem poderia ser?

Dizem que amanhã, aparentemente, vou reencontrar-me 
com a rotina do mundo. O espaço em branco onde me movo. 
A realidade é o silêncio e nenhuma presença que me mostre 
quem sou na mudança das marés. E cada dia novo é apenas
mais estranho que o outro passado. A verdade é que já é tarde 
para dizer quanto valemos, se é que alguma vez valemos um cêntimo.
Já nenhum de nós sabe quem é, o que é. Quanto se vale, ordenado,
quando o que pensas e suas não vale um grama de pó, 
uma mão-cheia de terra para tapar os olhos?

A verdade é que ando a trocar o corpo por umas horas mais 
de completa infelicidade enquanto procuro descobrir
quem sou ainda. Mas fico sempre sem saber o que resta de mim
depois da matemática da perda. Não tenho espelhos em casa.
E tu, à minha frente, guardaste sempre o rosto enquanto roubava
tempo a este tédio de trabalho escrevendo estas palavras entediantes.
Igualmente sombrias. Sombrias como nós quando nenhuma luz chega.
Nesta sombra não consigo deixar de pensar no que poderia pensar 
se fosse outra pessoa, se quem sou fosse outra pessoa ainda por conhecer.
E permaneço na dúvida se existo.

19 Junho 2014

estou tão cansado!