15 agosto 2007

Viagens de autocarro - entrada no Porto

Nas viagens de autocarro o olhar perde-se, distraído, em casas recheadas de lixo; condomínios de cinco estrelas para ratazanas são coabitados por pessoas pequenas e morenas, tristes e sombrias entre a humidade dos tectos abatidos e das janelas partidas. Todos eles assustadoramente reais e palpáveis… caminhando enquanto sorriem para as ruas cobertas por uma pátina escura de gordura humana e fumo. E toda uma multidão de loucos tenta a corrida sobre ela.

Os paralelos e as fachadas asfixiam-nos a alma, absorvem a luz; recortam arbitrariamente o céu e distribuem as sombras fugazes que nos atravessam o rosto.
Todos os dias atravesso a cidade e observo o esplendor da sua decadência, escuto o excruciante ranger da sua mecânica, buscando a razão das suas depredações sigo as multidões carnais que correm em busca de mais um sorvedouro de sangue para se alimentarem. Nada encontro, excepto o poço transfigurante do querer, da limpeza que ele actua sobre a memória e as crenças reduzindo-as a escrúpulos deselegantes… algo que não deve ser levado a sério – uma brincadeira de criança realizada. Como se fosse normal viver entre um mundo de lama, sustido na exploração auto-explicada do suor, crendo que após a posse tudo é purificado e explicado no estranho esgar que se vê surgir logo atrás do primeiro olhar.

Mas enquanto a chuva se alonga nesta manhã triste e concorrida e eu compreendo a inutilidade da minha existência relativa no calor de uma camioneta a cair de podre, há pessoas que acordam nas arcadas de prédios cobertas de água, há pessoas que despejam o lixo pelas janelas partidas do prédio abandonado ao lado do seu, há pessoas que tomam o primeiro bagaço da manhã (o dia está frio e húmido e é preciso aguentar até logo, até chegar a casa, onde tudo se parte e desmorona), há pessoas que se dirigem para a escola para se esconderem das brutas realidades da vida quotidiana, há taxistas, putas velhas, cansadas, insuspeitas como a nossa avó, que regressam a casa – e há a cegueira de todos: a barreira que oferecemos à realidade para a conter, longe de nós, da ponta quente dos nossos dedos, da carícia aveludada do olhar.

Em que pensarão estas pessoas, olhando como estranhas para a vida que podia ter sido a delas; de onde vem este aceitamento bovino? poderiam estar a conduzir-nos para o nosso fuzilamento desde que nos deixassem possuir as nossas magras vitórias…

Quando se abrem os olhos e se vêem os Homens, o que se vê raramente corresponde à realidade: vê-se a janela fechada, os bens e o ouro guardados por detrás dos lábios fechados e do olhar negro. A aparência, toda a ilusão da sobrevivência num cuidadoso jogo teatral – e onde estou eu aqui, fingindo duplamente; dividido entre o ser, a aparência, a escrita… sem saber onde jaz a Vida.

Podem surgir coincidências interessantes: o respeitável pai, trabalhador sério e respeitável pode ser um putanheiro, um violador, um espancador familiar (com um pouco se sorte mediática e know-how pode até ser uma boa notícia para qualquer jornal - para menos pessoas serem atingidas por pedras que podem ferir os telhados de vidro das suas ilusões.); ou a mesma mãe carinhosa pode queimar as mãos do filho por ele ter roubado 2 Euros para comprar gomas ou foguetes para se sentir parte da mesma existência dos seus colegas; ou, com um pouco de menos sorte ou mau karma, os teus pais podem ser ressacas, alcoólicos, perversos, ou tudo isto… e tu és o brinquedo novo, pronto a ser partido.

São poucas as pessoas que se apercebem de que há algo mais importante por detrás dos gestos mais banais: mesma respiração, o mesmo impulso humano expresso na silenciosa fonética do corpo uma tentativa de alcançar e suprimir o desejo.

Contudo, é interessante ver as enormes confusões causadas pela preciosa incompreensão, a cegueira da inteligência.

1 comentário:

Bezouro disse...

sem filtros nem "paninhos quentes", excelente!