11 fevereiro 2009

quando as armadilhas se fecharem

És a pedra de sal que purifica
o mundo

Das paixões fáceis ou difíceis.

Fecho os olhos

E sinto à minha volta

As viperinas línguas

Os prazeres sem sentido

Nem propósito

Iluminados olhos de cinza

Descortinando sentidos em corpos

Isolados.

Que faces são estas?

Reunidas num beco

Ventoso e sórdido

Agarrando as suas mágoas firmemente

Contra o seu pálido corpo,

Aguardam um número,

Um sinal

Ou uma sentença que os solte.

Dedos esquálidos arranham

O rosto

E o corpo enganado.

Que faces são estas?

- que me olham

e julgam

- e carros continuam a chegar

Cheios de medos e memórias

A náusea de tudo isto,

Do ser

A consciência cartesiana

Da mentira que nos vendem,

Das mentiras em que nos vendemos.

Há desequilíbrio e as verdades,

Essas, valem já menos do que nada.

Coleccionamos desgostos e amarguras

Por um amor que é cada vez menos real;

Somos máquinas de ódio

Procurando o amor nas profundezas

De uma memória falível e corrompida

Nem sentimos

O café aguado

Dos dias iguais, das mesmas mentiras,

Dos mesmos locais comuns e gestos embólicos.

Os corpos são merda, a carne dá-me

Os vómitos que a existência me nega…

E os corpos estão poluídos

E os corpos são máquinas usadas vendidas na feira

E os corpos são preservativos amarrados entre a luz

E o primeiro vento gelado da manhã.

Como é possível falar ainda de amor?

Já vi velhos e novos a comer do restaurante do lixo

- o que é um soneto ao lado disto?

Como transformar o indizível asco de passar todos os dias

Às mesmas horas, nos mesmos locais

Pelos mesmos desastres e dores infindáveis?

E são irreais como um pesadelo perfeito;

E são e são e são – apenas são enquanto eu existo.

As mãos emergem sempre sujas do lixo

Onde se remexe tentando encontrar umas horas

Mais

Umas palavras mais para cantar as cidades

Incendiadas e as vidas perdidas

Da história.

E chega um dia em que todos os corpos se confundem

Num só

Igualmente sem significado;

Então

Somos o ocasional valor que vamos tendo

Nas mãos rudes do mundo.

(Lá bem no fundo, sabemos

somos apenas mais um objecto)

Não procuro o amor. Procuro um momento

De indizível pureza

Que faça o mundo desaparecer

Ou valer a pena;

Procuro a repetida incerteza,

Outro corpo iluminado pelo meu esperma

Por detrás das janelas fechadas do meio-dia.

Entretanto,

Resta-nos a ambos esperar

- talvez ainda consigamos respirar

quando as armadilhas se fecharem.

2 comentários:

Renata disse...

Olá muito esse blog estarei passando sempre por aqui, eu tb tenho um, r.sss http://renattadias.blogspot.com/...bom final de semana...

Renata disse...

Lendo esse poema me fez lembrar do pessimismo de Drummond, acho muito interessante esse tipo de visão...Parabéns...