És a pedra de sal que purifica
o mundo
Das paixões fáceis ou difíceis.
Fecho os olhos
E sinto à minha volta
As viperinas línguas
Os prazeres sem sentido
Nem propósito
Iluminados olhos de cinza
Descortinando sentidos em corpos
Isolados.
Que faces são estas?
Reunidas num beco
Ventoso e sórdido
Agarrando as suas mágoas firmemente
Contra o seu pálido corpo,
Aguardam um número,
Um sinal
Ou uma sentença que os solte.
Dedos esquálidos arranham
O rosto
E o corpo enganado.
Que faces são estas?
- que me olham
e julgam
- e carros continuam a chegar
Cheios de medos e memórias
A náusea de tudo isto,
Do ser
A consciência cartesiana
Da mentira que nos vendem,
Das mentiras em que nos vendemos.
Há desequilíbrio e as verdades,
Essas, valem já menos do que nada.
Coleccionamos desgostos e amarguras
Por um amor que é cada vez menos real;
Somos máquinas de ódio
Procurando o amor nas profundezas
De uma memória falível e corrompida
Nem sentimos
O café aguado
Dos dias iguais, das mesmas mentiras,
Dos mesmos locais comuns e gestos embólicos.
Os corpos são merda, a carne dá-me
Os vómitos que a existência me nega…
E os corpos estão poluídos
E os corpos são máquinas usadas vendidas na feira
E os corpos são preservativos amarrados entre a luz
E o primeiro vento gelado da manhã.
Como é possível falar ainda de amor?
Já vi velhos e novos a comer do restaurante do lixo
- o que é um soneto ao lado disto?
Como transformar o indizível asco de passar todos os dias
Às mesmas horas, nos mesmos locais
Pelos mesmos desastres e dores infindáveis?
E são irreais como um pesadelo perfeito;
E são e são e são – apenas são enquanto eu existo.
As mãos emergem sempre sujas do lixo
Onde se remexe tentando encontrar umas horas
Mais
Umas palavras mais para cantar as cidades
Incendiadas e as vidas perdidas
Da história.
E chega um dia em que todos os corpos se confundem
Num só
Igualmente sem significado;
Então
Somos o ocasional valor que vamos tendo
Nas mãos rudes do mundo.
(Lá bem no fundo, sabemos
somos apenas mais um objecto)
Não procuro o amor. Procuro um momento
De indizível pureza
Que faça o mundo desaparecer
Ou valer a pena;
Procuro a repetida incerteza,
Outro corpo iluminado pelo meu esperma
Por detrás das janelas fechadas do meio-dia.
Entretanto,
Resta-nos a ambos esperar
- talvez ainda consigamos respirar
quando as armadilhas se fecharem.
2 comentários:
Olá muito esse blog estarei passando sempre por aqui, eu tb tenho um, r.sss http://renattadias.blogspot.com/...bom final de semana...
Lendo esse poema me fez lembrar do pessimismo de Drummond, acho muito interessante esse tipo de visão...Parabéns...
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