12 maio 2009

Céus Televisivos (3)

O mais difícil hoje em dia é vermos o “outro”... o produto de uma multiplicação de histórias pessoais ou pura indiferença. Todos dormimos quando cai a noite – para uns contudo, a noite tarda e é ilusória como o seu descanso. Ficam de olhos abertos, deitados, lendo a preocupação. A vida. A solidão fogosa de estar vivo na gelada chama do nosso propósito. Falar, agitar o ar até ser hora de dormir – e então ficarmos sós connosco, medindo o caloroso valor das coisas.

Hoje em dia sentimos tudo separado em bonitos compartimentos sentimentais. Pequenas jaulas tuperware que se podem levar ao frigorífico. Supremamente, já se consegue espreitar para o interior devido à sua transparência e saber que resto frio comer ao jantar. Contudo, continuamos enigmas para os outros. São necessários mediadores entre nós e quem somos. Coordenadores da secção dos refrigerados que nos alinham e tentam formatar dentro da nossa normalidade de perfeitos anormais. Enfim...

Sei que não sou nada do que analisam... Estou sempre escondido lá bem no fundo. Seguro. Bem longe na procura de algo que não consigo definir exactamente... que não sei se conseguirei encontrar. Aparte o sentir-me à parte quando falo, por vezes, na beleza de fazer nada – em ver apenas; ser uma máquina visionária. Tentar prender as ideias que se desvanecem mal embatem na luz; que desaparecem quando as tento fixar. Um animal sinestésico que ouve músicas em imagens que lê.

Estamos apaixonados por ideias... grande parte delas irrealizáveis. Mas é nelas que vivemos e refugiamos as ilusões que nos fazem respirar dia após dia, independentemente do que sabemos real e realizável.

E a verdade é só uma: tudo é uma merda e inútil. As coisas que acontecem, as melhores ou piores são ilusões com que nos tentam ocupar as horas. Vivemos e morremos. Os corpos e o seu conforto psicológico são a mesma face do fundo vazio iluminado por peixes abissais. A felicidade o que é? A ausência de tristeza? O esquecimento... melhor, o alheamento? Mas o que preencherá o buraco no lugar da alma?

De casa em casa andamos procurando um lugar que parece impossível: uma miragem para ocupar os dias e nos fazer deixar de pensar no vazio que nos rodeia... para nos alhearmos dos nossos cheiros; os que anunciam a nossa decadência, a nossa vida e os seus pesos e obscuros dramas.

1 comentário:

Peacemaker disse...

A felicidade será mais, certamente, do que a ausência de dor...uma satisfação inesplicável e geralmente não sabida - de ta~p plena que pode ser - Nós é que seremos, de facto, sempre o mesmo; Humanos! e o nosso destino será morrer, da forma mais satisfatória possível, tanto que parece absurdo todo este medo e preocupação com o que há de vir, com um futuro mais certo e seguro. Somos tão inconscientes da nossa mortalidade... tanto que somos capazes de nos preocupar mais com um bom móvel para a televisão