16 agosto 2009

A praia

O mar salgado já não tem lágrimas,
Nem de Portugal, nem de lado algum;
É água, apenas isso - com sal, como outros
A tomam com açúcar.

Aqui mata-se o tempo, esquece-se o tédio,
Distrai-se a vaga líbido no desejo intocável.
Especialmente aqui, há que fazer como os animais:
Baixar a cabeça respeitosa e aceitar o sol e o azul
Do céu e da água, a estranha vela no horizonte, única,
Solitária como eu que estou sempre... noutro local.

Saber existir é uma ciência rara - penso e sei
Que nunca fui cientista; que apenas observo
De fora do saber e da engrenagem da máquina celeste -
Que escapa como areia por entre os dedos.

As crianças, por exemplo, sentam-se
Com olhos de filósofo que compreende
A linguagem das ondas,
Fazem castelos de areia, correm para o medo
Da água, para a alegria da rebentação
E do ssshhhhhhhhhhhhh das pedras;
Preparam-se para o resto das suas vidas
A saltar obstáculos, a sonhar o impossível, a enfrentar
O primeiro medo.

Ao menos, por uma breve conjunção de signos e astros,
É-nos permitida a felicidade; uma só vez
Em que se sente a alegria das cores, em que uma pedra húmida
Vale mais que um telemóvel e o sol é um brinquedo
Que a todos pertence.

Sabem, a vida que levamos não faz muito sentido
Quando se pode resumir à simplicidade do respirar,
Aos olhos abertos para o nada, a esquecer a depressão,
À falta de jeito para jogar ao jogo da vida, ao engano
Do bolso vazio e dos milhares de euros em dívidas
Que dinheiro algum poderá pagar, à gordura acumulada
Em torno da idade e outras mentiras.

Está na hora de correr para a água, agora,
E testar a hidrodinâmica do corpo ainda quente.

Vou mergulhar bem fundo e voltar a esquecer-me ao sol.

1 comentário:

Anónimo disse...

"O que a juventude tem de melhor é ser capaz de admirar sem compreender." Anatole France

E até acho que compreendem, à sua maneira, numa simplicidade sua, tão simples que não é visível a olhos crescidos.
E com olhos fechados para o tudo, como será? Porque os olhos vêem muitas vezes o que lhes damos a ver, é por isso que até de olhos fechados continuamos a ter visões :-)

(Gostei deste poema... Deu-me vontade de correr para o azul)