29 abril 2011

Dois executivos sentados numa mesa do Candelabro

Apesar de jovens, há todo um peso
maior que o tempo sobre eles
e os seus fatos
e as suas camisas 
e os seus telemóveis 
e o seu tédio.
Sentados na mesa do canto, 
à esquerda de quem entra, 
entre luz e sombra matemática
quadriculada, bebem duas águas
long drink, gelo e limão. Olhos,
se os têm, estão colados aos ecrãs
dos telefones, banho de luz, imitação
de talho nos seus rostos. Não trocam
palavra, não falam, não se olham
- estão sós em si, um no outro, entre
todos e agarram-se desesperados 
a farrapos de conversa, apontam
os dedos em breves comentários, 
trocam três palavras de cinza e nada.
Olho-os. Olho o papel. Desapareceram.
Sombras rápidas. Bons empregados.
Homens perfeitos deste novo mundo.

28 abril 2011

903 para a praia

a vergonha apanhou o 903 para a praia
e deixou para trás a noite e o álcool 
e esta imensa vontade de derreter 
esta pele, os olhares afiados dos betos
e a minha falta de dinheiro crónica.
que doença esta - e estes dias e este…
filtro entre os sentidos do entendimento
e a compreensão cerebral das coisas 
- turvo, como um mau vinho que corre 
pela curva do copo e mancha a toalha,
assim corro eu pelas costas da cidade
com o peso de todas as coisas nas costas.
sísífo de um cartão miserável, habituei-me 
a ver nas luzes dos candeeiros o sol
das minhas três da tarde madrugadoras,
o castigo por anos perdidos e tempo perdido
com pessoas e coisas e o amor e a entrega
e todas as coisas outra vez até tudo isto
significar um nada rigoroso - porque deixou
de existir, porque se condensou num nódulo
de carne no fundo de mim, longe 
da consciência da morte e da passagem.
cagar para tudo isto, meter a merda no poema
como uma espinha num rosto belo 
ou qualquer outra pedra na engrenagem:
o importante é meter a mão no bolso 
do mundo, por estes segundos breves,
e roubar-lhe uma mão cheia de oportunidades,
recuperar as esperanças que a vida roubou,
o brilho real do olhar e da novidade do futuro,
e ter 100 anos de perdão pelo furto.

23 abril 2011

Não procures mais o teu caderno de geografia

Não procures mais o teu caderno de geografia.
Eu tirei-o da tua mochila.
Não quiseste ir à matiné comigo,
no domingo passado.
Os meus amigos contaram-me
que estavas acompanhada pelo Bermudez,
o grandalhão que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito linda,
e que te rias a cada segundo.
Não procures mais o teu caderno de geografia
Agora que está a chover,
aproxima-te da janela,
e verás passar oitenta barquitos de papel
Não procures mais o teu caderno de geografia.

- Jairo Aníbal Niño
in A alegria de gostar, Boca

neste blog 

11 abril 2011

Sem estar

estes cobertores cheiram a sexo e insónia
e estão aqui
caídos e frios sobre o chão que não ecoa
passos ou peles que se encontram. A
insónia torna-se habitual; habitual também
a incompreensão que contorna as formas
das coisas, das pessoas; comum a impossível
comunicação com o resto - noves fora nada
na regra dos três simples da noite e ficamos 
com uma garrafa vazia como companhia. 
o que fazer quando formos demasiado 
velhos para ser agradáveis ou excitantes? 
o que poderemos fazer para matar as horas
da nossa morte? já passou tanto tempo
desde que esta cama sentiu a agitação
do amor, desde que dois corpos a ocuparam
tremendo um no outro, reencontrando a pureza 
assexuada do primeiro encontro. acabo sempre
por aqui, por esta zona de conforto relativo
e relembro outras peles, confusas sob o pó 
dos anos, pessoas que se escondiam sob elas 
e a aspereza do tacto - e perdido está
o que nunca se teve: minutos de carne,
permanência de anos. entretanto, enquanto
o dia não chega e a insónia permanece,
resta observar o mundo de fora,
sem fazer parte das coisas, ver a manhã
chegar como se o dia não nos dissesse 
respeito, como se não fossemos estar nele.

01 abril 2011

O fantasma

um dia serei o fantasma no teu ombro
e reencontrarás o reconforto dos cheiros
e a beleza dos dias, a força na voz. 
não saberás porquê, de onde vem aquela
voz que ouves, a respiração que pressentes
e te acompanha entre os vagabundos e o lixo
que se escondem nos bairros ricos da cidade,
entre os ecos fracos do amor. vês, somos feitos
do fumo que respiramos, temos carne no lugar
dos sentimentos transitórios e nenhuma forma 
de definir as confusões interiores pensadas
entre os silêncios das conversas. Anoitece,
todos os dias, da mesma forma lenta 
e as pessoas regressam a casa ou perdem-se
nas ruas sem nada para fazer, caçando
o refugo e a esmola distraída dos fatos,
matando o excesso de tempo e de tristeza
entre copos de vinho barato, cigarros 
deprimidos e gritos de revolta impotente.
somos velhos, ficamos velhos, nascemos 
velhos demasiado rápido, apressados 
em passar leves e inócuos dentro da vida
- é isto que dizem enquanto gritam caralho
para isto!, para esta merda em que nos meteram!
puta que os pariu a todos! - e acendem outro.
as mesmas insignificâncias repetidas dia sim, 
dia não, sentindo o peso da tristeza na carteira
e as possibilidades práticas da mesma. 
quando chegar o dia, espero ter algo melhor
para te mostrar do que este quotidiano, cidade
magra de granito e perene podridão; tristeza 
pesada de luto e perda, preocupações de cêntimos.
espero explicar-te a praia e o frio do mar, a agitação 
dos peixes,
o vazio interior do contentamento despreocupado.

algo melhor, noutro dia, talvez...