não é de carro que vamos escapar.
é inverno todos os dias e chove,
está frio. as escovas do limpa-vidros
marcam o ritmo do silêncio. passeamos
pelo litoral desolado. estradas em obras,
casas fechadas. poucos carros a arriscar
o paralelo incerto. uma bomba de gasolina,
ao longe, apertada entre casas, ainda.
a carne por demais presente sob as palavras:
está a chover cada vez mais.
não sei o que foi feito das pessoas.
parece que não vive aqui ninguém.
tenho de ter cuidado para não chegar tarde.
alguma vez partimos para algum lado?
qual é esta preocupação constante com o chegar
se nunca partimos? nunca levamos a nada.
trocamos de cara, trocamos os tons da voz,
continuamos os mesmos por dentro.
só noite à frente. uma língua de alcatrão.
as costas do desejo. o seu reverso solitário.
a culpa por ser demais humano, animal demais.
as cordas dos barcos apodrecem, neste mar
que circum-navegamos entediados, civilizados,
sob horários rígidos - os mesmos de sempre.
não é de carro que se consegue escapar.
de avião, talvez, se as circunstâncias deixarem.
1 comentário:
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