06 janeiro 2012

Segue o teu caminho


Segue o teu caminho,
faz as tuas férias,
ama as tuas coisas.
O resto são memórias
de mundos alheios.

A realidade palpável
é sempre muito menos
do que desejamos. 
Mesmo nós somos 
muitas vezes menos 
do que queríamos ser.

Suave é estar só. Talvez
encontrar alguém que 
viva os mesmos sonhos 
e tenha a mesma carteira
para os cumprir. Deixar 
a dor sobre mesas e camas
de hotel como um ex-voto
aos deuses abandonados.

Vê a vida ao longe. 
Não te aproximes. 
Ela já não tem nada 
para te dizer. Os deuses 
já não te falam como dantes.

Serenamente, entedia-te
no Olimpo gelado e asséptico
do teu coração cheio de ruínas 
e pedestais caídos. Os deuses
são deuses enquanto não pensam.


(como é mais que óbvio, esta é uma adaptação bastante livre do poema de Ricardo Reis. a ideia era exactamente pegar nesse texto, e no sub-texto, e transformá-lo em algo que fosse representativo de pulsões mais contemporâneas, esvaziando-o do abandono material, da entrega à natureza e da confiança no panteão divino, que alguém ou algo cuida de nós.)

1 comentário:

Daniel Ferreira disse...

grande.