19 julho 2012

Gestos habituais


a poesia é como um gato que não sabe brincar:
desinteressante, agressiva, inexplicável. estou
cansado. repito-me, mas é esta a verdade. estou
cansado. estou cansado e sangro e hoje deram-me
amor sem pedir nada em troca. estou cansado e 
sangro e hoje vi lágrimas e gritos e terminei o dia
separado. estou cansado e sangro e estou feliz
apesar dos passados que me perseguem. não 
quero mais poesia nem boas palavras, sonhos 
fátuos que me cegam às evidências: não amamos
a mais ninguém do que a nós mesmos - por isso
não consigo compreender o porquê do teu carinho
hoje de manhã, tentando recompor as minhas costas
partidas, tortas, doentes. escrevo-te este último poema
porque não me pediste nada em troca e te conseguiste
comover com o gesto, por demais habitual, que tentava 
sossegar o susto da vibração do telemóvel que chama
na manhã sonolenta - e fazia-me falta estar vivo assim.

1 comentário:

je suis...noir disse...

Mais vale terminar o dia separado de alguém, do que separado de ti mesmo...