02 abril 2007

sinais

esgotamos todas as possibilidades
da noite; esgotamos todas as possibilidades
da noite; esgotamos
todas as noites
         noite,
noites,
gigantes púrpura e fumo,
noites e noites, infindáveis
- até à manhã;
noites surdas, noites frias

aguardam-se as vozes escondidas
atrás do plástico dos telefones-espelhos
clamando a imensa presença impossível.
         aguardam-se as vozes,
vozes de plástico, vozes de telefone
na noite - nos espelhos que gritam,
no grito da improvável presença
aguardo a voz, aguardo a voz,
aguardo a voz... humana,
         aguardo...
desde o anoitecer ao granito
duro, que reflecte a luz
         e mata
a ilusão daninha

         o corpo,
o corpo dá-se,
relembrando uma existência:

figuras estranhas e o corpo grita,
figuras estranhas e os corpos desenham-se,
figuras estranhas e explode o apelo,
a chamada surda que atravessa as profundas linhas
         e lhes dá sentido.

          é manhã,
escutamos os sinais
-fazemos silêncio e o dia canta.

mãos

          as mãos que agarram o vício
são as mesmas que abraçam o silêncio do corpo
entre o fumo e o fogo e as cinzas;
nos espaços em branco escreve-se a história
que as palavras não conseguem contar
          e se limitam a adiar
- uma estranha forma de verdade silênciosa
a verdade, a nudez, a mudez
e os olhares que se encontram na pele,
a comunicação do atrito
          as mãos.

12 março 2007

o hábito desfaz o monge

cansaço ou o hábito do desespero?
sentado em ruas escuras
escrevendo o meu poema arrítmico,
aperto no coração,
a tensão onde caminho
sem oscilar, sem duvidar
que piores tempos virão;
que o mundo construído falacioso,
inconstante, incerto
em longas avenidas de areia
movediça, coração que sangra
frenéticas danças de compras
em torno do cheque mensal
- dízimo de novos deuses.

o que é o dia que passa?
o dia que passa e só isso.

quem deseja morre: a indiferença cresceu
para além dos espaços julgados possíveis,
as palavras empilham-se desordenadas
nas paredes sem ninguém as ler,
sem escutar a música de quem treme
quando é abraçada pelo político
que rapidamente enchuga a lágrima e
esconde a faca nas costas de quem está
nas suas alvas e claras mãos.

toda uma geração traída pelos seus pais,
filhos de uma revolução que esqueceu
povo, democracia, igualdade, fraternidade,
IGUALDADE,
palavras gravadas a frio,
suave vento de mudança para o veto do capital.

por isso aqui estou, na rua, e escrevo para mim
porque já se desaprende a ler: já ninguém sabe
que é na palavra que cresce o homem.
escrevo e olho os corpos apressados a passar
a sua hora de almoço a cobiçar montras cheias de nada,
infelizes sob o sol, crianças chorosas sob o sol,
traumatizadas pelo único brinquedo que nunca tiveram.

o que é que isto quer dizer? - olhos tristes, rugas,
expressões vazias que esqueceram o sorriso
entre as preocupações de quem sobrevive
sob a canga da carga, animais de trabalho duro,
entrega total ao chicote que estala...

estou na rua, acabei de almoçar um prato de caridade,
escrevo com o caderno sobre os joelhos
e vejo todos os cegos a correrem,
cabeça-suicídio, contra portas fechadas,
contra as portas barricadas da sua imaginação.

09 março 2007

Esclarecimento

Descobri hoje um livro que procurava fazia muito tempo: desde que vi Mário Viegas a dizer, declamar, a viver (este senhor confunde-me os verbos) um dos seus contos e alguns outros poemas.

O livro chama-se "Novos Contos do Gin Tónico" e o autor é Mário Henrique Leiria.

Já li parte do livro hoje no belo jardim e quero partilhar convosco algo. Já nem entrarei na conversa em que diria que nos encontramos melhor nas palavras dos outros do que nas nossas: é a mesma coisa que dizer que a terra é redonda estando na superfície ou segurando-a nas mãos - a distância perturba a perspectiva...
O poema a que me referia é este que se segue. Espero que compreendam.

Esclarecimento

Quando estamos cansados
deitamos o corpo
e adormecemos
às vezes não
procuramos outra mão
outros olhos
que nos limpem a fadiga
e evitem o sono
que nos vem antigo
quando estamos cansados
podemos erguer o corpo
e acordar
e morrer acordados
sem cansaço

07 março 2007

comentário I

há um espaço onde as palavras e o silêncio se confundem. onde os corpos se descobrem; onde se afundam os egos. esse espaço existe longe das televisões: dos fracos romances cinematográficos com que te enganaram a capacidade de amar...
nenhum deles ensina a comunicar, a falar esquecendo a vergonha, o medo, o ego.
escuta-te. fala depois.

02 março 2007

sms

dou por mim perdido e incompleto às 5:48 da manhã em frente ao computador.
silêncio absoluto à minha volta: a tranquila vida suburbana desenrola-se calma e seguramente. nada de novo a oeste.

noite de gaia

e subitamente
havia apenas a noite

um descampado
que conduz a uma estrada
que conduz a um descampado
deserto urbano
algumas luzes depois
aterrorizados solitários
dentro de carros
martírio de neóns

centro da cidade e nada à minha volta

as cores fugiram

a noite não sorri
e nos dentes dela perdes a inocência
que te cegava os olhos e te tolhia a coragem

loop de guitarra no rádio
um relógio no lugar do coração

o eterno tempo a marcar o pensamento
a martelar a corroer a minar
uma mordaça sobre a boca que quer gritar
e recuperar o corpo impossível de guardar

as cores fugiram
a noite não sorri