20 junho 2007

Acordar

Acordar, abrir os olhos e passar as costas das mãos sobre eles para limpar o sono que teima em permanecer. Perguntas atrás de perguntas.... que dia é hoje, o que fazer, para onde ir...
É a pura madrugada que abraça a solidão. Dia após dia o sono teima em não vir para depois permanecer tempo demais nos olhos, na cansada cabeça que tenta manter o restante corpo acordado.

16 junho 2007

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal! Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa, de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua."

José Saramago, Deste Mundo e do Outro


Acho que já ficou tudo dito...

homenagem a ginsberg pensando na situação actual

Howl was first performed on October 7th, 1955, at the famous Six Gallery in San Francisco. Soon afterwards, it was published by Lawrence Ferlinghetti, who ran City Lights Bookstore and the City Lights Press. It is noted for relating stories and experiences of Ginsberg's friends and contemporaries, its tumbling hallucinatory style, and the subsequent obscenity trial that it provoked. It is dedicated to Ginsberg's friend Carl Solomon (1928-1993), whom he met in a mental institution. Carl Solomon is addressed by name throughout the poem, which also includes references to many other Beat figures, including Neal Cassady, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Peter Orlovsky, Lucien Carr, and Herbert Huncke.
Artigo completo Aqui

Howl
I
I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical
naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,
angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry
dynamo in the machinery of night,
who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in the
supernatural darkness of cold-water flats
floating across the tops of cities contemplating jazz,
who bared their brains to Heaven under the El and saw Mohammedan angels
staggering on tene- ment roofs
illuminated (...)

15 maio 2007

doze e trinta

"We are all headed to the great stone garden"

Psycho Realm

"Da concentração nasce a sabedoria - e só a leviandade do teu espírito te pode aniquilar. Atenta bem como esta via em duas se divide: numa direcção tens a morte, na outra tens a vida. Pois bem: de maneira decidida escolhe a Senda que aumentará a tua sabedoria."

Buda, As Sentenças da Lei


Estranhas trips existencialistas nesta tarde de Terça-Feira, quinze de Maio de dois mil e sete. São doze e trinta.

O que se passa aqui?

Andei às voltas de carro, ontem, pelas ruas vazias procurando a mais ténue presença de provas que justifiquem este silêncio ecoante. Gaia está vazia de vida, Oliveira do Douro é um buraco de névoa e casinhas pequenas e bafientas, ruas estreitas, lâmpadas de mercúrio que pintam o ar de laranja. Agente Laranja a queimar pessoas - não - imagens há anos e agora e sempre. Amén!
A Laranja da faculdade e o seu cabelo e pinta intelectual falhada... enganos atrás de enganos e olhares que tentam ser provocantes de presença e apenas conseguem ser vácuos e insignificantes.

Desço até ao Areínho pelos paralelos húmidos. O carro derrapa nas curvas feitas com velocidade excessiva. Música alta, janela aberta para o ar se agitar em mim. Nenhuns olhos atrás das persianas - os máximos não iluminam as pupilas dilatadas do pessoal escondido na paragem desactivada. Fumam ganzas; falam alto; espantam a morte que sobe do rio. Só à noite ele volta a ser dourado nas luzes reflectidas. As luzes calorosas da roullote da Aninhas do outro lado da margem. Os salgueiros gemem sob a brisa... ou serão carvalhos? Caralho!

Não paro para pensar melhor - sigo e esqueço. Avanço lentamente (cuidado com as bandas sonoras!) até à praia manhosa que me aguarda.

Isto é assim: não é aqui que queria estar. Não estou como gostaria de estar. Não posso querer estar assim. É isto que sobra no final da noite. Quando toda a gente foi para casa e se guardaram as máscaras e as pinturas... uma praia deserta, um clio branco e fumegante e carros de vidros embaciados. Abanam-se com sombras frenéticas. Pelo menos, SE FOSSE COMIGO ABANARIAM. !TOTIL!

Eu vejo as pontes. Ao lado tenho uma quinta abandonada para onde ia em explorações com o meu pai quando era mais pequeno. Eu sofria de asma e os médicos acharam por bem que eu fosse andar e respirar ar puro. Os meus domingos eram passados entre árvores e pinhais em carreiros antigos... por entre restos de propriedades nas quais Abril deu a última machadada. Histórias de loucura e fugas para o Brasil. Uma igreja românica perdida entre Oliveira do Douro e Quebrantões. No meio do nada. Será que os ressacas ainda a usam? Era uma alegria essa quinta. Atrás de mim, quando isto não tinha saída, vinha lançar papagaios. Em 1987, 1989 um magnífico papagaio vermelho e amarelo; grande; dia de muito vento e linha de pesca de '80 mm. Ele voava lindamente enquanto eu corria à volta do Toyota Corolla cinzento metalizado. Depois, mais tarde, ia morrendo afogado na Pedra Salgada enquanto os outros miudos fugiam assustados. E o rio inalterado onde o meu avô nadou há sessenta e oito anos atrás. Agora estou eu aqui, à distância - do tempo e dinheiro para uma instrução - do meu avô com a quarta classe mal tirada; que aos cinco anos guardava animais nas quintas onde brinquei; que fez projectos que engenheiros se negaram a fazer e disseram que não iriam ser possíveis; do meu pai, próximo e tão diferente e cansado pela vida e pelos stresses, pelas responsabilidades, pelas gerações que passaram entre eu e ele.

Estou aqui e vou fumar um antes que a música acabe e vou ver as pontes e sentir-me humano: próximo de tudo, separado de todos. Não quero voltar a casa agora quando sei que vou

encontrar a ausência,
o reverso da tua presença,
o perfume das curvas do teu corpo na cama feita
e desfeita à pressa no chão e tu não,
fluída poesia de quem ama e faz do amar uma forma de perfeição.

Aqui sou unicelular e real. Não há enganos: apago a luz e desapareço fundido no interior do metal. Fumo. Permaneço alheio às mãos e ele aparece feito e aceso enquanto pensava. Agora resta-me ouvir a música, recostar-me, evitar adormecer. Pensar no lar que permanece um sonho, nos amigos perdidos nas noites dos sentidos, nos amigos encontrados. Nas faces que permanecem anónimas em mim enquanto há alguém que no mundo se agita atrás de um balcão e trabalha até à exaustão, enquanto homens e mulheres fogem da vida que tinham, enquanto crianças choram de barrigas vazias, enquanto políticos nos alimentam de mentiras. Será que alguma vez reconhecemos alguém através das fronteiras cavadas pelas palavras, nas sentenças das acções? As pessoas e a face lunar... a ausência de iluminação pública na noite social. Contos e mais histórias de trips de sobrevivência, "acabar com o próximo antes que ele acabe comigo": viver governado pelo medo do estranho numa superioridade deífica de quem defende e foge à consciência - um deus medroso.

O paiva está quase no fim. São horas de deixar de fugir. Voltar para casa e dormir. Esquecer.

Ligo o carro. As luzes. A ponta voa para o silêncio e as memórias fora da janela. Embraio e destravo. Fui.

E é o dia seguinte e estou em Ahmed, um kebab à minha frente, multiplas cervejas e uma aula à minha espera. Sei que vou lá chegar já ligeiramente bêbedo e é terça e o negócio às terças é sempre fraco. Que conceito básico e estranho: "TERÇA-FEIRA". O que é diferente na textura deste dia para o de ontem, para o de amanhã?

O enorme kebab já foi... como um dos desaires da idade adulta que têm de se enfrentar sozinho e cheio de força. Ando saudosista como chiquinho, respirar o mesmo ar descomprometido dos longos relvados: amigos... Ando pela cidade à procura: faces conhecidas para alegrar a malandragem.

Enquanto Ahmed agita o mundo que vive nas caves do seu frigorífico acabo de beber. Todas as coisas boas e o seu fim: tenho a aula à minha espera - uma aula sobre o significado do insignificante - e uma tarde demasiado longa para gastar.

22 abril 2007

espaço para dúvidas

Não há espaço para dúvidas, hesitações, questões.
Há que agir, agitar, acordar as forças ocultas e fazer
- ser homem, deixar de ser criança.

É assim que tenho vivido os meus dias: sem espaço para a contemplação de um beijo, para o silêncio de um abraço. Esperam que eu seja uma máquina avulsa, algo que se tira do bolso e fica pronto a agir. Máquina assentimental, máquina fria, máquina automática como nunca poderei ser.

Trabalho, não me pagaram o último mês... todos os esforços para a minha evolução me parecem inúteis... não conheço ninguém que me possa orientar no meio; os meus trabalhos infantis nem em escritórios ficariam bem: obra de ninguém para ninguém... obras de nada retratado e assegurado - o nada de que se foge com objectos que acabam mortos em gavetas. Dizem-me para ter paciência: para escavar o meu orgulho até que ele deixe de existir... que estas situações são normais, comuns até, que em todo o lado está assim.

Eu deixo andar por que é essa a minha natureza... irá resolver-se, irá passar, irá ficar melhor... enquanto isso o tempo passa e eu estou cada vez pior: mais distante, reencontro a solidão onde escondo a vergonha da minha estupidez... a minha inabilidade em lidar com o mundo.

Há dias em que não me apetece decidir: quero apenas ficar em casa, olhar o tecto, deixar o mundo passar ao lado e tentar não me queimar na sua cauda incandescente... tento a fuga a qualquer decisão que me tentem obrigar a tomar... mas há a tirania daquele obejcto que nunca desligo e que toca e me chama e me diz que devo estar noutro sítio, noutra hora, que há desejos que devem ser cumpridos sem cumprirem... Já passei demasiadas noites só: o olhar que olhava, há muito partido, segundo plano de mim no escoar da madrugada...

Há momentos em que não quero tomar decisões, reorganizar a minha vida num acesso de egoísmo que revejo milhares de vezes, mas que me negam... ninguém espera que um fraco seja capaz de decidir. Por isso as reticências... a incerteza de como as coisas se completam... onde começam e acabam os dias, as horas que tento partilhar para ouvir "não"... há sempre outro espaço, menos para mim que aguardo, obediente, o chamamento.

A cada dia que passa escuto os passos dos meus sonhos a afastarem-se... a acenarem em direcção ao cais em que me encontro. E eu, estupidamente, vejo-os partir incrédulo enquanto fico mais vazio, nú, desinteressante. Apenas mais um falhado... um desperdício de materia.
Quase que era um génio; quase que todos os livros que li até hoje serviram para algo; quase que todos os meus esforços valeram a pena;
quase que,
quase que,
quase que...

Já chega de queixas: vou almoçar para voltar ao trabalho....

josé de arimateia, deprimido para além do conceito

02 abril 2007

sinais

esgotamos todas as possibilidades
da noite; esgotamos todas as possibilidades
da noite; esgotamos
todas as noites
         noite,
noites,
gigantes púrpura e fumo,
noites e noites, infindáveis
- até à manhã;
noites surdas, noites frias

aguardam-se as vozes escondidas
atrás do plástico dos telefones-espelhos
clamando a imensa presença impossível.
         aguardam-se as vozes,
vozes de plástico, vozes de telefone
na noite - nos espelhos que gritam,
no grito da improvável presença
aguardo a voz, aguardo a voz,
aguardo a voz... humana,
         aguardo...
desde o anoitecer ao granito
duro, que reflecte a luz
         e mata
a ilusão daninha

         o corpo,
o corpo dá-se,
relembrando uma existência:

figuras estranhas e o corpo grita,
figuras estranhas e os corpos desenham-se,
figuras estranhas e explode o apelo,
a chamada surda que atravessa as profundas linhas
         e lhes dá sentido.

          é manhã,
escutamos os sinais
-fazemos silêncio e o dia canta.

mãos

          as mãos que agarram o vício
são as mesmas que abraçam o silêncio do corpo
entre o fumo e o fogo e as cinzas;
nos espaços em branco escreve-se a história
que as palavras não conseguem contar
          e se limitam a adiar
- uma estranha forma de verdade silênciosa
a verdade, a nudez, a mudez
e os olhares que se encontram na pele,
a comunicação do atrito
          as mãos.