"I shared a vagrant optimism that some of us were making real progress, that we had taken an honest road and that the best of us would inevitably make it over the top.
At the same time, I shared a dark suspicion that the life we were leading was a lost cause, that we were all actors, kidding ourselves along on a senseless odyssey. It was the tension between these two poles - a restless idealism on one hand and a sense of impending doom on the other - that kept me going."
Thompson, Hunter S., The Rum Diary
Por onde começar?
Primeiro o livro: "The Rum Diary", "Diário a Rum" em português, a história de um pasquim noticioso que se afunda... Salários por pagar, espancamentos no meio da selva, delírios alcoólicos... Algures lá no meio surge algo de semelhante ao amor ou a um desejo carnal incontrolável. Mas é apenas um lampejo fugaz num mar de areias movediças. A fragmentação é completa no fim; o colapso físico e mental das personagens anuncia a mudança total.
Segundo: o porquê...
Bom,as semelhanças com a minha história são brutais. Pelo menos na parte do pasquim, de me terem tentado espancar em plena selva urbana e do não ser pago... pena é não estar nas Caraíbas para o rum ser barato e a rodos. De qualquer forma, escolhi este parágrafo porque, apesar das dificuldades presentes, está cheio de um optimismo que só se encontra na juventude. Não sabe para onde está a ir, nem como... mas vai e acredita que o melhor vai acontecer a quem o merecer. Pronto, isto também é muito americano - e vocês sabem do que estou a falar: o espírito empreendedor, um certo determinismo pueril, demasiadas aulas de Cultura Norte-Americana... Apesar desta interrupção no fio discursivo que se renova na vossa cabeça com cada nova palavra, a personagem vivia porque sabia que não podia ficar parado; tinha de atacar.
Contrastando:
É excruciantemente lento o processo para efectivamente fazer algo. E os retrocessos apagam sempre todo o caminho percorrido - parece que nunca nada aconteceu. E a importância atribuída a pormenores completamente mesquinhos... É um sistema assente no seu próprio caos. Bahhh!!! Asco!
Na falta de rum tento apagar o cérebro que pensa no engano com umas super bocks... algum Raki para facilitar a digestão... um bagaço para desenjoar... Não paro de pensar em como, subitamente, tudo se tinha alterado. Não falo apenas do trabalho: isso, no âmbito geral, até é pouco importante. Falo da quantidade de acontecimentos que se precipitaram em catadupa, como uma imensa torrente finalmente livre; a quantidade de pessoas que partiram e vão voltando; um tempo que subitamente se tornou tortura e passa demasiadamente rápido encurtando os dias. Mas o melhor vai acontecer a todos eles e isso traz-me um sorriso aos lábios. E, apesar de nunca me ter visto como uma daquelas pessoas "feitas" para algo, acredito também que sou capaz. Não há descanso no alcool.
Pela madrugada fora, em direção à exaustão, vou indo eu na estrada do meu sucesso relativo.
Um brinde mais, apenas:
À vida que tento construir.
20 setembro 2007
18 setembro 2007
07 setembro 2007
De dentro da mochila do fotógrafo
Foge aos monstros
que nos levam alma e sangue
nos burocráticos confrontos
de cada dia
- onde nos roubam a vida e as horas
das mãos e ferem de morte
os olhos que tens para o mundo
Pouco viste da beleza do dia
- o calor e o sol são miragens
na aridez do teu deserto de papel;
poucas vozes as familiares
e todas as mãos que vês trazem
nelas a palavra traição
a refulgir entre os dedos.
Agora,
a estrada lunar brilha
recordando a vaga promessa:
a harmonia e o êxtase
da tua chama em mim
mas o caminho é delicado:
O chão está líquido como o mar
e sobre ele corro:
corro sobre as negras águas da noite
para chegar a ti.
que nos levam alma e sangue
nos burocráticos confrontos
de cada dia
- onde nos roubam a vida e as horas
das mãos e ferem de morte
os olhos que tens para o mundo
Pouco viste da beleza do dia
- o calor e o sol são miragens
na aridez do teu deserto de papel;
poucas vozes as familiares
e todas as mãos que vês trazem
nelas a palavra traição
a refulgir entre os dedos.
Agora,
a estrada lunar brilha
recordando a vaga promessa:
a harmonia e o êxtase
da tua chama em mim
mas o caminho é delicado:
O chão está líquido como o mar
e sobre ele corro:
corro sobre as negras águas da noite
para chegar a ti.
23 agosto 2007
Delírios postais (cartas de hunter s. thompson lidas por johny depp)
Nada é melhor do que a comunicação entre dois espíritos livres.
15 agosto 2007
pomo do poema
Meus são os passos que perturbam
o teu pacífico sono,
a imitação do justo,
e deslizam na noite.
Minhas as sombras que se arrastam
sob a crua inclemência dos néons.
Se sou críptico é porque espero
ver surgir de uma rua qualquer
os olhos racionais que consigam
experimentar o real,
morder o pomo do poema.
o teu pacífico sono,
a imitação do justo,
e deslizam na noite.
Minhas as sombras que se arrastam
sob a crua inclemência dos néons.
Se sou críptico é porque espero
ver surgir de uma rua qualquer
os olhos racionais que consigam
experimentar o real,
morder o pomo do poema.
Tecido não uniforme da noite
Os candeeiros vão acumulando pó sobre a luz. Ela fica inteligivelmente mais escura, progressivamente parece mais escura e fecha-se. De fora das janelas há pessoas que espreitam, sonhando com uma casa e uma felicidade possível, aparentemente demasiadamente longe daqui, destas ruas empedradas e sujas. Oportunidades por realizar sob o céu estrelado enquanto música de festa enche a noite… e há foguetes e festejos e nos olhos das pessoas só se lê alheamento e desilusão – e não se escuta um sorriso.
Como será atravessar estas noites olhando para baixo, para a terra escura que se curva sob nós, sem um sinal de vida táctil?
De onde estou tenho uma vista oblíqua do Porto, da fogueira dos seus néons sob a mudez da noite. As minhas palavras parecem e soam tão secas como este solo inculto, destruído, onde fomos trazidos para a vida… resta-me observar, pensar sem palavras ou fechando-as dentro de mim para ninguém as escutar e fazer a insónia passar indolor sobre a pele e a mente.
A noite não é um tecido uniforme: são necessários olhos hábeis para reconhecer os tremores com que ela anuncia as suas mutações, os seus perigos. Não há fuga desta prisão: estamos aqui encarcerados e somos forçados a viver, a existir, a coexistir quando só queremos fugir… encontrar um local com as mesmas mentiras, mas diferentes.
Agora enrolo um charro e continuo a ver as luzes enquanto cães vadios cantam a sua dor, a sua eloquente solidão. Hoje não me quero imaginar lá fora, calcorreando as ruas na minha habitual indigência. Nessas alturas, nas minhas vagabundagens habituais pelas cidades que visito, pergunto-me se vivo ou habito uma ilusão… se há algum farol para as mágoas e para os vícios com que tento sufocar o corpo. Ainda me sinto demasiado jovem para existir na certeza de uma morte anunciada (e agora já não faço sentido nenhum).
Sempre existi com a sensação de que algo me separava irrevogavelmente dos outros. Em vinte e dois anos ainda não consegui descobrir o quê exactamente. Quando era criança e vivia no quente abraço do lar e os dias brilhavam sem tempo nem duvidas e uma pálida noção de futuro se estendia logicamente perante mim tinha medo das sombras e dos ruídos que invadiam o mundo quando tudo se apagava e os sentidos se tornavam uma mentira grave. Sempre à procura de um refúgio para o medo, acreditando na pureza das palavras… na sua inexplicável eternidade.
Agora poucas recordações tenho e ainda menos as coisas que consigo explicar ou desenvolver quando me pedem uma opinião sincera. De tanto me esconder fiquei esquecido numa gaveta e apenas consigo descrever a aridez do mundo em que me encontrei depois de viagens simples através do país… esperas eternas por autocarros malcheirosos e cheios que me levavam de lado nenhum para outro. Perto do mediterrâneo, mas ainda demasiado longe, via o por do sol mourisco com a cabeça encostada às memórias das muralhas que fechavam a cidade velha. Havia um velho navio mercante que rangia ao sabor da corrente da ria: a sua silhueta ferrugenta agitava-se enquanto o sol caía e eu fumava iludido. Sempre só, cruzava-me com os comboios, perdia-me na ordenação caótica das ruas que levavam à sé velha… nos degraus havia desconhecidos a fumar haxixe, quebrando as ilusões do seu tempo, esquecendo o cansaço do seu trabalho, procurando um antídoto para a passagem das horas no velho relógio parado. O silêncio era absoluto no cais – eu fumava. Havia uma sensação de unidade com a natureza, uma quietude impossível na cidade nublosa em que vivo: apenas eu e a natureza e, como eu, ela estava sozinha e continuava a existir orgulhosa. Depois, quando tudo estava terminado, eu voltava para casa, para os alimentos que me emprestavam para eu sobreviver, para a enxerga que me tinham cedido para repousar, para o corpo que me tinham emprestado para foder, para o descanso e companhia com que me tapavam os olhos para eu dormir.
Havia sempre a despedida, normalmente depois de me ter afundado nas areias movediças das promessas que não queria fazer, que sabia que não seriam cumpridas.
E processava-se a despedida, sem uma lágrima: um adeus fácil após os corpos se terem saciado no sexo, no despertar insincero da libido. A camioneta partia, as costas voltavam-se e tudo estava enterrado de novo para voltar a despertar quando os aromas do desejo subissem de novo do meio das pernas e nenhum corpo confiante estivesse lá para o matar.
Já não volto mais a essa cidade. A essas mentiras com que passavam o tempo e tentavam sentir vivos sentindo os dedos frios da morte a apertar-se à volta do pescoço que eu apertava com força enquanto fodia, tentando arrancar um pouco de sinceridade dele, um gemido, uma réstia de vida que contrariasse a música triste da noite fechada sobre os corpos - que depois cruzavam as costas e dormiam ainda mais sós.
Agora a única recordação que possuo é esse por do sol que só eu via, o silêncio que eu encontrava na paz desse momento e me negavam enquanto eu vivesse ali.
Aqui não há personagens, há fantasmas sem nome representativos dos impulsos vitais da personagem… para quê nomear ilusões que se atravessam na nossa vida procurando a sua felicidade, escondendo a sua fealdade na promessa do amor?
Poucas são as pessoas que merecem o nome, a memória… esqueci grande parte do meu passado de livre vontade… os fármacos e as drogas e o álcool e a dor ajudaram à partida de muito mais do que eu desejava. Um homem quase sem passado em busca de futuro. Acima de tudo uma personagem tragicamente cómica sentada no sopé de uma escada escutando a lua; uma resposta celeste.
Agora o presente: fiz hoje um poema com o meu corpo em ti. Sem palavras, sem a sua necessidade… Tento comunicar através da noite, da insónia que o teu corpo deixa em mim quando nos encontramos em quartos anónimos e abandonados – ainda sinto a forma do teu rosto no meu antebraço, o calor da tua boca no meu peito enquanto dormias sobre o meu braço.
J. acordava sempre antes de eu abrir os olhos. Para se preparar para o dia escondendo o mistério da sua pele de mim, o seu homem. Mesmo aqui, nesta casa emprestada para os nossos encontros e que começa a adquirir o nosso calor, o cheiro das nossas bocas, ela finge que dorme escondendo de mim o enorme sorriso dos seus olhos.
Gritos circulam sobre a pele e o pó acumula-se sobre as luzes apagadas; estamos calmos e sentimos.
Como será atravessar estas noites olhando para baixo, para a terra escura que se curva sob nós, sem um sinal de vida táctil?
De onde estou tenho uma vista oblíqua do Porto, da fogueira dos seus néons sob a mudez da noite. As minhas palavras parecem e soam tão secas como este solo inculto, destruído, onde fomos trazidos para a vida… resta-me observar, pensar sem palavras ou fechando-as dentro de mim para ninguém as escutar e fazer a insónia passar indolor sobre a pele e a mente.
A noite não é um tecido uniforme: são necessários olhos hábeis para reconhecer os tremores com que ela anuncia as suas mutações, os seus perigos. Não há fuga desta prisão: estamos aqui encarcerados e somos forçados a viver, a existir, a coexistir quando só queremos fugir… encontrar um local com as mesmas mentiras, mas diferentes.
Agora enrolo um charro e continuo a ver as luzes enquanto cães vadios cantam a sua dor, a sua eloquente solidão. Hoje não me quero imaginar lá fora, calcorreando as ruas na minha habitual indigência. Nessas alturas, nas minhas vagabundagens habituais pelas cidades que visito, pergunto-me se vivo ou habito uma ilusão… se há algum farol para as mágoas e para os vícios com que tento sufocar o corpo. Ainda me sinto demasiado jovem para existir na certeza de uma morte anunciada (e agora já não faço sentido nenhum).
Sempre existi com a sensação de que algo me separava irrevogavelmente dos outros. Em vinte e dois anos ainda não consegui descobrir o quê exactamente. Quando era criança e vivia no quente abraço do lar e os dias brilhavam sem tempo nem duvidas e uma pálida noção de futuro se estendia logicamente perante mim tinha medo das sombras e dos ruídos que invadiam o mundo quando tudo se apagava e os sentidos se tornavam uma mentira grave. Sempre à procura de um refúgio para o medo, acreditando na pureza das palavras… na sua inexplicável eternidade.
Agora poucas recordações tenho e ainda menos as coisas que consigo explicar ou desenvolver quando me pedem uma opinião sincera. De tanto me esconder fiquei esquecido numa gaveta e apenas consigo descrever a aridez do mundo em que me encontrei depois de viagens simples através do país… esperas eternas por autocarros malcheirosos e cheios que me levavam de lado nenhum para outro. Perto do mediterrâneo, mas ainda demasiado longe, via o por do sol mourisco com a cabeça encostada às memórias das muralhas que fechavam a cidade velha. Havia um velho navio mercante que rangia ao sabor da corrente da ria: a sua silhueta ferrugenta agitava-se enquanto o sol caía e eu fumava iludido. Sempre só, cruzava-me com os comboios, perdia-me na ordenação caótica das ruas que levavam à sé velha… nos degraus havia desconhecidos a fumar haxixe, quebrando as ilusões do seu tempo, esquecendo o cansaço do seu trabalho, procurando um antídoto para a passagem das horas no velho relógio parado. O silêncio era absoluto no cais – eu fumava. Havia uma sensação de unidade com a natureza, uma quietude impossível na cidade nublosa em que vivo: apenas eu e a natureza e, como eu, ela estava sozinha e continuava a existir orgulhosa. Depois, quando tudo estava terminado, eu voltava para casa, para os alimentos que me emprestavam para eu sobreviver, para a enxerga que me tinham cedido para repousar, para o corpo que me tinham emprestado para foder, para o descanso e companhia com que me tapavam os olhos para eu dormir.
Havia sempre a despedida, normalmente depois de me ter afundado nas areias movediças das promessas que não queria fazer, que sabia que não seriam cumpridas.
E processava-se a despedida, sem uma lágrima: um adeus fácil após os corpos se terem saciado no sexo, no despertar insincero da libido. A camioneta partia, as costas voltavam-se e tudo estava enterrado de novo para voltar a despertar quando os aromas do desejo subissem de novo do meio das pernas e nenhum corpo confiante estivesse lá para o matar.
Já não volto mais a essa cidade. A essas mentiras com que passavam o tempo e tentavam sentir vivos sentindo os dedos frios da morte a apertar-se à volta do pescoço que eu apertava com força enquanto fodia, tentando arrancar um pouco de sinceridade dele, um gemido, uma réstia de vida que contrariasse a música triste da noite fechada sobre os corpos - que depois cruzavam as costas e dormiam ainda mais sós.
Agora a única recordação que possuo é esse por do sol que só eu via, o silêncio que eu encontrava na paz desse momento e me negavam enquanto eu vivesse ali.
Aqui não há personagens, há fantasmas sem nome representativos dos impulsos vitais da personagem… para quê nomear ilusões que se atravessam na nossa vida procurando a sua felicidade, escondendo a sua fealdade na promessa do amor?
Poucas são as pessoas que merecem o nome, a memória… esqueci grande parte do meu passado de livre vontade… os fármacos e as drogas e o álcool e a dor ajudaram à partida de muito mais do que eu desejava. Um homem quase sem passado em busca de futuro. Acima de tudo uma personagem tragicamente cómica sentada no sopé de uma escada escutando a lua; uma resposta celeste.
Agora o presente: fiz hoje um poema com o meu corpo em ti. Sem palavras, sem a sua necessidade… Tento comunicar através da noite, da insónia que o teu corpo deixa em mim quando nos encontramos em quartos anónimos e abandonados – ainda sinto a forma do teu rosto no meu antebraço, o calor da tua boca no meu peito enquanto dormias sobre o meu braço.
J. acordava sempre antes de eu abrir os olhos. Para se preparar para o dia escondendo o mistério da sua pele de mim, o seu homem. Mesmo aqui, nesta casa emprestada para os nossos encontros e que começa a adquirir o nosso calor, o cheiro das nossas bocas, ela finge que dorme escondendo de mim o enorme sorriso dos seus olhos.
Gritos circulam sobre a pele e o pó acumula-se sobre as luzes apagadas; estamos calmos e sentimos.
Viagens de autocarro - entrada no Porto
Nas viagens de autocarro o olhar perde-se, distraído, em casas recheadas de lixo; condomínios de cinco estrelas para ratazanas são coabitados por pessoas pequenas e morenas, tristes e sombrias entre a humidade dos tectos abatidos e das janelas partidas. Todos eles assustadoramente reais e palpáveis… caminhando enquanto sorriem para as ruas cobertas por uma pátina escura de gordura humana e fumo. E toda uma multidão de loucos tenta a corrida sobre ela.
Os paralelos e as fachadas asfixiam-nos a alma, absorvem a luz; recortam arbitrariamente o céu e distribuem as sombras fugazes que nos atravessam o rosto.
Todos os dias atravesso a cidade e observo o esplendor da sua decadência, escuto o excruciante ranger da sua mecânica, buscando a razão das suas depredações sigo as multidões carnais que correm em busca de mais um sorvedouro de sangue para se alimentarem. Nada encontro, excepto o poço transfigurante do querer, da limpeza que ele actua sobre a memória e as crenças reduzindo-as a escrúpulos deselegantes… algo que não deve ser levado a sério – uma brincadeira de criança realizada. Como se fosse normal viver entre um mundo de lama, sustido na exploração auto-explicada do suor, crendo que após a posse tudo é purificado e explicado no estranho esgar que se vê surgir logo atrás do primeiro olhar.
Mas enquanto a chuva se alonga nesta manhã triste e concorrida e eu compreendo a inutilidade da minha existência relativa no calor de uma camioneta a cair de podre, há pessoas que acordam nas arcadas de prédios cobertas de água, há pessoas que despejam o lixo pelas janelas partidas do prédio abandonado ao lado do seu, há pessoas que tomam o primeiro bagaço da manhã (o dia está frio e húmido e é preciso aguentar até logo, até chegar a casa, onde tudo se parte e desmorona), há pessoas que se dirigem para a escola para se esconderem das brutas realidades da vida quotidiana, há taxistas, putas velhas, cansadas, insuspeitas como a nossa avó, que regressam a casa – e há a cegueira de todos: a barreira que oferecemos à realidade para a conter, longe de nós, da ponta quente dos nossos dedos, da carícia aveludada do olhar.
Em que pensarão estas pessoas, olhando como estranhas para a vida que podia ter sido a delas; de onde vem este aceitamento bovino? poderiam estar a conduzir-nos para o nosso fuzilamento desde que nos deixassem possuir as nossas magras vitórias…
Quando se abrem os olhos e se vêem os Homens, o que se vê raramente corresponde à realidade: vê-se a janela fechada, os bens e o ouro guardados por detrás dos lábios fechados e do olhar negro. A aparência, toda a ilusão da sobrevivência num cuidadoso jogo teatral – e onde estou eu aqui, fingindo duplamente; dividido entre o ser, a aparência, a escrita… sem saber onde jaz a Vida.
Podem surgir coincidências interessantes: o respeitável pai, trabalhador sério e respeitável pode ser um putanheiro, um violador, um espancador familiar (com um pouco se sorte mediática e know-how pode até ser uma boa notícia para qualquer jornal - para menos pessoas serem atingidas por pedras que podem ferir os telhados de vidro das suas ilusões.); ou a mesma mãe carinhosa pode queimar as mãos do filho por ele ter roubado 2 Euros para comprar gomas ou foguetes para se sentir parte da mesma existência dos seus colegas; ou, com um pouco de menos sorte ou mau karma, os teus pais podem ser ressacas, alcoólicos, perversos, ou tudo isto… e tu és o brinquedo novo, pronto a ser partido.
São poucas as pessoas que se apercebem de que há algo mais importante por detrás dos gestos mais banais: mesma respiração, o mesmo impulso humano expresso na silenciosa fonética do corpo uma tentativa de alcançar e suprimir o desejo.
Contudo, é interessante ver as enormes confusões causadas pela preciosa incompreensão, a cegueira da inteligência.
Os paralelos e as fachadas asfixiam-nos a alma, absorvem a luz; recortam arbitrariamente o céu e distribuem as sombras fugazes que nos atravessam o rosto.
Todos os dias atravesso a cidade e observo o esplendor da sua decadência, escuto o excruciante ranger da sua mecânica, buscando a razão das suas depredações sigo as multidões carnais que correm em busca de mais um sorvedouro de sangue para se alimentarem. Nada encontro, excepto o poço transfigurante do querer, da limpeza que ele actua sobre a memória e as crenças reduzindo-as a escrúpulos deselegantes… algo que não deve ser levado a sério – uma brincadeira de criança realizada. Como se fosse normal viver entre um mundo de lama, sustido na exploração auto-explicada do suor, crendo que após a posse tudo é purificado e explicado no estranho esgar que se vê surgir logo atrás do primeiro olhar.
Mas enquanto a chuva se alonga nesta manhã triste e concorrida e eu compreendo a inutilidade da minha existência relativa no calor de uma camioneta a cair de podre, há pessoas que acordam nas arcadas de prédios cobertas de água, há pessoas que despejam o lixo pelas janelas partidas do prédio abandonado ao lado do seu, há pessoas que tomam o primeiro bagaço da manhã (o dia está frio e húmido e é preciso aguentar até logo, até chegar a casa, onde tudo se parte e desmorona), há pessoas que se dirigem para a escola para se esconderem das brutas realidades da vida quotidiana, há taxistas, putas velhas, cansadas, insuspeitas como a nossa avó, que regressam a casa – e há a cegueira de todos: a barreira que oferecemos à realidade para a conter, longe de nós, da ponta quente dos nossos dedos, da carícia aveludada do olhar.
Em que pensarão estas pessoas, olhando como estranhas para a vida que podia ter sido a delas; de onde vem este aceitamento bovino? poderiam estar a conduzir-nos para o nosso fuzilamento desde que nos deixassem possuir as nossas magras vitórias…
Quando se abrem os olhos e se vêem os Homens, o que se vê raramente corresponde à realidade: vê-se a janela fechada, os bens e o ouro guardados por detrás dos lábios fechados e do olhar negro. A aparência, toda a ilusão da sobrevivência num cuidadoso jogo teatral – e onde estou eu aqui, fingindo duplamente; dividido entre o ser, a aparência, a escrita… sem saber onde jaz a Vida.
Podem surgir coincidências interessantes: o respeitável pai, trabalhador sério e respeitável pode ser um putanheiro, um violador, um espancador familiar (com um pouco se sorte mediática e know-how pode até ser uma boa notícia para qualquer jornal - para menos pessoas serem atingidas por pedras que podem ferir os telhados de vidro das suas ilusões.); ou a mesma mãe carinhosa pode queimar as mãos do filho por ele ter roubado 2 Euros para comprar gomas ou foguetes para se sentir parte da mesma existência dos seus colegas; ou, com um pouco de menos sorte ou mau karma, os teus pais podem ser ressacas, alcoólicos, perversos, ou tudo isto… e tu és o brinquedo novo, pronto a ser partido.
São poucas as pessoas que se apercebem de que há algo mais importante por detrás dos gestos mais banais: mesma respiração, o mesmo impulso humano expresso na silenciosa fonética do corpo uma tentativa de alcançar e suprimir o desejo.
Contudo, é interessante ver as enormes confusões causadas pela preciosa incompreensão, a cegueira da inteligência.
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