28 setembro 2008

Ressacas

(de passagem rápida pelo cerco do porto)

Comprimem os corpos magros
no ansioso buraco que os serve
a estrada corre ao lado
          negra e rápida

é só uma questão de tempo
agora a agulha espera
soberana hipodérmica
marcando o tic-tac do relógio mental
          (o outro foi vendido)
há o fogo, os ácidos naturais
que corroem os dedos e a pele fraca

os enigmas intravenosos já não são um desafio
sob a magra luz verde dos seus olhos

concentração entre o lixo e o silêncio
é esta madrugada que os sustenta
e é este o momento em que o mundo pára

a agulha, esse metálico sexo que fura a pele
mil orgasmos de sangue e a desagregação
          o corpo e a luz
mas aqui nada é iluminado e a corrida termina
          no coração parado

- todas estas faces são anónimos relâmpagos
que fazem a multidão cega tremer.

Brincadeira

as noites são passadas
esquecendo o traumático pânico
esperando uma salvação não religiosa
da loucura e perda de tempo

          um gesto apenas
e a lembrança de tudo seria recuperada

- na realidade,
estou cansado de ver o dia nascer
          sozinho

entre dois silêncios

espero-te onde as palavras terminam
e começa a vida
          agora.
o outono acende o desejo
- a tepidez da pele
substitui o calor dos dias

09 setembro 2008

Girls

reconstruo o desejo
nas duas dimensões
de uma fotografia

reconstruo tempos
dentro do tempo
          irrepetível

          estou cego
outros olhos revivem o teu corpo
e o meu é um inútil mecanismo
          que já não acende o teu

estou morto e a poesia morreu comigo