04 novembro 2008

É preciso Kalma

Kimmo Pohjonen & Samuli Kosminen and Kronos Quartet "Kalma"

Tive a oportunidade de ver este senhor ao vivo pela primeira vez. A Casa da Música foi o local que recebeu Kimmo Pohjonen Kluster sem o Kronos Quartet e acompanhado de Juuso Hannukainen nas percussões e samplers no lugar de Samuli Kosminen. Apesar da composição minimalista a Sala Suggia ficou totalmente preenchida com a força interpretativa do dueto.

Ainda hoje não sei o que dizer sobre o concerto absolutamente fantástico que vi. É raro ver algo de absolutamente original no campo da música, muito menos esperava um espectáculo audiovisual em que som e luz ganharam a capacidade de produzir atmosferas que vão do religioso ao hipnotizante. A união entre o cibernético e o orgânico na música de Pohjonen esta carregada das tensões e incertezas que nos assombram. O concerto acaba e ficamos mais conscientes da música em nós - ou dos nosso reflexos na música.

Esta passagem fugaz pelo Porto, inserida numa minitour em Portugal, soube a muito pouco - pelo menos a mim. Ainda não há datas anunciadas para um regresso.

Kimmo Pohjonen, Keko

A segunda parte foi assegurada pelos também Finlandeses Värttinä, que apesar da qualidade e alegria das suas músicas, viram a sala esvaziar-se progressivamente ao longo do concerto. O ponto alto foi, sem dúvida, o solo de bateria que deixou quem ainda estava presente surpreendida com o alcance musical de uma banda claramente folk. O colectivo ganha com a expressão dramática das três vocalistas e com as magníficas vocalizações com que brindaram o público. Sem dúvida foi um concerto que passou, injustamente, ao lado da maioria das pessoas que se deslocaram à Casa da Música.

Värttinä,  Aitara

Värttinä, Käppee

Quando os predadores são as presas

Zita Swoon, Moving Through Life as a Prey

26 outubro 2008

Oba lá vem Ela

Uma das melhores músicas que tive oportunidade de ouvir nos últimos tempos. Jorge Ben directamente de um Brasil que vai ao encontro de todos os sonhos que temos dele. Acima de tudo um letrista e um músico incrível.

06 outubro 2008

Já nada tenho para ti

Já nada tenho para ti
apenas mãos cheias de cinza
e o corpo coberto pelas águas

 um pássaro canta
mas o mundo persiste
submerso no silêncio

sou nada
          sei agora
que sou nada
e a madrugada é uma lâmina
que se engole a custo
quando se desconhece
como fazer a vida
quando se descobre o tempo
a vã juventude que se esvai
como uma veia aberta

         já disse
nada tenho para ti

         agora
as mãos são um pasto de líquenes
e o corpo ficou consumido por um fogo
          agora apagado.

28 setembro 2008

Ressacas

(de passagem rápida pelo cerco do porto)

Comprimem os corpos magros
no ansioso buraco que os serve
a estrada corre ao lado
          negra e rápida

é só uma questão de tempo
agora a agulha espera
soberana hipodérmica
marcando o tic-tac do relógio mental
          (o outro foi vendido)
há o fogo, os ácidos naturais
que corroem os dedos e a pele fraca

os enigmas intravenosos já não são um desafio
sob a magra luz verde dos seus olhos

concentração entre o lixo e o silêncio
é esta madrugada que os sustenta
e é este o momento em que o mundo pára

a agulha, esse metálico sexo que fura a pele
mil orgasmos de sangue e a desagregação
          o corpo e a luz
mas aqui nada é iluminado e a corrida termina
          no coração parado

- todas estas faces são anónimos relâmpagos
que fazem a multidão cega tremer.