que vivem a poesia dentro de um diploma
num mero rasgo de papel superficial
sem qualquer calor
para eles não tenho mais nada senão
o meu ódio
um sexo gordo e erecto
e uma arma para acabar com o seu sofrimento
a minha caneta
sabes, a poesia é uma puta
que nas minhas palavras se torna santa
longe das considerações dos outros
e do vil metal que enche a tua boca
como tu, já vi eu muitos
e muitos mais rasguei sob os pés grandes
e pesados
sabes,
nunca gostei de me sentir preso
a religiosos cânones que tiram o sabor à vida
e a tornam
um pedaço de sémen de pus
uma delícia sincronizada
EFECTUADA friamente com essas mãos basculantes
Sobra a letargia da cultura podre
a ser varrida pelos gestos violentos
por estes dedos calejados
que exigem uma viagem
que nunca tiveste a coragem de tomar
Esta seria a experiência indicada
para a tua patologia crónica
que nada mudou nestes últimos anos
de morte carnavalesca
Mas és demasiado sério
levas a seriedade a um ponto invísivel
ordenas sem saber que tropas frias
invadem os campos de cinza
num OFF apagado pelo uso
e pelo cansaço do corpo vivo
um velho
apenas um velho que corre
para um autocarro que já partiu
cansado do cansaço do seu corpo
estás farto de viver
completo
e por isso escolheste ver apenas a relativa beleza
- os dias da juventude, o embrião da tua visão
meses e anos passados nos cínicos rítmos
dos créditos,
do pontual depósito com que se sacrifica
a liberdade
fizeram a tua existência de papel
mas eu é que estou morto
por apagar uma fuga narcótica
e procurar uma fuga transformadora
por consentir os pequenos hábitos
necessários
e pedir muito mais
algo em que possa tocar
e sinta
esventrada a quatro mãos por Daniel Ferreira e quase.