07 novembro 2008

Esta puta que fodemos

há muito tempo que odeio pseudos 
que vivem a poesia dentro de um diploma
num mero rasgo de papel superficial
         sem qualquer calor

para eles não tenho mais nada senão 
         o meu ódio
         um sexo gordo e erecto
e uma arma para acabar com o seu sofrimento
         a minha caneta

sabes, a poesia é uma puta 
que nas minhas palavras se torna santa
         longe das considerações dos outros
e do vil metal que enche a tua boca

como tu, já vi eu muitos 
e muitos mais rasguei sob os pés grandes
         e pesados
sabes, 
         nunca gostei de me sentir preso
a religiosos cânones que tiram o sabor à vida 
e a tornam 
um pedaço de sémen de pus
         uma delícia sincronizada
EFECTUADA friamente com essas mãos basculantes
         
Sobra a letargia da cultura podre
         a ser varrida pelos gestos violentos
         por estes dedos calejados
         que exigem uma viagem
que nunca tiveste a coragem de tomar

Esta seria a experiência indicada
         para a tua patologia crónica
         que nada mudou nestes últimos anos
                de morte carnavalesca

Mas és demasiado sério
levas a seriedade a um ponto invísivel
ordenas sem saber que tropas frias
invadem os campos de cinza
         num OFF apagado pelo uso
e pelo cansaço do corpo vivo

         um velho
apenas um velho que corre 
para um autocarro que já partiu
cansado do cansaço do seu corpo
estás farto de viver 
         completo 
e por isso escolheste ver apenas a relativa beleza 
- os dias da juventude, o embrião da tua visão

meses e anos passados nos cínicos rítmos
         dos créditos, 
do pontual depósito com que se sacrifica 
         a liberdade 
fizeram a tua existência de papel

mas eu é que estou morto
por apagar uma fuga narcótica
e procurar uma fuga transformadora
por consentir os pequenos hábitos 
         necessários
e pedir muito mais

algo em que possa tocar
         e sinta

 

esventrada a quatro mãos por Daniel Ferreira e quase.

04 novembro 2008

É preciso Kalma

Kimmo Pohjonen & Samuli Kosminen and Kronos Quartet "Kalma"

Tive a oportunidade de ver este senhor ao vivo pela primeira vez. A Casa da Música foi o local que recebeu Kimmo Pohjonen Kluster sem o Kronos Quartet e acompanhado de Juuso Hannukainen nas percussões e samplers no lugar de Samuli Kosminen. Apesar da composição minimalista a Sala Suggia ficou totalmente preenchida com a força interpretativa do dueto.

Ainda hoje não sei o que dizer sobre o concerto absolutamente fantástico que vi. É raro ver algo de absolutamente original no campo da música, muito menos esperava um espectáculo audiovisual em que som e luz ganharam a capacidade de produzir atmosferas que vão do religioso ao hipnotizante. A união entre o cibernético e o orgânico na música de Pohjonen esta carregada das tensões e incertezas que nos assombram. O concerto acaba e ficamos mais conscientes da música em nós - ou dos nosso reflexos na música.

Esta passagem fugaz pelo Porto, inserida numa minitour em Portugal, soube a muito pouco - pelo menos a mim. Ainda não há datas anunciadas para um regresso.

Kimmo Pohjonen, Keko

A segunda parte foi assegurada pelos também Finlandeses Värttinä, que apesar da qualidade e alegria das suas músicas, viram a sala esvaziar-se progressivamente ao longo do concerto. O ponto alto foi, sem dúvida, o solo de bateria que deixou quem ainda estava presente surpreendida com o alcance musical de uma banda claramente folk. O colectivo ganha com a expressão dramática das três vocalistas e com as magníficas vocalizações com que brindaram o público. Sem dúvida foi um concerto que passou, injustamente, ao lado da maioria das pessoas que se deslocaram à Casa da Música.

Värttinä,  Aitara

Värttinä, Käppee

Quando os predadores são as presas

Zita Swoon, Moving Through Life as a Prey

26 outubro 2008

Oba lá vem Ela

Uma das melhores músicas que tive oportunidade de ouvir nos últimos tempos. Jorge Ben directamente de um Brasil que vai ao encontro de todos os sonhos que temos dele. Acima de tudo um letrista e um músico incrível.

06 outubro 2008

Já nada tenho para ti

Já nada tenho para ti
apenas mãos cheias de cinza
e o corpo coberto pelas águas

 um pássaro canta
mas o mundo persiste
submerso no silêncio

sou nada
          sei agora
que sou nada
e a madrugada é uma lâmina
que se engole a custo
quando se desconhece
como fazer a vida
quando se descobre o tempo
a vã juventude que se esvai
como uma veia aberta

         já disse
nada tenho para ti

         agora
as mãos são um pasto de líquenes
e o corpo ficou consumido por um fogo
          agora apagado.