26 novembro 2008

Kingdom of Fear

We have become a Nazi monster in the eyes of the whole world, a nation of bullies and bastards who would rather kill than live peacefully. We are not just Whores for power and oil, but killer whores with hate and fear in our hearts. We are human scum, and that is how history will judge us. No redeeming social value. Just whores. Get out of our way, or we'll kill you. Who does vote for these dishonest shitheads? Who among us can be happy and proud of having all this innocent blood on our hands? Who are these swine? These flag-sucking half-wits who get fleeced and fooled by stupid little rich kids like George Bush? They are the same ones who wanted to have Muhammad Ali locked up for refusing to kill gooks. They speak for all that is cruel and stupid and vicious in the American character. They are the racists and hate mongers among us; they are the Ku Klux Klan. I piss down the throats of these Nazis. And I am too old to worry about whether they like it or not. Fuck them.

Thompson, Hunter S., Kingdom of Fear: Loathsome Secrets of a Star-crossed Child in the Final Days of the American Century (2004)

25 novembro 2008

Último Sinal de Rapaz Muco

            Movimento!!! Finalmente o mundo existe! - E é uma mentira que apenas me rouba o sono!

 

            Rapaz Muco, cresce sob uma má lua, uma lua vermelha que lhe mancha as mãos e suja os olhos. Falta-lhe a sensibilidade da poesia, as palavras leves, o brilho no olhar que fugazmente encheu os seus cadernos durante a juventude... Agora são as conversas que se alongam sob luzes ténues. Uma eterna conspiração contra o seu tempo, o seu precioso tempo. E até ele espera a sua morte de criatura inventada, joguete de um desejo desconhecido. Quanto tempo mais...

 

            Os cães ladram esta noite, mas não há caravanas para passar. Os sonhos ficaram hipotecados na ânsia do porvir; de criar vida; de viver na realidade ou ficção dos factos a que chamamos realidade... a real... e pessoal.

 

            Na barriga tenho a azia da má cerveja que bebi... o charuto ajudou a acalmar um estômago agitado e passar o tempo que parece colado aos meus ombros. Onde está a paz dos dias?

 

            Subitamente fica mais frio o ar. Os dias ficam mais curtos e arrefecem até o calor do sol ser uma ilusão… não interessa de que tipo – uma ilusão e basta.

Levanta-se um vento lento… sobe do chão e enche as ruas estreitas. Voam folhas secas, lixo, uma velhota passa a voar agarrada a um pedaço de pão bolorento seguida pelo seu gato que apanha um pássaro em pleno voo e uma equipa de futebol apanhada dentro do autocarro que os levava para o jogo.

            Ou talvez nada mesmo para além da solidão numa rua cinzenta e escura e as folhas e o ulular do vento gelado que me magoa a cara. E é assim em todas as ruas: faces televisivas por detrás de portas permanentemente encerradas; passageiros silenciosos na sua própria humilde existência a contar as horas que faltam para saldarem as contas com o mundo e principiarem a viver.

 

Em que é que me afasto deles? E será este afastamento um falhanço? Mais uma bola à trave do golo? Em que estranha aposta joguei – e o papel que terei para apresentar no fim valerá alguma coisa?

 

Desde sempre me senti a passar ao lado das coisas. Um estranho voyeur que observa com o desinteresse total de quem está interessado, não vê outra coisa. Por momentos tudo fez sentido – e depois a espiral tragou tudo de uma só vez.

O mundo está mudado… permanentemente. Não há como escapar da morte diária de onde raspamos a existência, de onde construímos a realidade absoluta com que combatemos as evidências da infelicidade.

 

E o mundo sempre me pareceu tão belo!

 

Sempre esta casa a que chego. Os dias todos a terminarem no nada a que entrego o corpo. O sono – o vazio descolorido em que vivemos as fantasias que o quotidiano nos nega. Lá a mulher pode ser tua. E o sucesso. E todos os pesadelos que a felicidade traz. Olho de fora para a face da casa que se desmorona em frente aos meus olhos. As minhas mãos não podem cuidar este presente. Volto a ter 6 anos e a ser incapaz de fazer com que a casa se cole e ganhe forma sobre a minha secretária de menino. E a professora desta vez não diz ” calma” e eu não vejo que a culpa é da cola, daqueles frascos com esponja para espalhar o líquido pegajoso e translúcido da cola fraca. A culpa nunca é nossa quando as coisas falham.

 

Sai do carro ou foge? A vida é feita de pequenas indecisões… que caminho escolher quando os olhos nada vêem e o corpo não sabe para onde se escapar. Que taminho comar? Por vezes o erro é uma opção – uma amostra de incompreensível coragem – um gesto sem significado absolutamente nenhum. Tudo se constrói. Até os conceitos.

Rapaz Muco não se sabe perto do fim, mas ele aproxima-se sobre o fio da sua respiração. Eu sou o narrador e vou morrer quando ele se for. Sou o seu deus… um deus… só existo enquanto existirem homens para me contar. Sei tudo o que vai acontecer desde que a humanidade me saiu da coxa. Com ela se foi o melhor de mim e o pior e eu fiquei uma casca vazia, uma voz a ser preenchida pelo tom que me quiserem dar… ser quem vocês querem que seja.

Eternamente perto da putrefacção, eternamente razão da vida, os dias são passados. Rapaz Muco não irá escapar e viver feliz para sempre. É preciso ser rico para ser feliz – até nos contos de fada de príncipes e princesas e ogres que conhecem verdadeiras mulheres que conseguem ver a luz sob as armaduras de carne.

Vai abrir a porta…

 

A porta do carro abre-se para a rua. Fumo e uma perna. Vento cortante e o coração que bate enchendo o silêncio da noite. Respira fundo… mais um segundo que ganhas.

 

 

Nunca sei onde tenho as chaves… sempre a mesma merda de procura por todos os bolsos para as encontrar sempre onde primeiro procurei.

 

Passa as mãos pela roupa com a forma do seu corpo, bate no casaco levemente como se tentasse ver se algo está maduro sob a casca e tudo soa a forro e a carne. Volta à perna e ouve as chaves. Atravessa a rua sem olhar para os lados, alheio a tudo.

 

Nunca vejo ninguém a estas horas. Sempre este silêncio de cidade morta, este vento cortante que sobe húmido do rio como uma mão gelada que nos acaricia. Tudo tão escuro… mesmo com as luzes e com esta noite descolorada em que já não se escondem mistérios místicos. Agora somos todos animais científicos.

 

Sorri…

 

A chave é esta. Deixa apontar à fechadura… onde está a fechadura?

 

Esfrega os olhos.

 

Um buraco negro no lugar da fechadura… uma mancha que se alastra pelo portão, ao chão… uma sombra que me toma… e sobe fria pelas pernas. A casa amarela já está coberta – excepto a trepadeira e as flores vermelhas que agora brilham plenas – antes de desaparecer completamente e o mundo à minha frente ficar plano… e as luzes começarem a desaparecer longe… e o peito ficar gelado…

 

e o grito ser silenciado mesmo quando a lua desaparecia sob as ondas negras. Uma estátua de sombra num mundo sem luz… num mundo do qual eu, agora, faço parte.

 

 

19 novembro 2008

Sono




Já foi há uns anos esta grande produção de Leandro Rodrigues... mas ainda tráz um sorriso à minha cara pelo trabalho que deu e pelo divertido que foi participar!
insónia delirante pelo porto - e dormir de dia!
um dia destes revelo as fotografias do making-off ao mundo!

07 novembro 2008

Esta puta que fodemos

há muito tempo que odeio pseudos 
que vivem a poesia dentro de um diploma
num mero rasgo de papel superficial
         sem qualquer calor

para eles não tenho mais nada senão 
         o meu ódio
         um sexo gordo e erecto
e uma arma para acabar com o seu sofrimento
         a minha caneta

sabes, a poesia é uma puta 
que nas minhas palavras se torna santa
         longe das considerações dos outros
e do vil metal que enche a tua boca

como tu, já vi eu muitos 
e muitos mais rasguei sob os pés grandes
         e pesados
sabes, 
         nunca gostei de me sentir preso
a religiosos cânones que tiram o sabor à vida 
e a tornam 
um pedaço de sémen de pus
         uma delícia sincronizada
EFECTUADA friamente com essas mãos basculantes
         
Sobra a letargia da cultura podre
         a ser varrida pelos gestos violentos
         por estes dedos calejados
         que exigem uma viagem
que nunca tiveste a coragem de tomar

Esta seria a experiência indicada
         para a tua patologia crónica
         que nada mudou nestes últimos anos
                de morte carnavalesca

Mas és demasiado sério
levas a seriedade a um ponto invísivel
ordenas sem saber que tropas frias
invadem os campos de cinza
         num OFF apagado pelo uso
e pelo cansaço do corpo vivo

         um velho
apenas um velho que corre 
para um autocarro que já partiu
cansado do cansaço do seu corpo
estás farto de viver 
         completo 
e por isso escolheste ver apenas a relativa beleza 
- os dias da juventude, o embrião da tua visão

meses e anos passados nos cínicos rítmos
         dos créditos, 
do pontual depósito com que se sacrifica 
         a liberdade 
fizeram a tua existência de papel

mas eu é que estou morto
por apagar uma fuga narcótica
e procurar uma fuga transformadora
por consentir os pequenos hábitos 
         necessários
e pedir muito mais

algo em que possa tocar
         e sinta

 

esventrada a quatro mãos por Daniel Ferreira e quase.

04 novembro 2008

É preciso Kalma

Kimmo Pohjonen & Samuli Kosminen and Kronos Quartet "Kalma"

Tive a oportunidade de ver este senhor ao vivo pela primeira vez. A Casa da Música foi o local que recebeu Kimmo Pohjonen Kluster sem o Kronos Quartet e acompanhado de Juuso Hannukainen nas percussões e samplers no lugar de Samuli Kosminen. Apesar da composição minimalista a Sala Suggia ficou totalmente preenchida com a força interpretativa do dueto.

Ainda hoje não sei o que dizer sobre o concerto absolutamente fantástico que vi. É raro ver algo de absolutamente original no campo da música, muito menos esperava um espectáculo audiovisual em que som e luz ganharam a capacidade de produzir atmosferas que vão do religioso ao hipnotizante. A união entre o cibernético e o orgânico na música de Pohjonen esta carregada das tensões e incertezas que nos assombram. O concerto acaba e ficamos mais conscientes da música em nós - ou dos nosso reflexos na música.

Esta passagem fugaz pelo Porto, inserida numa minitour em Portugal, soube a muito pouco - pelo menos a mim. Ainda não há datas anunciadas para um regresso.

Kimmo Pohjonen, Keko

A segunda parte foi assegurada pelos também Finlandeses Värttinä, que apesar da qualidade e alegria das suas músicas, viram a sala esvaziar-se progressivamente ao longo do concerto. O ponto alto foi, sem dúvida, o solo de bateria que deixou quem ainda estava presente surpreendida com o alcance musical de uma banda claramente folk. O colectivo ganha com a expressão dramática das três vocalistas e com as magníficas vocalizações com que brindaram o público. Sem dúvida foi um concerto que passou, injustamente, ao lado da maioria das pessoas que se deslocaram à Casa da Música.

Värttinä,  Aitara

Värttinä, Käppee