20 fevereiro 2009
11 fevereiro 2009
quando as armadilhas se fecharem
És a pedra de sal que purifica
o mundo
Das paixões fáceis ou difíceis.
Fecho os olhos
E sinto à minha volta
As viperinas línguas
Os prazeres sem sentido
Nem propósito
Iluminados olhos de cinza
Descortinando sentidos em corpos
Isolados.
Que faces são estas?
Reunidas num beco
Ventoso e sórdido
Agarrando as suas mágoas firmemente
Contra o seu pálido corpo,
Aguardam um número,
Um sinal
Ou uma sentença que os solte.
Dedos esquálidos arranham
O rosto
E o corpo enganado.
Que faces são estas?
- que me olham
e julgam
- e carros continuam a chegar
Cheios de medos e memórias
A náusea de tudo isto,
Do ser
A consciência cartesiana
Da mentira que nos vendem,
Das mentiras em que nos vendemos.
Há desequilíbrio e as verdades,
Essas, valem já menos do que nada.
Coleccionamos desgostos e amarguras
Por um amor que é cada vez menos real;
Somos máquinas de ódio
Procurando o amor nas profundezas
De uma memória falível e corrompida
Nem sentimos
O café aguado
Dos dias iguais, das mesmas mentiras,
Dos mesmos locais comuns e gestos embólicos.
Os corpos são merda, a carne dá-me
Os vómitos que a existência me nega…
E os corpos estão poluídos
E os corpos são máquinas usadas vendidas na feira
E os corpos são preservativos amarrados entre a luz
E o primeiro vento gelado da manhã.
Como é possível falar ainda de amor?
Já vi velhos e novos a comer do restaurante do lixo
- o que é um soneto ao lado disto?
Como transformar o indizível asco de passar todos os dias
Às mesmas horas, nos mesmos locais
Pelos mesmos desastres e dores infindáveis?
E são irreais como um pesadelo perfeito;
E são e são e são – apenas são enquanto eu existo.
As mãos emergem sempre sujas do lixo
Onde se remexe tentando encontrar umas horas
Mais
Umas palavras mais para cantar as cidades
Incendiadas e as vidas perdidas
Da história.
E chega um dia em que todos os corpos se confundem
Num só
Igualmente sem significado;
Então
Somos o ocasional valor que vamos tendo
Nas mãos rudes do mundo.
(Lá bem no fundo, sabemos
somos apenas mais um objecto)
Não procuro o amor. Procuro um momento
De indizível pureza
Que faça o mundo desaparecer
Ou valer a pena;
Procuro a repetida incerteza,
Outro corpo iluminado pelo meu esperma
Por detrás das janelas fechadas do meio-dia.
Entretanto,
Resta-nos a ambos esperar
- talvez ainda consigamos respirar
quando as armadilhas se fecharem.
29 janeiro 2009
Derretendo os plásticos
alinhando as palavras
entre cigarro aceso
e cigarro fumado
Com o mesmo gesto
Com que rolas os dedos grossos
e o disforme ganha forma
e o tabaco e mortalha são cigarros
- ou prenúncio de morte -
e a palavra e o papel poema
Mas imagino-te sim
entre cinza e o zumbido do motor
entre a decisão rítimica
e a gramática
Muito dizes
do ódio ou do amor,
a simplicidade do mundo,
traçada como um fino,
vidas plásticas derretendo pesadelos
entre duas palavras encerradas em silêncio.
Vejo-te enlouquecer entre palavras
sem saber que fruto retirar da árvore dos sentidos
e vejo o fumo que respiras
A humana forma de matar a solidão
o motivo do refeito mundo
que dá sentido às palavras que ouves
e ao lento desenrolar dos dias.
»escrito depois de visitar este blog
Os restos
fere quem te toca
O teu medo tolhe-te
a força
mata a tua coragem
Mergulhas no silêncio
esfaimado de quem procura
o amor
Os teus dedos são martelos
que destroem as cordas dos meus nervos
Os teus silêncios preocupados
são a perda da juventude
e do sorriso
A frieza de quem procura
o que já encontrou
mata o que toca.
Se isto é amor,
O que é o resto?
26 novembro 2008
Kingdom of Fear
Thompson, Hunter S., Kingdom of Fear : Loathsome Secrets of a Star-crossed Child in the Final Days of the American Century (2004)
25 novembro 2008
Último Sinal de Rapaz Muco
Movimento!!! Finalmente o mundo existe! - E é uma mentira que apenas me rouba o sono!
Rapaz Muco, cresce sob uma má lua, uma lua vermelha que lhe mancha as mãos e suja os olhos. Falta-lhe a sensibilidade da poesia, as palavras leves, o brilho no olhar que fugazmente encheu os seus cadernos durante a juventude... Agora são as conversas que se alongam sob luzes ténues. Uma eterna conspiração contra o seu tempo, o seu precioso tempo. E até ele espera a sua morte de criatura inventada, joguete de um desejo desconhecido. Quanto tempo mais...
Os cães ladram esta noite, mas não há caravanas para passar. Os sonhos ficaram hipotecados na ânsia do porvir; de criar vida; de viver na realidade ou ficção dos factos a que chamamos realidade... a real... e pessoal.
Na barriga tenho a azia da má cerveja que bebi... o charuto ajudou a acalmar um estômago agitado e passar o tempo que parece colado aos meus ombros. Onde está a paz dos dias?
Subitamente fica mais frio o ar. Os dias ficam mais curtos e arrefecem até o calor do sol ser uma ilusão… não interessa de que tipo – uma ilusão e basta.
Levanta-se um vento lento… sobe do chão e enche as ruas estreitas. Voam folhas secas, lixo, uma velhota passa a voar agarrada a um pedaço de pão bolorento seguida pelo seu gato que apanha um pássaro em pleno voo e uma equipa de futebol apanhada dentro do autocarro que os levava para o jogo.
Ou talvez nada mesmo para além da solidão numa rua cinzenta e escura e as folhas e o ulular do vento gelado que me magoa a cara. E é assim em todas as ruas: faces televisivas por detrás de portas permanentemente encerradas; passageiros silenciosos na sua própria humilde existência a contar as horas que faltam para saldarem as contas com o mundo e principiarem a viver.
Em que é que me afasto deles? E será este afastamento um falhanço? Mais uma bola à trave do golo? Em que estranha aposta joguei – e o papel que terei para apresentar no fim valerá alguma coisa?
Desde sempre me senti a passar ao lado das coisas. Um estranho voyeur que observa com o desinteresse total de quem está interessado, não vê outra coisa. Por momentos tudo fez sentido – e depois a espiral tragou tudo de uma só vez.
O mundo está mudado… permanentemente. Não há como escapar da morte diária de onde raspamos a existência, de onde construímos a realidade absoluta com que combatemos as evidências da infelicidade.
E o mundo sempre me pareceu tão belo!
Sempre esta casa a que chego. Os dias todos a terminarem no nada a que entrego o corpo. O sono – o vazio descolorido em que vivemos as fantasias que o quotidiano nos nega. Lá a mulher pode ser tua. E o sucesso. E todos os pesadelos que a felicidade traz. Olho de fora para a face da casa que se desmorona em frente aos meus olhos. As minhas mãos não podem cuidar este presente. Volto a ter 6 anos e a ser incapaz de fazer com que a casa se cole e ganhe forma sobre a minha secretária de menino. E a professora desta vez não diz ” calma” e eu não vejo que a culpa é da cola, daqueles frascos com esponja para espalhar o líquido pegajoso e translúcido da cola fraca. A culpa nunca é nossa quando as coisas falham.
Sai do carro ou foge? A vida é feita de pequenas indecisões… que caminho escolher quando os olhos nada vêem e o corpo não sabe para onde se escapar. Que taminho comar? Por vezes o erro é uma opção – uma amostra de incompreensível coragem – um gesto sem significado absolutamente nenhum. Tudo se constrói. Até os conceitos.
Rapaz Muco não se sabe perto do fim, mas ele aproxima-se sobre o fio da sua respiração. Eu sou o narrador e vou morrer quando ele se for. Sou o seu deus… um deus… só existo enquanto existirem homens para me contar. Sei tudo o que vai acontecer desde que a humanidade me saiu da coxa. Com ela se foi o melhor de mim e o pior e eu fiquei uma casca vazia, uma voz a ser preenchida pelo tom que me quiserem dar… ser quem vocês querem que seja.
Eternamente perto da putrefacção, eternamente razão da vida, os dias são passados. Rapaz Muco não irá escapar e viver feliz para sempre. É preciso ser rico para ser feliz – até nos contos de fada de príncipes e princesas e ogres que conhecem verdadeiras mulheres que conseguem ver a luz sob as armaduras de carne.
Vai abrir a porta…
A porta do carro abre-se para a rua. Fumo e uma perna. Vento cortante e o coração que bate enchendo o silêncio da noite. Respira fundo… mais um segundo que ganhas.
Nunca sei onde tenho as chaves… sempre a mesma merda de procura por todos os bolsos para as encontrar sempre onde primeiro procurei.
Passa as mãos pela roupa com a forma do seu corpo, bate no casaco levemente como se tentasse ver se algo está maduro sob a casca e tudo soa a forro e a carne. Volta à perna e ouve as chaves. Atravessa a rua sem olhar para os lados, alheio a tudo.
Nunca vejo ninguém a estas horas. Sempre este silêncio de cidade morta, este vento cortante que sobe húmido do rio como uma mão gelada que nos acaricia. Tudo tão escuro… mesmo com as luzes e com esta noite descolorada em que já não se escondem mistérios místicos. Agora somos todos animais científicos.
Sorri…
A chave é esta. Deixa apontar à fechadura… onde está a fechadura?
Esfrega os olhos.
Um buraco negro no lugar da fechadura… uma mancha que se alastra pelo portão, ao chão… uma sombra que me toma… e sobe fria pelas pernas. A casa amarela já está coberta – excepto a trepadeira e as flores vermelhas que agora brilham plenas – antes de desaparecer completamente e o mundo à minha frente ficar plano… e as luzes começarem a desaparecer longe… e o peito ficar gelado…
e o grito ser silenciado mesmo quando a lua desaparecia sob as ondas negras. Uma estátua de sombra num mundo sem luz… num mundo do qual eu, agora, faço parte.
19 novembro 2008
Sono
Já foi há uns anos esta grande produção de Leandro Rodrigues... mas ainda tráz um sorriso à minha cara pelo trabalho que deu e pelo divertido que foi participar!
insónia delirante pelo porto - e dormir de dia!
um dia destes revelo as fotografias do making-off ao mundo!