24 abril 2009

Metro

Repara,
é como se uma lepra
cobrisse os seus olhos
Vivem,
mas estão cegos
planetas em solitárias órbitas
Cruzam-se
mas nunca se tocam.

19 abril 2009

O sonho de Ícaro

Mulher:
recosta-te no meu bolso
e sê a moeda do meu contentamento
dá-me o calor que a falta de tempo
me nega;
hoje tempo é dinheiro
e um segundo meu é demasiado caro
para esta ralé dar valor à vida desperdiçada.

Dá-me o calor e a carne que o dinheiro deles
não consegue comprar
o sono frágil com que descansar a alma
e a carne, a súmula do corpo cansado
desta vida sem o toque de midas,
sem o sopro que faz encher o fole da carteira
apenas o fole das palavras,
os toques incompletos da língua nas ideias
- a falha semântica
da terra escrava que esmagamos
buscando sustento para o amor.

Mulher,
sob a forma deste nome tão puro
como a frieza que lhe adveio
não encontro salvação possível
para lá de ti: do abstracto
transformado na minha abstracção concreta
procuro-te como ícaro procurou o sol.

Aquece-me a cera que me esconde
dos olhos, de todos, de mim que me arrasto por aqui
nesta minha face vincada como esta carta
que te escrevo. Aproxima-te, mas não me toques já,
deixa correr a quente espessura de um encontro,
o concentrado dos sentidos desesperados
na negra e visceral cadência
do meu sangue poluído de solidão.

Agita-me estas palavras no silêncio dos teus olhos
até que de mim saiam as chagas, a pobreza
de um toque entre corpos esquecidos pela noite

varre-me a crise dos sentidos multidireccionais
até que se evaporem as matemáticas
na agoural construção do tempo.


mais uma produção conjunta com este blog

04 abril 2009

Valores e modalidades de pagamento

As horas são contadas
e esquecidas num guichet
desinfectado segundo os preceitos
da higiene dos locais públicos.
Neste lento cálculo do porvir,
o tempo pesa, incorporiza o medo
na ilusão psicológica usada
para inventariar
o ócio, o amor, o incerto
tique-tac da nossa fealdade crescente;
Esta fixação
esta enorme flor de fel que desabrocha
e morre cada dia, todos os dias
cobrindo os corpos com a cinza incompleta do medo.

Conheço as finas dialécticas da linguagem
de rua. Sei o que vais pensar, dizer
ou fazer com as poucas palavras que tens
para definir o mundo, para cantar a sinfonia
da existência. A minha música, por outro lado,
não é audível a qualquer um.
É mais profunda, entrega-se à noite
a corpos indiferentes que a queiram levar
e mente.

A tensão nos músculos destas frases
incompletas é a ilusão da compreensão
é uma linguagem oculta,
é uma língua de nada
iluminada pela dor.

E qual a palavra para o tempo?

A vida está parada e silenciosa
como um mecanismo avariado
o tempo,
esse relógio incerto,
já não conta a passagem.
Cimento, ferro, olhos frios olhando
o mostrador vazio e (ainda) incompreensível.
Os braços, esses frágeis ponteiros
estão caídos, desolados.
Para eles é tarde, já nada esperam,
porque sabem que as promessas apenas fazem
abrir os olhos às crianças.
Estamos mortos e olhamos como vivos
o maquinismo morto que nos rege;
os astros mecânicos que levantam o sol
a horas certas, que nos tapam os olhos
quando chega a hora da noite.
O que fazer quando a vida nos mata
e os sonhos não arrancam?
De pé numa fila cheia de pessoas
iguais a nós,
com a mesma impossível face,
com o mesmo corpo quebrado e inconsequente
com as mesmas mãos inúteis
- e o mundo parece não funcionar
do outro lado do espelho do guichet.

Que se desenganem aqueles que pensam ser fácil
viver assim, incerto, inseguro,
nenhum sítio a que chamar lar, cova, casulo;
a algibeira permanentemente vazia e os sonhos
a arder nas mãos abertas.
Não
resta-nos mais do que deixar os olhos adiar
os horizontes nas impossibilidades da lógica
e a sachola da fome cavar os caminhos
que roubam a água aos navios da infância.
Está na hora de deixar a brincadeira
e começar a fazer de conta
que a felicidade existe.

É simples: segue o conselho do governo
- envelhece
e morre silenciosamente sem nunca teres sido.

20 fevereiro 2009

11 fevereiro 2009

quando as armadilhas se fecharem

És a pedra de sal que purifica
o mundo

Das paixões fáceis ou difíceis.

Fecho os olhos

E sinto à minha volta

As viperinas línguas

Os prazeres sem sentido

Nem propósito

Iluminados olhos de cinza

Descortinando sentidos em corpos

Isolados.

Que faces são estas?

Reunidas num beco

Ventoso e sórdido

Agarrando as suas mágoas firmemente

Contra o seu pálido corpo,

Aguardam um número,

Um sinal

Ou uma sentença que os solte.

Dedos esquálidos arranham

O rosto

E o corpo enganado.

Que faces são estas?

- que me olham

e julgam

- e carros continuam a chegar

Cheios de medos e memórias

A náusea de tudo isto,

Do ser

A consciência cartesiana

Da mentira que nos vendem,

Das mentiras em que nos vendemos.

Há desequilíbrio e as verdades,

Essas, valem já menos do que nada.

Coleccionamos desgostos e amarguras

Por um amor que é cada vez menos real;

Somos máquinas de ódio

Procurando o amor nas profundezas

De uma memória falível e corrompida

Nem sentimos

O café aguado

Dos dias iguais, das mesmas mentiras,

Dos mesmos locais comuns e gestos embólicos.

Os corpos são merda, a carne dá-me

Os vómitos que a existência me nega…

E os corpos estão poluídos

E os corpos são máquinas usadas vendidas na feira

E os corpos são preservativos amarrados entre a luz

E o primeiro vento gelado da manhã.

Como é possível falar ainda de amor?

Já vi velhos e novos a comer do restaurante do lixo

- o que é um soneto ao lado disto?

Como transformar o indizível asco de passar todos os dias

Às mesmas horas, nos mesmos locais

Pelos mesmos desastres e dores infindáveis?

E são irreais como um pesadelo perfeito;

E são e são e são – apenas são enquanto eu existo.

As mãos emergem sempre sujas do lixo

Onde se remexe tentando encontrar umas horas

Mais

Umas palavras mais para cantar as cidades

Incendiadas e as vidas perdidas

Da história.

E chega um dia em que todos os corpos se confundem

Num só

Igualmente sem significado;

Então

Somos o ocasional valor que vamos tendo

Nas mãos rudes do mundo.

(Lá bem no fundo, sabemos

somos apenas mais um objecto)

Não procuro o amor. Procuro um momento

De indizível pureza

Que faça o mundo desaparecer

Ou valer a pena;

Procuro a repetida incerteza,

Outro corpo iluminado pelo meu esperma

Por detrás das janelas fechadas do meio-dia.

Entretanto,

Resta-nos a ambos esperar

- talvez ainda consigamos respirar

quando as armadilhas se fecharem.

29 janeiro 2009

Derretendo os plásticos

Quase que te imagino
alinhando as palavras
entre cigarro aceso
e cigarro fumado

Com o mesmo gesto

Com que rolas os dedos grossos
e o disforme ganha forma
e o tabaco e mortalha são cigarros
- ou prenúncio de morte -
e a palavra e o papel poema

Mas imagino-te sim
entre cinza e o zumbido do motor
entre a decisão rítimica
e a gramática

Muito dizes
do ódio ou do amor,
a simplicidade do mundo,
traçada como um fino,
vidas plásticas derretendo pesadelos
entre duas palavras encerradas em silêncio.

Vejo-te enlouquecer entre palavras
sem saber que fruto retirar da árvore dos sentidos
e vejo o fumo que respiras

A humana forma de matar a solidão
o motivo do refeito mundo
que dá sentido às palavras que ouves
e ao lento desenrolar dos dias.


»escrito depois de visitar este blog

Os restos

A delicadeza dos teus dedos
fere quem te toca

O teu medo tolhe-te
a força
mata a tua coragem

Mergulhas no silêncio
esfaimado de quem procura
o amor

Os teus dedos são martelos
que destroem as cordas dos meus nervos

Os teus silêncios preocupados
são a perda da juventude
e do sorriso

A frieza de quem procura
o que já encontrou
mata o que toca.

Se isto é amor,
O que é o resto?