19 abril 2009
O sonho de Ícaro
recosta-te no meu bolso
e sê a moeda do meu contentamento
dá-me o calor que a falta de tempo
me nega;
hoje tempo é dinheiro
e um segundo meu é demasiado caro
para esta ralé dar valor à vida desperdiçada.
Dá-me o calor e a carne que o dinheiro deles
não consegue comprar
o sono frágil com que descansar a alma
e a carne, a súmula do corpo cansado
desta vida sem o toque de midas,
sem o sopro que faz encher o fole da carteira
apenas o fole das palavras,
os toques incompletos da língua nas ideias
- a falha semântica
da terra escrava que esmagamos
buscando sustento para o amor.
Mulher,
sob a forma deste nome tão puro
como a frieza que lhe adveio
não encontro salvação possível
para lá de ti: do abstracto
transformado na minha abstracção concreta
procuro-te como ícaro procurou o sol.
Aquece-me a cera que me esconde
dos olhos, de todos, de mim que me arrasto por aqui
nesta minha face vincada como esta carta
que te escrevo. Aproxima-te, mas não me toques já,
deixa correr a quente espessura de um encontro,
o concentrado dos sentidos desesperados
na negra e visceral cadência
do meu sangue poluído de solidão.
Agita-me estas palavras no silêncio dos teus olhos
até que de mim saiam as chagas, a pobreza
de um toque entre corpos esquecidos pela noite
varre-me a crise dos sentidos multidireccionais
até que se evaporem as matemáticas
na agoural construção do tempo.
mais uma produção conjunta com este blog
04 abril 2009
Valores e modalidades de pagamento
e esquecidas num guichet
desinfectado segundo os preceitos
da higiene dos locais públicos.
Neste lento cálculo do porvir,
o tempo pesa, incorporiza o medo
na ilusão psicológica usada
para inventariar
o ócio, o amor, o incerto
tique-tac da nossa fealdade crescente;
Esta fixação
esta enorme flor de fel que desabrocha
e morre cada dia, todos os dias
cobrindo os corpos com a cinza incompleta do medo.
Conheço as finas dialécticas da linguagem
de rua. Sei o que vais pensar, dizer
ou fazer com as poucas palavras que tens
para definir o mundo, para cantar a sinfonia
da existência. A minha música, por outro lado,
não é audível a qualquer um.
É mais profunda, entrega-se à noite
a corpos indiferentes que a queiram levar
e mente.
A tensão nos músculos destas frases
incompletas é a ilusão da compreensão
é uma linguagem oculta,
é uma língua de nada
iluminada pela dor.
E qual a palavra para o tempo?
A vida está parada e silenciosa
como um mecanismo avariado
o tempo,
esse relógio incerto,
já não conta a passagem.
Cimento, ferro, olhos frios olhando
o mostrador vazio e (ainda) incompreensível.
Os braços, esses frágeis ponteiros
estão caídos, desolados.
Para eles é tarde, já nada esperam,
porque sabem que as promessas apenas fazem
abrir os olhos às crianças.
Estamos mortos e olhamos como vivos
o maquinismo morto que nos rege;
os astros mecânicos que levantam o sol
a horas certas, que nos tapam os olhos
quando chega a hora da noite.
O que fazer quando a vida nos mata
e os sonhos não arrancam?
De pé numa fila cheia de pessoas
iguais a nós,
com a mesma impossível face,
com o mesmo corpo quebrado e inconsequente
com as mesmas mãos inúteis
- e o mundo parece não funcionar
do outro lado do espelho do guichet.
Que se desenganem aqueles que pensam ser fácil
viver assim, incerto, inseguro,
nenhum sítio a que chamar lar, cova, casulo;
a algibeira permanentemente vazia e os sonhos
a arder nas mãos abertas.
Não
resta-nos mais do que deixar os olhos adiar
os horizontes nas impossibilidades da lógica
e a sachola da fome cavar os caminhos
que roubam a água aos navios da infância.
Está na hora de deixar a brincadeira
e começar a fazer de conta
que a felicidade existe.
É simples: segue o conselho do governo
- envelhece
e morre silenciosamente sem nunca teres sido.
20 fevereiro 2009
11 fevereiro 2009
quando as armadilhas se fecharem
És a pedra de sal que purifica
o mundo
Das paixões fáceis ou difíceis.
Fecho os olhos
E sinto à minha volta
As viperinas línguas
Os prazeres sem sentido
Nem propósito
Iluminados olhos de cinza
Descortinando sentidos em corpos
Isolados.
Que faces são estas?
Reunidas num beco
Ventoso e sórdido
Agarrando as suas mágoas firmemente
Contra o seu pálido corpo,
Aguardam um número,
Um sinal
Ou uma sentença que os solte.
Dedos esquálidos arranham
O rosto
E o corpo enganado.
Que faces são estas?
- que me olham
e julgam
- e carros continuam a chegar
Cheios de medos e memórias
A náusea de tudo isto,
Do ser
A consciência cartesiana
Da mentira que nos vendem,
Das mentiras em que nos vendemos.
Há desequilíbrio e as verdades,
Essas, valem já menos do que nada.
Coleccionamos desgostos e amarguras
Por um amor que é cada vez menos real;
Somos máquinas de ódio
Procurando o amor nas profundezas
De uma memória falível e corrompida
Nem sentimos
O café aguado
Dos dias iguais, das mesmas mentiras,
Dos mesmos locais comuns e gestos embólicos.
Os corpos são merda, a carne dá-me
Os vómitos que a existência me nega…
E os corpos estão poluídos
E os corpos são máquinas usadas vendidas na feira
E os corpos são preservativos amarrados entre a luz
E o primeiro vento gelado da manhã.
Como é possível falar ainda de amor?
Já vi velhos e novos a comer do restaurante do lixo
- o que é um soneto ao lado disto?
Como transformar o indizível asco de passar todos os dias
Às mesmas horas, nos mesmos locais
Pelos mesmos desastres e dores infindáveis?
E são irreais como um pesadelo perfeito;
E são e são e são – apenas são enquanto eu existo.
As mãos emergem sempre sujas do lixo
Onde se remexe tentando encontrar umas horas
Mais
Umas palavras mais para cantar as cidades
Incendiadas e as vidas perdidas
Da história.
E chega um dia em que todos os corpos se confundem
Num só
Igualmente sem significado;
Então
Somos o ocasional valor que vamos tendo
Nas mãos rudes do mundo.
(Lá bem no fundo, sabemos
somos apenas mais um objecto)
Não procuro o amor. Procuro um momento
De indizível pureza
Que faça o mundo desaparecer
Ou valer a pena;
Procuro a repetida incerteza,
Outro corpo iluminado pelo meu esperma
Por detrás das janelas fechadas do meio-dia.
Entretanto,
Resta-nos a ambos esperar
- talvez ainda consigamos respirar
quando as armadilhas se fecharem.
29 janeiro 2009
Derretendo os plásticos
alinhando as palavras
entre cigarro aceso
e cigarro fumado
Com o mesmo gesto
Com que rolas os dedos grossos
e o disforme ganha forma
e o tabaco e mortalha são cigarros
- ou prenúncio de morte -
e a palavra e o papel poema
Mas imagino-te sim
entre cinza e o zumbido do motor
entre a decisão rítimica
e a gramática
Muito dizes
do ódio ou do amor,
a simplicidade do mundo,
traçada como um fino,
vidas plásticas derretendo pesadelos
entre duas palavras encerradas em silêncio.
Vejo-te enlouquecer entre palavras
sem saber que fruto retirar da árvore dos sentidos
e vejo o fumo que respiras
A humana forma de matar a solidão
o motivo do refeito mundo
que dá sentido às palavras que ouves
e ao lento desenrolar dos dias.
»escrito depois de visitar este blog
Os restos
fere quem te toca
O teu medo tolhe-te
a força
mata a tua coragem
Mergulhas no silêncio
esfaimado de quem procura
o amor
Os teus dedos são martelos
que destroem as cordas dos meus nervos
Os teus silêncios preocupados
são a perda da juventude
e do sorriso
A frieza de quem procura
o que já encontrou
mata o que toca.
Se isto é amor,
O que é o resto?