24 abril 2009

Músculos

A religião dos teus pais não te salvará;
muito menos a certeza moral da inocência.
Compreende que agora, hoje em dia,
és apenas mais um escravo
que vive sob a simples ideologia
dos músculos.

Ninguém espera

Ninguém espera

que alguém o salve
muito menos de si mesmo
dessa criatura frágil
e suja que assombra o espelho.
Nada que pare a bala
que parte e fissura
prática e democrática
em erradas mãos,
sempre nas mãos erradas.
E quando o silêncio cai
é sempre a interrupção de algo
é sempre a ordem premente
para a reacção.

Não
já ninguém espera e todos se dedicam
a fingir que acreditam
que as coisas podem ser
que pode ser mentira a ilusão
cada vez mais viva a rosnar-lhe os dentes
do ódio.

É sempre melhor não acreditar
na maldade
viver como inocentes de fácil morte.

A verdade

Ainda ontem
recordas
havia tempo
para os dias e para os gestos
completos.

Recordas
quando na janela
fechada
se lia todo o mundo
e as horas eram
insignificantes como pegadas esquecidas?

A luz escorregava
pelo teu corpo
dúctil água das tuas formas
e eramos simples
e felizes.

O amanhã era uma sentença
sempre adiada.

Hoje estamos presos
e empregos tomam conta
dos presentes contrariados
e das futuras promessas
esquecidas na névoa terminológica
dos contractos.

A verdade,
se ainda podemos falar assim,
é a crise e as respostas
dos olhos deprimidos frente ao espelho.
A verdade,
são as queixas ouvidas
as vidas perdidas
anónimas nos vagões que nos transportam,
organizado gado, humanos simplificados,
numerados
confortavelmente acondicionados
em confortáveis carruagens condicionadas
na escravatura dos dias,
nas regras e ordens
que lavraram para crescermos,
tolhidos e infelizes,
rodeados de coisas
e da felicidade ausente.

Agora dorme.
Aproveita a viagem que te leva
a lado nenhum
e recupera as energias para correr
e manter os horários inflexíveis
e a ordem
de saltar de sonho em sonho
sem nada ter
na falsa promessa do crédito.

Metro

Repara,
é como se uma lepra
cobrisse os seus olhos
Vivem,
mas estão cegos
planetas em solitárias órbitas
Cruzam-se
mas nunca se tocam.

19 abril 2009

O sonho de Ícaro

Mulher:
recosta-te no meu bolso
e sê a moeda do meu contentamento
dá-me o calor que a falta de tempo
me nega;
hoje tempo é dinheiro
e um segundo meu é demasiado caro
para esta ralé dar valor à vida desperdiçada.

Dá-me o calor e a carne que o dinheiro deles
não consegue comprar
o sono frágil com que descansar a alma
e a carne, a súmula do corpo cansado
desta vida sem o toque de midas,
sem o sopro que faz encher o fole da carteira
apenas o fole das palavras,
os toques incompletos da língua nas ideias
- a falha semântica
da terra escrava que esmagamos
buscando sustento para o amor.

Mulher,
sob a forma deste nome tão puro
como a frieza que lhe adveio
não encontro salvação possível
para lá de ti: do abstracto
transformado na minha abstracção concreta
procuro-te como ícaro procurou o sol.

Aquece-me a cera que me esconde
dos olhos, de todos, de mim que me arrasto por aqui
nesta minha face vincada como esta carta
que te escrevo. Aproxima-te, mas não me toques já,
deixa correr a quente espessura de um encontro,
o concentrado dos sentidos desesperados
na negra e visceral cadência
do meu sangue poluído de solidão.

Agita-me estas palavras no silêncio dos teus olhos
até que de mim saiam as chagas, a pobreza
de um toque entre corpos esquecidos pela noite

varre-me a crise dos sentidos multidireccionais
até que se evaporem as matemáticas
na agoural construção do tempo.


mais uma produção conjunta com este blog

04 abril 2009

Valores e modalidades de pagamento

As horas são contadas
e esquecidas num guichet
desinfectado segundo os preceitos
da higiene dos locais públicos.
Neste lento cálculo do porvir,
o tempo pesa, incorporiza o medo
na ilusão psicológica usada
para inventariar
o ócio, o amor, o incerto
tique-tac da nossa fealdade crescente;
Esta fixação
esta enorme flor de fel que desabrocha
e morre cada dia, todos os dias
cobrindo os corpos com a cinza incompleta do medo.

Conheço as finas dialécticas da linguagem
de rua. Sei o que vais pensar, dizer
ou fazer com as poucas palavras que tens
para definir o mundo, para cantar a sinfonia
da existência. A minha música, por outro lado,
não é audível a qualquer um.
É mais profunda, entrega-se à noite
a corpos indiferentes que a queiram levar
e mente.

A tensão nos músculos destas frases
incompletas é a ilusão da compreensão
é uma linguagem oculta,
é uma língua de nada
iluminada pela dor.

E qual a palavra para o tempo?

A vida está parada e silenciosa
como um mecanismo avariado
o tempo,
esse relógio incerto,
já não conta a passagem.
Cimento, ferro, olhos frios olhando
o mostrador vazio e (ainda) incompreensível.
Os braços, esses frágeis ponteiros
estão caídos, desolados.
Para eles é tarde, já nada esperam,
porque sabem que as promessas apenas fazem
abrir os olhos às crianças.
Estamos mortos e olhamos como vivos
o maquinismo morto que nos rege;
os astros mecânicos que levantam o sol
a horas certas, que nos tapam os olhos
quando chega a hora da noite.
O que fazer quando a vida nos mata
e os sonhos não arrancam?
De pé numa fila cheia de pessoas
iguais a nós,
com a mesma impossível face,
com o mesmo corpo quebrado e inconsequente
com as mesmas mãos inúteis
- e o mundo parece não funcionar
do outro lado do espelho do guichet.

Que se desenganem aqueles que pensam ser fácil
viver assim, incerto, inseguro,
nenhum sítio a que chamar lar, cova, casulo;
a algibeira permanentemente vazia e os sonhos
a arder nas mãos abertas.
Não
resta-nos mais do que deixar os olhos adiar
os horizontes nas impossibilidades da lógica
e a sachola da fome cavar os caminhos
que roubam a água aos navios da infância.
Está na hora de deixar a brincadeira
e começar a fazer de conta
que a felicidade existe.

É simples: segue o conselho do governo
- envelhece
e morre silenciosamente sem nunca teres sido.

20 fevereiro 2009