10 maio 2009

Por mais línguas que fales

Por mais línguas que fales
Falas sempre o dialecto
Das ruas que te criaram.

Neste mundo ou no outro lado,
Dele, trazes estampado na cara
O bairro que te viu crescer.

As pessoas que te moldaram
O sotaque cerrado,
O reduzido léxico do subúrbio
Em que todas as palavras são
O cinzento das paredes e das pedras;
E depois,
A enorme desilusão que te lançou
Em fuga,
Descrente e rude como o mundo
Que querias perder rapidamente
E que trazias estampado em longas frases
No distante rosto da tua face,
Agora estão perdidas e apenas te assombram
As noites em que tentas dormir.

Todos os teus amigos te deixaram
E esta noite é demasiado longa
Para a silenciosa depressão
De quem espera sem certezas.

Como um cego tacteias procurando
A solução que se esconde na noite
Eterna da máscara da tua expressão.
Não compreendes o que se oculta,
Docilmente,
À fineza do teu tacto superficial.

A ignorância –

É que o mundo, hoje, é utilitário;
E amanhã será ainda mais;
E a tua vida ainda valerá ainda menos.


Serves um propósito,
Iludes-te com a liberdade por uns anos,
E depois és despedido ao som de um piano,
Tu mais melancólico e triste do que as notas
- uma oitava abaixo do queixume.

De que te adianta esta fuga?
- ou sequer acreditas
que um dia serás considerado
um igual entre outros?

Esqueceste o que a escola te ensinou?

As lentas frases de silêncio;
As brincadeiras sozinho;
O espancar ou ser espancado
Com a inocência da infância;
O olhar paternal das crianças ricas
Ou amadas.

Por isso, toma o amargo dinheiro
Que ganhas a enganar o patrão
Com uma árdua ilusão de trabalho
E que não te consegue fazer esquecer
Ou apagar de ti o sítio de onde vens
E começa a poupar:
Conserta os dentes;
Areia a alvenaria do teu rosto;
Compra um novo edifício para o teu espírito.

Ainda assim, nunca conseguirás
Escapar aos tristes pesadelos
Que te abrem os olhos – e a boca muda.

04 maio 2009

O último verso

Amo principalmente o último verso
em que o poema principia a vida
em mim, leitor, que dele me alimento;

sempre o último verso,
aquele em que a acção termina
como a serpente que morde a sua cauda
no infinito cósmico da semântica.

LOL

"laughing out loud",
podia começar assim o poema;
como estamos na modernidade
- e a crise impera -
vamos poupar e escrever apenas
"LOL"
- mini lolita sem o sexo
e sem o poema que,
entretanto,saiu de moda.

"Cada um tem o que merece"

“Cada um tem o que merece”
- dizes tu e eu
e os sussurros obscuros da vida.

Nenhuma filosofia aqui
ou abstracta miragem

- apenas uma verdade empírica
demasiadas vezes comprovada.

Era para ir trabalhar

Era para ir trabalhar
deram-me a absoluta certeza
de quem mente
certamente assegurado
de que quem um dia vai comer
esta dura merda
não será ele nem o seu filho
pela boca de um filho meu.

Era para ir trabalhar,
deram-me a certeza da incerteza
de uma palavra por confirmar.

Era para ir trabalhar mas não fui
com a certeza de que quem um dia
vai chorar serão eles,
quem hoje me condena ao pecado
do tempo livre, da escrita plena,
do sol pleno que já não aquece
a minha vontade ser útil e produzir.

Era para ir trabalhar, deram-me a certeza
de que iria; mentiram-me sem merecer
já que me alimento de sonhos
e o dinheiro que preciso é para álcool
para afogar o meu destino.

Deram-me a certeza de que ia trabalhar
hoje ou amanhã,
mas sem certeza continuo
e, apesar de não o merecer,
descubro que até quem não merece
por vezes é quem sofre mais.

27 abril 2009

Motor

O barulho do motor sobrepõe-se a todas as coisas
Às desordenadas vozes e aterrados pensamentos

A mente tem de estar calma e concentrada
Fria
Não há espaço para hesitações
Quando se está ao comando

Os dias são longos e cansativos
Não há nenhuma promessa ao fundo do túnel
As luzes estão apagadas na estrada
Há apenas carros que passam
Rápidos transeuntes
Mortos
Um motor que ruge a afastando a solidão

Será isto a vida
Conduzir pela noite numa estrada negra
Disparar fervorosamente nas pausas da morte
Tentando acumular memórias
Perceber a existência

Luzes que passam
Borrões na velocidade
Movimento aparente nas estáticas palavras
Que caem desalinhadas pela folha virgem.

24 abril 2009

Músculos

A religião dos teus pais não te salvará;
muito menos a certeza moral da inocência.
Compreende que agora, hoje em dia,
és apenas mais um escravo
que vive sob a simples ideologia
dos músculos.