O mais difícil hoje em dia é vermos o “outro”... o produto de uma multiplicação de histórias pessoais ou pura indiferença. Todos dormimos quando cai a noite – para uns contudo, a noite tarda e é ilusória como o seu descanso. Ficam de olhos abertos, deitados, lendo a preocupação. A vida. A solidão fogosa de estar vivo na gelada chama do nosso propósito. Falar, agitar o ar até ser hora de dormir – e então ficarmos sós connosco, medindo o caloroso valor das coisas.
Hoje em dia sentimos tudo separado em bonitos compartimentos sentimentais. Pequenas jaulas tuperware que se podem levar ao frigorífico. Supremamente, já se consegue espreitar para o interior devido à sua transparência e saber que resto frio comer ao jantar. Contudo, continuamos enigmas para os outros. São necessários mediadores entre nós e quem somos. Coordenadores da secção dos refrigerados que nos alinham e tentam formatar dentro da nossa normalidade de perfeitos anormais. Enfim...
Sei que não sou nada do que analisam... Estou sempre escondido lá bem no fundo. Seguro. Bem longe na procura de algo que não consigo definir exactamente... que não sei se conseguirei encontrar. Aparte o sentir-me à parte quando falo, por vezes, na beleza de fazer nada – em ver apenas; ser uma máquina visionária. Tentar prender as ideias que se desvanecem mal embatem na luz; que desaparecem quando as tento fixar. Um animal sinestésico que ouve músicas em imagens que lê.
Estamos apaixonados por ideias... grande parte delas irrealizáveis. Mas é nelas que vivemos e refugiamos as ilusões que nos fazem respirar dia após dia, independentemente do que sabemos real e realizável.
E a verdade é só uma: tudo é uma merda e inútil. As coisas que acontecem, as melhores ou piores são ilusões com que nos tentam ocupar as horas. Vivemos e morremos. Os corpos e o seu conforto psicológico são a mesma face do fundo vazio iluminado por peixes abissais. A felicidade o que é? A ausência de tristeza? O esquecimento... melhor, o alheamento? Mas o que preencherá o buraco no lugar da alma?
De casa em casa andamos procurando um lugar que parece impossível: uma miragem para ocupar os dias e nos fazer deixar de pensar no vazio que nos rodeia... para nos alhearmos dos nossos cheiros; os que anunciam a nossa decadência, a nossa vida e os seus pesos e obscuros dramas.
12 maio 2009
Céus televisivos (4)
E a existência parece ser apenas isto: a passagem de dia para dia para dia para dia... de fraco acontecimento em fraco acontecimento até ser apenas um grão de pó a flutuar para outra pessoa ver. Ou nem isso: memória apagada de um tempo irrepetível, para o qual não houve gravações nem registos – apenas o seu acontecimento. A rotina instala-se e parece que as coisas se fazem apenas para fugir ao tempo, ao recado de um encontro adiado. E mata-se o cérebro com tudo o que há... e o coração endurece-se com muita televisão e mau viver... e, quando menos se espera, já nada se sente – apenas se adivinha o sentimento que se tinha... mas já não se está certo nem disso.
De verdade em verdade vivemos uma mentira que nos entregam já feitas, bela e perfumada dentro de uma caixa de cartão reciclado feito das melhores árvores. Como escapar à consciência, ao saber que há pessoas encarregues de manter outras pessoas iguais a nós no lugar que ocupam através de uma calma requalificação daquilo a que se chama verdade? Vamos todos ligar-nos à televisão a horas certas, ver as notícias iguais entre todos, fazer parte de mais um produto económico que nos quer acéfalos e longe das reais razões das coisas. O milagre, hoje em dia, seria aflorar com os dedos a...
Esqueçamos as coisas todas e vamos trabalhar. Vamos ser felizes: o mundo rodopia e nós nele. Vamos ser felizes: o mundo explode, concentrado, e nós nele, mas longe da violência bélica. Vamos ser felizes: estamos seguros como crianças em asfixiantes braços protectores.
Espelhos... qual a sua realidade? Como viver comigo mesmo quando já estou farto de mim? Das constantes repetições dos mesmos falhanços... o não avançar como o proverbial insecto preso dentro de um copo de vidro (por outro lado, acho de um imenso romantismo tentar quebrar as prisões invisíveis que nos encerram). Livrar-me da dor de ser homem, o pensamento constante ali, mesmo à mão de semear, e passar a existir. Sem pensar. Longe de qualquer paradigma cartesiano. Longe de regras e motivos e formas de fazer as coisas. Apenas um átomo concentrado; puro de energia – real. Sinto-me uma ilusão: algo que podemos facilmente encontrar num qualquer personagem de telenovela ou anúncio que ensina como “não ser um jovem bem-sucedido”. O dinheiro não me corre no sangue nem na sede. Tenho dias em que não me apetece falar com ninguém. Em que “eu” sou uma presença demasiado íncomoda para mim. E não consigo escapar...
De verdade em verdade vivemos uma mentira que nos entregam já feitas, bela e perfumada dentro de uma caixa de cartão reciclado feito das melhores árvores. Como escapar à consciência, ao saber que há pessoas encarregues de manter outras pessoas iguais a nós no lugar que ocupam através de uma calma requalificação daquilo a que se chama verdade? Vamos todos ligar-nos à televisão a horas certas, ver as notícias iguais entre todos, fazer parte de mais um produto económico que nos quer acéfalos e longe das reais razões das coisas. O milagre, hoje em dia, seria aflorar com os dedos a...
Esqueçamos as coisas todas e vamos trabalhar. Vamos ser felizes: o mundo rodopia e nós nele. Vamos ser felizes: o mundo explode, concentrado, e nós nele, mas longe da violência bélica. Vamos ser felizes: estamos seguros como crianças em asfixiantes braços protectores.
Espelhos... qual a sua realidade? Como viver comigo mesmo quando já estou farto de mim? Das constantes repetições dos mesmos falhanços... o não avançar como o proverbial insecto preso dentro de um copo de vidro (por outro lado, acho de um imenso romantismo tentar quebrar as prisões invisíveis que nos encerram). Livrar-me da dor de ser homem, o pensamento constante ali, mesmo à mão de semear, e passar a existir. Sem pensar. Longe de qualquer paradigma cartesiano. Longe de regras e motivos e formas de fazer as coisas. Apenas um átomo concentrado; puro de energia – real. Sinto-me uma ilusão: algo que podemos facilmente encontrar num qualquer personagem de telenovela ou anúncio que ensina como “não ser um jovem bem-sucedido”. O dinheiro não me corre no sangue nem na sede. Tenho dias em que não me apetece falar com ninguém. Em que “eu” sou uma presença demasiado íncomoda para mim. E não consigo escapar...
Céus televisivos (5)
E o dinheiro também é sempre necessário na prisão da sua necessidade. Afinal de contas, como ser uma pessoa melhor sem os objectos certos? Desprendidos perante amigos e família – sem os conhecer quando isso perturba a imagem projectada do nosso produto e arruina o nosso valor de venda. Que merda de pessoas que habitam neste mundo arruinado por um egoísmo voraz; de precoces ilusões; de uma inqualificável cegueira. Como crianças alimentadas apenas de açúcar os vossos dentes apodrecem e o vosso cérebro definha – mas que belo é o vosso exterior. Brilham de carros; brilham de jóias de pechisbeque; brilham de telemóveis; brilham de roupas e acessórios fantasia jogador de futebol ou fantasia tia ou fantasia corrector de sucesso; brilham de férias em destinos exóticos e raramente impronunciáveis onde (alguns) comem criancinhas a preços económicos e sorriem; brilham tanto que acreditam que brilham tanto como quem não aperta o cinto para ter estes luxos; brilham de créditos e créditos e afundam-se num mar de créditos procurando a impossível pérola. Sabem, os vossos olhos já não brilham.
A liberdade que vos vendem está corrupta – mas ninguém o consegue ver: há montanhas de objectos, continentes de sucata, penínsulas de inutilidades entre o sol e nós, as sombras na sombra.
E nada nos protege dos dias maus... Da palavra fora do sítio; a boca no outro lugar da mente. A eterna inadaptação ao existir. Dedicar a vida à destruição das relações com o medo. Sempre a merda do medo. A força secreta que me compele ao silêncio e à inacção. Há dias em que des... desengano ... desencontro... desenmerdo algo para dizer... noutros o fumo cala-me.
A liberdade que vos vendem está corrupta – mas ninguém o consegue ver: há montanhas de objectos, continentes de sucata, penínsulas de inutilidades entre o sol e nós, as sombras na sombra.
E nada nos protege dos dias maus... Da palavra fora do sítio; a boca no outro lugar da mente. A eterna inadaptação ao existir. Dedicar a vida à destruição das relações com o medo. Sempre a merda do medo. A força secreta que me compele ao silêncio e à inacção. Há dias em que des... desengano ... desencontro... desenmerdo algo para dizer... noutros o fumo cala-me.
10 maio 2009
Por mais línguas que fales
Por mais línguas que fales
Falas sempre o dialecto
Das ruas que te criaram.
Neste mundo ou no outro lado,
Dele, trazes estampado na cara
O bairro que te viu crescer.
As pessoas que te moldaram
O sotaque cerrado,
O reduzido léxico do subúrbio
Em que todas as palavras são
O cinzento das paredes e das pedras;
E depois,
A enorme desilusão que te lançou
Em fuga,
Descrente e rude como o mundo
Que querias perder rapidamente
E que trazias estampado em longas frases
No distante rosto da tua face,
Agora estão perdidas e apenas te assombram
As noites em que tentas dormir.
Todos os teus amigos te deixaram
E esta noite é demasiado longa
Para a silenciosa depressão
De quem espera sem certezas.
Como um cego tacteias procurando
A solução que se esconde na noite
Eterna da máscara da tua expressão.
Não compreendes o que se oculta,
Docilmente,
À fineza do teu tacto superficial.
A ignorância –
É que o mundo, hoje, é utilitário;
E amanhã será ainda mais;
E a tua vida ainda valerá ainda menos.
Serves um propósito,
Iludes-te com a liberdade por uns anos,
E depois és despedido ao som de um piano,
Tu mais melancólico e triste do que as notas
- uma oitava abaixo do queixume.
De que te adianta esta fuga?
- ou sequer acreditas
que um dia serás considerado
um igual entre outros?
Esqueceste o que a escola te ensinou?
As lentas frases de silêncio;
As brincadeiras sozinho;
O espancar ou ser espancado
Com a inocência da infância;
O olhar paternal das crianças ricas
Ou amadas.
Por isso, toma o amargo dinheiro
Que ganhas a enganar o patrão
Com uma árdua ilusão de trabalho
E que não te consegue fazer esquecer
Ou apagar de ti o sítio de onde vens
E começa a poupar:
Conserta os dentes;
Areia a alvenaria do teu rosto;
Compra um novo edifício para o teu espírito.
Ainda assim, nunca conseguirás
Escapar aos tristes pesadelos
Que te abrem os olhos – e a boca muda.
Falas sempre o dialecto
Das ruas que te criaram.
Neste mundo ou no outro lado,
Dele, trazes estampado na cara
O bairro que te viu crescer.
As pessoas que te moldaram
O sotaque cerrado,
O reduzido léxico do subúrbio
Em que todas as palavras são
O cinzento das paredes e das pedras;
E depois,
A enorme desilusão que te lançou
Em fuga,
Descrente e rude como o mundo
Que querias perder rapidamente
E que trazias estampado em longas frases
No distante rosto da tua face,
Agora estão perdidas e apenas te assombram
As noites em que tentas dormir.
Todos os teus amigos te deixaram
E esta noite é demasiado longa
Para a silenciosa depressão
De quem espera sem certezas.
Como um cego tacteias procurando
A solução que se esconde na noite
Eterna da máscara da tua expressão.
Não compreendes o que se oculta,
Docilmente,
À fineza do teu tacto superficial.
A ignorância –
É que o mundo, hoje, é utilitário;
E amanhã será ainda mais;
E a tua vida ainda valerá ainda menos.
Serves um propósito,
Iludes-te com a liberdade por uns anos,
E depois és despedido ao som de um piano,
Tu mais melancólico e triste do que as notas
- uma oitava abaixo do queixume.
De que te adianta esta fuga?
- ou sequer acreditas
que um dia serás considerado
um igual entre outros?
Esqueceste o que a escola te ensinou?
As lentas frases de silêncio;
As brincadeiras sozinho;
O espancar ou ser espancado
Com a inocência da infância;
O olhar paternal das crianças ricas
Ou amadas.
Por isso, toma o amargo dinheiro
Que ganhas a enganar o patrão
Com uma árdua ilusão de trabalho
E que não te consegue fazer esquecer
Ou apagar de ti o sítio de onde vens
E começa a poupar:
Conserta os dentes;
Areia a alvenaria do teu rosto;
Compra um novo edifício para o teu espírito.
Ainda assim, nunca conseguirás
Escapar aos tristes pesadelos
Que te abrem os olhos – e a boca muda.
04 maio 2009
O último verso
Amo principalmente o último verso
em que o poema principia a vida
em mim, leitor, que dele me alimento;
sempre o último verso,
aquele em que a acção termina
como a serpente que morde a sua cauda
no infinito cósmico da semântica.
em que o poema principia a vida
em mim, leitor, que dele me alimento;
sempre o último verso,
aquele em que a acção termina
como a serpente que morde a sua cauda
no infinito cósmico da semântica.
LOL
"laughing out loud",
podia começar assim o poema;
como estamos na modernidade
- e a crise impera -
vamos poupar e escrever apenas
"LOL"
- mini lolita sem o sexo
e sem o poema que,
entretanto,saiu de moda.
podia começar assim o poema;
como estamos na modernidade
- e a crise impera -
vamos poupar e escrever apenas
"LOL"
- mini lolita sem o sexo
e sem o poema que,
entretanto,saiu de moda.
"Cada um tem o que merece"
“Cada um tem o que merece”
- dizes tu e eu
e os sussurros obscuros da vida.
Nenhuma filosofia aqui
ou abstracta miragem
- apenas uma verdade empírica
demasiadas vezes comprovada.
- dizes tu e eu
e os sussurros obscuros da vida.
Nenhuma filosofia aqui
ou abstracta miragem
- apenas uma verdade empírica
demasiadas vezes comprovada.
Subscrever:
Mensagens (Atom)