E o dinheiro também é sempre necessário na prisão da sua necessidade. Afinal de contas, como ser uma pessoa melhor sem os objectos certos? Desprendidos perante amigos e família – sem os conhecer quando isso perturba a imagem projectada do nosso produto e arruina o nosso valor de venda. Que merda de pessoas que habitam neste mundo arruinado por um egoísmo voraz; de precoces ilusões; de uma inqualificável cegueira. Como crianças alimentadas apenas de açúcar os vossos dentes apodrecem e o vosso cérebro definha – mas que belo é o vosso exterior. Brilham de carros; brilham de jóias de pechisbeque; brilham de telemóveis; brilham de roupas e acessórios fantasia jogador de futebol ou fantasia tia ou fantasia corrector de sucesso; brilham de férias em destinos exóticos e raramente impronunciáveis onde (alguns) comem criancinhas a preços económicos e sorriem; brilham tanto que acreditam que brilham tanto como quem não aperta o cinto para ter estes luxos; brilham de créditos e créditos e afundam-se num mar de créditos procurando a impossível pérola. Sabem, os vossos olhos já não brilham.
A liberdade que vos vendem está corrupta – mas ninguém o consegue ver: há montanhas de objectos, continentes de sucata, penínsulas de inutilidades entre o sol e nós, as sombras na sombra.
E nada nos protege dos dias maus... Da palavra fora do sítio; a boca no outro lugar da mente. A eterna inadaptação ao existir. Dedicar a vida à destruição das relações com o medo. Sempre a merda do medo. A força secreta que me compele ao silêncio e à inacção. Há dias em que des... desengano ... desencontro... desenmerdo algo para dizer... noutros o fumo cala-me.
12 maio 2009
10 maio 2009
Por mais línguas que fales
Por mais línguas que fales
Falas sempre o dialecto
Das ruas que te criaram.
Neste mundo ou no outro lado,
Dele, trazes estampado na cara
O bairro que te viu crescer.
As pessoas que te moldaram
O sotaque cerrado,
O reduzido léxico do subúrbio
Em que todas as palavras são
O cinzento das paredes e das pedras;
E depois,
A enorme desilusão que te lançou
Em fuga,
Descrente e rude como o mundo
Que querias perder rapidamente
E que trazias estampado em longas frases
No distante rosto da tua face,
Agora estão perdidas e apenas te assombram
As noites em que tentas dormir.
Todos os teus amigos te deixaram
E esta noite é demasiado longa
Para a silenciosa depressão
De quem espera sem certezas.
Como um cego tacteias procurando
A solução que se esconde na noite
Eterna da máscara da tua expressão.
Não compreendes o que se oculta,
Docilmente,
À fineza do teu tacto superficial.
A ignorância –
É que o mundo, hoje, é utilitário;
E amanhã será ainda mais;
E a tua vida ainda valerá ainda menos.
Serves um propósito,
Iludes-te com a liberdade por uns anos,
E depois és despedido ao som de um piano,
Tu mais melancólico e triste do que as notas
- uma oitava abaixo do queixume.
De que te adianta esta fuga?
- ou sequer acreditas
que um dia serás considerado
um igual entre outros?
Esqueceste o que a escola te ensinou?
As lentas frases de silêncio;
As brincadeiras sozinho;
O espancar ou ser espancado
Com a inocência da infância;
O olhar paternal das crianças ricas
Ou amadas.
Por isso, toma o amargo dinheiro
Que ganhas a enganar o patrão
Com uma árdua ilusão de trabalho
E que não te consegue fazer esquecer
Ou apagar de ti o sítio de onde vens
E começa a poupar:
Conserta os dentes;
Areia a alvenaria do teu rosto;
Compra um novo edifício para o teu espírito.
Ainda assim, nunca conseguirás
Escapar aos tristes pesadelos
Que te abrem os olhos – e a boca muda.
Falas sempre o dialecto
Das ruas que te criaram.
Neste mundo ou no outro lado,
Dele, trazes estampado na cara
O bairro que te viu crescer.
As pessoas que te moldaram
O sotaque cerrado,
O reduzido léxico do subúrbio
Em que todas as palavras são
O cinzento das paredes e das pedras;
E depois,
A enorme desilusão que te lançou
Em fuga,
Descrente e rude como o mundo
Que querias perder rapidamente
E que trazias estampado em longas frases
No distante rosto da tua face,
Agora estão perdidas e apenas te assombram
As noites em que tentas dormir.
Todos os teus amigos te deixaram
E esta noite é demasiado longa
Para a silenciosa depressão
De quem espera sem certezas.
Como um cego tacteias procurando
A solução que se esconde na noite
Eterna da máscara da tua expressão.
Não compreendes o que se oculta,
Docilmente,
À fineza do teu tacto superficial.
A ignorância –
É que o mundo, hoje, é utilitário;
E amanhã será ainda mais;
E a tua vida ainda valerá ainda menos.
Serves um propósito,
Iludes-te com a liberdade por uns anos,
E depois és despedido ao som de um piano,
Tu mais melancólico e triste do que as notas
- uma oitava abaixo do queixume.
De que te adianta esta fuga?
- ou sequer acreditas
que um dia serás considerado
um igual entre outros?
Esqueceste o que a escola te ensinou?
As lentas frases de silêncio;
As brincadeiras sozinho;
O espancar ou ser espancado
Com a inocência da infância;
O olhar paternal das crianças ricas
Ou amadas.
Por isso, toma o amargo dinheiro
Que ganhas a enganar o patrão
Com uma árdua ilusão de trabalho
E que não te consegue fazer esquecer
Ou apagar de ti o sítio de onde vens
E começa a poupar:
Conserta os dentes;
Areia a alvenaria do teu rosto;
Compra um novo edifício para o teu espírito.
Ainda assim, nunca conseguirás
Escapar aos tristes pesadelos
Que te abrem os olhos – e a boca muda.
04 maio 2009
O último verso
Amo principalmente o último verso
em que o poema principia a vida
em mim, leitor, que dele me alimento;
sempre o último verso,
aquele em que a acção termina
como a serpente que morde a sua cauda
no infinito cósmico da semântica.
em que o poema principia a vida
em mim, leitor, que dele me alimento;
sempre o último verso,
aquele em que a acção termina
como a serpente que morde a sua cauda
no infinito cósmico da semântica.
LOL
"laughing out loud",
podia começar assim o poema;
como estamos na modernidade
- e a crise impera -
vamos poupar e escrever apenas
"LOL"
- mini lolita sem o sexo
e sem o poema que,
entretanto,saiu de moda.
podia começar assim o poema;
como estamos na modernidade
- e a crise impera -
vamos poupar e escrever apenas
"LOL"
- mini lolita sem o sexo
e sem o poema que,
entretanto,saiu de moda.
"Cada um tem o que merece"
“Cada um tem o que merece”
- dizes tu e eu
e os sussurros obscuros da vida.
Nenhuma filosofia aqui
ou abstracta miragem
- apenas uma verdade empírica
demasiadas vezes comprovada.
- dizes tu e eu
e os sussurros obscuros da vida.
Nenhuma filosofia aqui
ou abstracta miragem
- apenas uma verdade empírica
demasiadas vezes comprovada.
Era para ir trabalhar
Era para ir trabalhar
deram-me a absoluta certeza
de quem mente
certamente assegurado
de que quem um dia vai comer
esta dura merda
não será ele nem o seu filho
pela boca de um filho meu.
Era para ir trabalhar,
deram-me a certeza da incerteza
de uma palavra por confirmar.
Era para ir trabalhar mas não fui
com a certeza de que quem um dia
vai chorar serão eles,
quem hoje me condena ao pecado
do tempo livre, da escrita plena,
do sol pleno que já não aquece
a minha vontade ser útil e produzir.
Era para ir trabalhar, deram-me a certeza
de que iria; mentiram-me sem merecer
já que me alimento de sonhos
e o dinheiro que preciso é para álcool
para afogar o meu destino.
Deram-me a certeza de que ia trabalhar
hoje ou amanhã,
mas sem certeza continuo
e, apesar de não o merecer,
descubro que até quem não merece
por vezes é quem sofre mais.
deram-me a absoluta certeza
de quem mente
certamente assegurado
de que quem um dia vai comer
esta dura merda
não será ele nem o seu filho
pela boca de um filho meu.
Era para ir trabalhar,
deram-me a certeza da incerteza
de uma palavra por confirmar.
Era para ir trabalhar mas não fui
com a certeza de que quem um dia
vai chorar serão eles,
quem hoje me condena ao pecado
do tempo livre, da escrita plena,
do sol pleno que já não aquece
a minha vontade ser útil e produzir.
Era para ir trabalhar, deram-me a certeza
de que iria; mentiram-me sem merecer
já que me alimento de sonhos
e o dinheiro que preciso é para álcool
para afogar o meu destino.
Deram-me a certeza de que ia trabalhar
hoje ou amanhã,
mas sem certeza continuo
e, apesar de não o merecer,
descubro que até quem não merece
por vezes é quem sofre mais.
27 abril 2009
Motor
O barulho do motor sobrepõe-se a todas as coisas
Às desordenadas vozes e aterrados pensamentos
A mente tem de estar calma e concentrada
Fria
Não há espaço para hesitações
Quando se está ao comando
Os dias são longos e cansativos
Não há nenhuma promessa ao fundo do túnel
As luzes estão apagadas na estrada
Há apenas carros que passam
Rápidos transeuntes
Mortos
Um motor que ruge a afastando a solidão
Será isto a vida
Conduzir pela noite numa estrada negra
Disparar fervorosamente nas pausas da morte
Tentando acumular memórias
Perceber a existência
Luzes que passam
Borrões na velocidade
Movimento aparente nas estáticas palavras
Que caem desalinhadas pela folha virgem.
Às desordenadas vozes e aterrados pensamentos
A mente tem de estar calma e concentrada
Fria
Não há espaço para hesitações
Quando se está ao comando
Os dias são longos e cansativos
Não há nenhuma promessa ao fundo do túnel
As luzes estão apagadas na estrada
Há apenas carros que passam
Rápidos transeuntes
Mortos
Um motor que ruge a afastando a solidão
Será isto a vida
Conduzir pela noite numa estrada negra
Disparar fervorosamente nas pausas da morte
Tentando acumular memórias
Perceber a existência
Luzes que passam
Borrões na velocidade
Movimento aparente nas estáticas palavras
Que caem desalinhadas pela folha virgem.
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