17 maio 2009

O improvável cristo

Nossa senhora monta
o dragão e voa
sobre as águas ou a imaginação.

O Cristo, improvável rei,
espera a sua usada mãe
em directo,
braços infaustos abertos
na falta de uma melhor cruz;
a que tem,
a imisericordiosa memória
televisiva, somente chega
para lhe preencher o tédio.

A cidade é agora um templo
de um orgulho babilónico,
onde se bebe o sangue
das ruas
e se come o pão amassado
por mãos estranhas e pobres.

A paz não está nos olhos
dos descrentes,
ícones eternos do medo,
segurando os acessórios
da salvação incerta.

110 metros de cimento
- 28 personificados na possível imagem -
contemplam imperturbáveis
o delírio das mentes colectivas
e, sorrindo,
escondem uma faca atrás das costas.

13 maio 2009

As peças

era bom poder voltar a recolher
as peças, todos os fragmentos,
mas o vento espalhou as vontades
e os planos; fomos enganados
pelo tempo prometido.

o futuro é agora;
o passado apenas o esboço
incompleto.

12 maio 2009

Efectivamente.....



para quem não conhece a inspiração, está aqui



morri de riso!!!!

Céus televisivos (1)

As horas já passaram, muitas. A maldita rotina dos dias. O que fazer agora que a noite caiu completa e a única companhia que tenho é a minha solidão? O computador, a televisão, o telemóvel, o silêncio eléctrico que emana deles no tempo que conto e que se acumula no completo descontentamento. Os segundos acumulam-se e nada parece crescer no mundo que agora é um animal em descanso.

Acordo numa selva de garrafas vazias... e a mesa à minha frente, à frente dos meus pés, está cheia de cervejas vazias, álcool entornado em cima do vidro do tampo, restos de tabaco, mortalhas encharcadas e maços amassados, desfeitos, queimados. O corpo dorido pelas horas de sono sentado regressa à vida, desperta lentamente. A boca está quente e morta. A língua dormente. Levanto-me Arrasto-me até à casa de banho e empurro o papel higiénico queimado para o lado, saco o sexo e liberto uma torrente turva na cerâmica húmida. O cérebro regressa à vida ao som de águas... Cataratas humanas... Sinto dificuldades em concentrar-me... A cabeça dói... existe e é perversa.

Onde estão as tuas mãos? Onde posso encontrar o teu corpo a estas horas nesta noite fria.. nesta primavera de destroços.

Estou mudo e olho. Parecemos todos.... monstros rápidos e ágeis. Humanóides frios. As máquinas não nos conseguem fazer tocar as pessoas. Fazê-las compreender a sua solidão. Dias passados na peneira: apenas pó do que não foi feito e se acumula. Olha-se em volta, em torno da riqueza material e circunstâncias várias que nos colocaram aqui, onde estamos, e não é no teclado que se encontram as pessoas; não é através do messenger que se consegue interromper o silêncio que martela as paredes. Penso nos dias, na sua maravilhosa sensação de plenitude – muitas vezes quando chego a casa tarde, oito horas, penso quando acordava e tinha todo o tempo, as horas não se arrastavam lentas e inertes plenas de acções marteladamente repetidas e decoradas. Eram perfeitas – a observação do mundo ao microscópio do olhar curioso, o maravilhoso do lanche de pão com manteiga e leite com café, claro. Fantasmas que não me largam e se repetem quando a porta que abro é a de casa.

Casa de três gerações – todo o peso do tempo sobre mim: os olhares de três gerações de pessoas reais e carnais a olharem os meus passos quando eu estou mais distraído. Por vezes receio estar a ser devorado por insectos. No pescoço; começo a sentir as suas patas e apetites vorazes. Depois a mão desengana-me do que o cérebro pensa e o mundo continua a decorrer normalmente, inocente dos pânicos mudos que nos comandam.

Tudo isto para dizer o quê? Que temos medo. Apenas isso. E que os medos se repetem e multiplicam e são os insectos vorazes que nos tolhem os movimentos. Demasiado tempo perdido a olhar para a TV. Para os sonhos que outros querem que tenhamos. Sonhando sonhos de outros em forma de pesadelo. A vida a passar.

Céus televisivos (2)

“O mundo está morto.” “Os heróis desapareceram.” “A Verdade foi atingida: não é preciso lutar mais.” - São estas as mentiras que nos vendem numa realidade hiperdefenida que nos é comodamente entregue em casa para os nossos olhos vorazes se alimentarem. Tudo é mais verdadeiro agora que não conseguimos tocar em nada.

Onde é que tudo se confundiu? O tempo, a amálgama de horas, os dias e as noites dos nossos desejos, os desejos de outros feitos à nossa medida? Onde terminou a noção de tempo, a diferenciação de dia para dia para dia para dia – longe deste constante definhar diário e repetido (para gáudio de quem?). Possuir sem conseguir tocar... ter a ilusão da posse no bolso cheio e no cérebro vazio – no perfeito sonho do capital – e oferecer aos outros os pesadelos e medos que nos ocupam as noites; preencher a sua vida com a mesma malevolência com que julgamos o que os olhos vêem e o tacto não toca; morder a carne impoluta com os nossos dentes verdes e podres e a língua morta de quem não sonha. Enfim, dar um pouco de nós, o melhor, aqueles de quem mais queremos.

E ficamos surpreendidos por, no fim, ficarmos sós, na maravilhosa companhia dos nossos pensamentos mais íntimos. Sós com as nossas televisões! Sós com os nossos telemóveis! Sós com os nossos computadores ligados a todo o mundo via internet! Sós, longe da ideia de nós, longe da realidade construída no outro e do outro em nós. Silêncio apenas... e ecos.

E quem somos nós e os outros hoje em dia? O “nós” compra e os “outros” vendem? Sem “outros” que “nós” compraria? Quem de entre “nós” nunca... O outro apenas – o que existe fora das vozes na mente – quem se vê...

Céus Televisivos (3)

O mais difícil hoje em dia é vermos o “outro”... o produto de uma multiplicação de histórias pessoais ou pura indiferença. Todos dormimos quando cai a noite – para uns contudo, a noite tarda e é ilusória como o seu descanso. Ficam de olhos abertos, deitados, lendo a preocupação. A vida. A solidão fogosa de estar vivo na gelada chama do nosso propósito. Falar, agitar o ar até ser hora de dormir – e então ficarmos sós connosco, medindo o caloroso valor das coisas.

Hoje em dia sentimos tudo separado em bonitos compartimentos sentimentais. Pequenas jaulas tuperware que se podem levar ao frigorífico. Supremamente, já se consegue espreitar para o interior devido à sua transparência e saber que resto frio comer ao jantar. Contudo, continuamos enigmas para os outros. São necessários mediadores entre nós e quem somos. Coordenadores da secção dos refrigerados que nos alinham e tentam formatar dentro da nossa normalidade de perfeitos anormais. Enfim...

Sei que não sou nada do que analisam... Estou sempre escondido lá bem no fundo. Seguro. Bem longe na procura de algo que não consigo definir exactamente... que não sei se conseguirei encontrar. Aparte o sentir-me à parte quando falo, por vezes, na beleza de fazer nada – em ver apenas; ser uma máquina visionária. Tentar prender as ideias que se desvanecem mal embatem na luz; que desaparecem quando as tento fixar. Um animal sinestésico que ouve músicas em imagens que lê.

Estamos apaixonados por ideias... grande parte delas irrealizáveis. Mas é nelas que vivemos e refugiamos as ilusões que nos fazem respirar dia após dia, independentemente do que sabemos real e realizável.

E a verdade é só uma: tudo é uma merda e inútil. As coisas que acontecem, as melhores ou piores são ilusões com que nos tentam ocupar as horas. Vivemos e morremos. Os corpos e o seu conforto psicológico são a mesma face do fundo vazio iluminado por peixes abissais. A felicidade o que é? A ausência de tristeza? O esquecimento... melhor, o alheamento? Mas o que preencherá o buraco no lugar da alma?

De casa em casa andamos procurando um lugar que parece impossível: uma miragem para ocupar os dias e nos fazer deixar de pensar no vazio que nos rodeia... para nos alhearmos dos nossos cheiros; os que anunciam a nossa decadência, a nossa vida e os seus pesos e obscuros dramas.

Céus televisivos (4)

E a existência parece ser apenas isto: a passagem de dia para dia para dia para dia... de fraco acontecimento em fraco acontecimento até ser apenas um grão de pó a flutuar para outra pessoa ver. Ou nem isso: memória apagada de um tempo irrepetível, para o qual não houve gravações nem registos – apenas o seu acontecimento. A rotina instala-se e parece que as coisas se fazem apenas para fugir ao tempo, ao recado de um encontro adiado. E mata-se o cérebro com tudo o que há... e o coração endurece-se com muita televisão e mau viver... e, quando menos se espera, já nada se sente – apenas se adivinha o sentimento que se tinha... mas já não se está certo nem disso.

De verdade em verdade vivemos uma mentira que nos entregam já feitas, bela e perfumada dentro de uma caixa de cartão reciclado feito das melhores árvores. Como escapar à consciência, ao saber que há pessoas encarregues de manter outras pessoas iguais a nós no lugar que ocupam através de uma calma requalificação daquilo a que se chama verdade? Vamos todos ligar-nos à televisão a horas certas, ver as notícias iguais entre todos, fazer parte de mais um produto económico que nos quer acéfalos e longe das reais razões das coisas. O milagre, hoje em dia, seria aflorar com os dedos a...

Esqueçamos as coisas todas e vamos trabalhar. Vamos ser felizes: o mundo rodopia e nós nele. Vamos ser felizes: o mundo explode, concentrado, e nós nele, mas longe da violência bélica. Vamos ser felizes: estamos seguros como crianças em asfixiantes braços protectores.

Espelhos... qual a sua realidade? Como viver comigo mesmo quando já estou farto de mim? Das constantes repetições dos mesmos falhanços... o não avançar como o proverbial insecto preso dentro de um copo de vidro (por outro lado, acho de um imenso romantismo tentar quebrar as prisões invisíveis que nos encerram). Livrar-me da dor de ser homem, o pensamento constante ali, mesmo à mão de semear, e passar a existir. Sem pensar. Longe de qualquer paradigma cartesiano. Longe de regras e motivos e formas de fazer as coisas. Apenas um átomo concentrado; puro de energia – real. Sinto-me uma ilusão: algo que podemos facilmente encontrar num qualquer personagem de telenovela ou anúncio que ensina como “não ser um jovem bem-sucedido”. O dinheiro não me corre no sangue nem na sede. Tenho dias em que não me apetece falar com ninguém. Em que “eu” sou uma presença demasiado íncomoda para mim. E não consigo escapar...