Ouve a tua música alto
E afugenta os fantasmas
Da tua mente.
Finge:
Está tudo bem – ainda és
A mesma criança que viu
O mundo crescer; ainda és
O mesmo que eras quando brincavas
E o tempo não existia e o sorriso
Ainda enfeitava o rosto.
Já viste bem como somos hoje?
Adultos perfumados e frios
Que nunca seguram o balão do sorriso
Entre as mãos agradecidas;
Ou quando ele existe é o Jogo,
A mentira de uma possível sedução
Entre desconhecidos agradecidos
Por alguém afugentar a solidão.
A verdade é que
o mundo
já não nos surpreende.
O sol é apenas uma estrela, o umbigo
Solar do sistema que nos contém;
A lua já não tem mistérios nem ilumina
Os poetas que agora se escondem sob candeeiros
- a falta de fantasia matou o azul
do céu que, agora, raramente olhamos.
Não ligues se os teus amigos enriqueceram
E te esqueceram; não ligues se continuas igual,
As mesmas ilusões cansadas dos poetas pobres,
Os dedos canetas e o papel que sujam.
Todos estamos sujeitos à crueldade de estranhos
Que ordenam, com controladoras mãos, as vítimas
Inoperantes do sistema económico que nos rouba.
Por tudo isto, explode a cabeça com música.
Isso e as drogas talvez te salvem da morte,
Da vida repetida sob o mesmo céu plúmbeo.
Não te surpreendas se doer
- quando o corpo já não sente e os ouvidos não escutam
É bem melhor lavar as memórias no sangue.
20 maio 2009
19 maio 2009
17 maio 2009
O improvável cristo
Nossa senhora monta
o dragão e voa
sobre as águas ou a imaginação.
O Cristo, improvável rei,
espera a sua usada mãe
em directo,
braços infaustos abertos
na falta de uma melhor cruz;
a que tem,
a imisericordiosa memória
televisiva, somente chega
para lhe preencher o tédio.
A cidade é agora um templo
de um orgulho babilónico,
onde se bebe o sangue
das ruas
e se come o pão amassado
por mãos estranhas e pobres.
A paz não está nos olhos
dos descrentes,
ícones eternos do medo,
segurando os acessórios
da salvação incerta.
110 metros de cimento
- 28 personificados na possível imagem -
contemplam imperturbáveis
o delírio das mentes colectivas
e, sorrindo,
escondem uma faca atrás das costas.
o dragão e voa
sobre as águas ou a imaginação.
O Cristo, improvável rei,
espera a sua usada mãe
em directo,
braços infaustos abertos
na falta de uma melhor cruz;
a que tem,
a imisericordiosa memória
televisiva, somente chega
para lhe preencher o tédio.
A cidade é agora um templo
de um orgulho babilónico,
onde se bebe o sangue
das ruas
e se come o pão amassado
por mãos estranhas e pobres.
A paz não está nos olhos
dos descrentes,
ícones eternos do medo,
segurando os acessórios
da salvação incerta.
110 metros de cimento
- 28 personificados na possível imagem -
contemplam imperturbáveis
o delírio das mentes colectivas
e, sorrindo,
escondem uma faca atrás das costas.
13 maio 2009
As peças
era bom poder voltar a recolher
as peças, todos os fragmentos,
mas o vento espalhou as vontades
e os planos; fomos enganados
pelo tempo prometido.
o futuro é agora;
o passado apenas o esboço
incompleto.
as peças, todos os fragmentos,
mas o vento espalhou as vontades
e os planos; fomos enganados
pelo tempo prometido.
o futuro é agora;
o passado apenas o esboço
incompleto.
12 maio 2009
Céus televisivos (1)
As horas já passaram, muitas. A maldita rotina dos dias. O que fazer agora que a noite caiu completa e a única companhia que tenho é a minha solidão? O computador, a televisão, o telemóvel, o silêncio eléctrico que emana deles no tempo que conto e que se acumula no completo descontentamento. Os segundos acumulam-se e nada parece crescer no mundo que agora é um animal em descanso.
Acordo numa selva de garrafas vazias... e a mesa à minha frente, à frente dos meus pés, está cheia de cervejas vazias, álcool entornado em cima do vidro do tampo, restos de tabaco, mortalhas encharcadas e maços amassados, desfeitos, queimados. O corpo dorido pelas horas de sono sentado regressa à vida, desperta lentamente. A boca está quente e morta. A língua dormente. Levanto-me Arrasto-me até à casa de banho e empurro o papel higiénico queimado para o lado, saco o sexo e liberto uma torrente turva na cerâmica húmida. O cérebro regressa à vida ao som de águas... Cataratas humanas... Sinto dificuldades em concentrar-me... A cabeça dói... existe e é perversa.
Onde estão as tuas mãos? Onde posso encontrar o teu corpo a estas horas nesta noite fria.. nesta primavera de destroços.
Estou mudo e olho. Parecemos todos.... monstros rápidos e ágeis. Humanóides frios. As máquinas não nos conseguem fazer tocar as pessoas. Fazê-las compreender a sua solidão. Dias passados na peneira: apenas pó do que não foi feito e se acumula. Olha-se em volta, em torno da riqueza material e circunstâncias várias que nos colocaram aqui, onde estamos, e não é no teclado que se encontram as pessoas; não é através do messenger que se consegue interromper o silêncio que martela as paredes. Penso nos dias, na sua maravilhosa sensação de plenitude – muitas vezes quando chego a casa tarde, oito horas, penso quando acordava e tinha todo o tempo, as horas não se arrastavam lentas e inertes plenas de acções marteladamente repetidas e decoradas. Eram perfeitas – a observação do mundo ao microscópio do olhar curioso, o maravilhoso do lanche de pão com manteiga e leite com café, claro. Fantasmas que não me largam e se repetem quando a porta que abro é a de casa.
Casa de três gerações – todo o peso do tempo sobre mim: os olhares de três gerações de pessoas reais e carnais a olharem os meus passos quando eu estou mais distraído. Por vezes receio estar a ser devorado por insectos. No pescoço; começo a sentir as suas patas e apetites vorazes. Depois a mão desengana-me do que o cérebro pensa e o mundo continua a decorrer normalmente, inocente dos pânicos mudos que nos comandam.
Tudo isto para dizer o quê? Que temos medo. Apenas isso. E que os medos se repetem e multiplicam e são os insectos vorazes que nos tolhem os movimentos. Demasiado tempo perdido a olhar para a TV. Para os sonhos que outros querem que tenhamos. Sonhando sonhos de outros em forma de pesadelo. A vida a passar.
Acordo numa selva de garrafas vazias... e a mesa à minha frente, à frente dos meus pés, está cheia de cervejas vazias, álcool entornado em cima do vidro do tampo, restos de tabaco, mortalhas encharcadas e maços amassados, desfeitos, queimados. O corpo dorido pelas horas de sono sentado regressa à vida, desperta lentamente. A boca está quente e morta. A língua dormente. Levanto-me Arrasto-me até à casa de banho e empurro o papel higiénico queimado para o lado, saco o sexo e liberto uma torrente turva na cerâmica húmida. O cérebro regressa à vida ao som de águas... Cataratas humanas... Sinto dificuldades em concentrar-me... A cabeça dói... existe e é perversa.
Onde estão as tuas mãos? Onde posso encontrar o teu corpo a estas horas nesta noite fria.. nesta primavera de destroços.
Estou mudo e olho. Parecemos todos.... monstros rápidos e ágeis. Humanóides frios. As máquinas não nos conseguem fazer tocar as pessoas. Fazê-las compreender a sua solidão. Dias passados na peneira: apenas pó do que não foi feito e se acumula. Olha-se em volta, em torno da riqueza material e circunstâncias várias que nos colocaram aqui, onde estamos, e não é no teclado que se encontram as pessoas; não é através do messenger que se consegue interromper o silêncio que martela as paredes. Penso nos dias, na sua maravilhosa sensação de plenitude – muitas vezes quando chego a casa tarde, oito horas, penso quando acordava e tinha todo o tempo, as horas não se arrastavam lentas e inertes plenas de acções marteladamente repetidas e decoradas. Eram perfeitas – a observação do mundo ao microscópio do olhar curioso, o maravilhoso do lanche de pão com manteiga e leite com café, claro. Fantasmas que não me largam e se repetem quando a porta que abro é a de casa.
Casa de três gerações – todo o peso do tempo sobre mim: os olhares de três gerações de pessoas reais e carnais a olharem os meus passos quando eu estou mais distraído. Por vezes receio estar a ser devorado por insectos. No pescoço; começo a sentir as suas patas e apetites vorazes. Depois a mão desengana-me do que o cérebro pensa e o mundo continua a decorrer normalmente, inocente dos pânicos mudos que nos comandam.
Tudo isto para dizer o quê? Que temos medo. Apenas isso. E que os medos se repetem e multiplicam e são os insectos vorazes que nos tolhem os movimentos. Demasiado tempo perdido a olhar para a TV. Para os sonhos que outros querem que tenhamos. Sonhando sonhos de outros em forma de pesadelo. A vida a passar.
Céus televisivos (2)
“O mundo está morto.” “Os heróis desapareceram.” “A Verdade foi atingida: não é preciso lutar mais.” - São estas as mentiras que nos vendem numa realidade hiperdefenida que nos é comodamente entregue em casa para os nossos olhos vorazes se alimentarem. Tudo é mais verdadeiro agora que não conseguimos tocar em nada.
Onde é que tudo se confundiu? O tempo, a amálgama de horas, os dias e as noites dos nossos desejos, os desejos de outros feitos à nossa medida? Onde terminou a noção de tempo, a diferenciação de dia para dia para dia para dia – longe deste constante definhar diário e repetido (para gáudio de quem?). Possuir sem conseguir tocar... ter a ilusão da posse no bolso cheio e no cérebro vazio – no perfeito sonho do capital – e oferecer aos outros os pesadelos e medos que nos ocupam as noites; preencher a sua vida com a mesma malevolência com que julgamos o que os olhos vêem e o tacto não toca; morder a carne impoluta com os nossos dentes verdes e podres e a língua morta de quem não sonha. Enfim, dar um pouco de nós, o melhor, aqueles de quem mais queremos.
E ficamos surpreendidos por, no fim, ficarmos sós, na maravilhosa companhia dos nossos pensamentos mais íntimos. Sós com as nossas televisões! Sós com os nossos telemóveis! Sós com os nossos computadores ligados a todo o mundo via internet! Sós, longe da ideia de nós, longe da realidade construída no outro e do outro em nós. Silêncio apenas... e ecos.
E quem somos nós e os outros hoje em dia? O “nós” compra e os “outros” vendem? Sem “outros” que “nós” compraria? Quem de entre “nós” nunca... O outro apenas – o que existe fora das vozes na mente – quem se vê...
Onde é que tudo se confundiu? O tempo, a amálgama de horas, os dias e as noites dos nossos desejos, os desejos de outros feitos à nossa medida? Onde terminou a noção de tempo, a diferenciação de dia para dia para dia para dia – longe deste constante definhar diário e repetido (para gáudio de quem?). Possuir sem conseguir tocar... ter a ilusão da posse no bolso cheio e no cérebro vazio – no perfeito sonho do capital – e oferecer aos outros os pesadelos e medos que nos ocupam as noites; preencher a sua vida com a mesma malevolência com que julgamos o que os olhos vêem e o tacto não toca; morder a carne impoluta com os nossos dentes verdes e podres e a língua morta de quem não sonha. Enfim, dar um pouco de nós, o melhor, aqueles de quem mais queremos.
E ficamos surpreendidos por, no fim, ficarmos sós, na maravilhosa companhia dos nossos pensamentos mais íntimos. Sós com as nossas televisões! Sós com os nossos telemóveis! Sós com os nossos computadores ligados a todo o mundo via internet! Sós, longe da ideia de nós, longe da realidade construída no outro e do outro em nós. Silêncio apenas... e ecos.
E quem somos nós e os outros hoje em dia? O “nós” compra e os “outros” vendem? Sem “outros” que “nós” compraria? Quem de entre “nós” nunca... O outro apenas – o que existe fora das vozes na mente – quem se vê...
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