Os poetas são palhaços tristes que vivem em quartos
Cinzentos por aspirar há demasiados meses.
Vestem-se mal e têm mau-hálito e choram
Com a violência do mundo, com a cupidez dos homens,
Com a chuva
- são demasiado delicados para serem reais.
Eu não sou poeta apesar de escrever em verso
Sem rima nem métrica nem matemática
Ou ciência – sou bruto e assim alinho as palavras
E recrio o sentido do mundo: os outros não sabem
Brincar ou escrever, fazem-nos sonhar e nada mais
Enquanto se masturbam com o brinquedo partido.
Ars imitatio vitae…
O mundo tem a poesia que merece
Naquela que escrevo: os sonhos mortos, planos
Inconclusivos,
Uma publicidade barata que nos vende a ilusão
De que há uma higiene no mundo e que o bem
É superior ao mal maior
E que os USA ainda são a terra da liberdade e da oportunidade
E a Europa não é uma donzela-fortaleza com um cinto de castidade
- está fechada e já não fode com ninguém enquanto chupa o sexo
Do capital nas sombras propícias aos enganos e decepções.
É… isto existe longe das mãos pálidas e incertas
De quem escreve poemas sobre a sua inquietação
Pela ausência da pessoa amada
- e o amador e a coisa amada não passam disso: amadores
Que com sorte aparecem num vídeo de carácter duvidoso
No Youtube – no sexo e na vida e no nexo que esta tem
Quando para ela olhamos cuidadosamente e com sentido
De encontrar algo mais para além do vórtice umbilical
Ou das anónimas massas sofredoras que todos amam
E em quem ninguém realmente pensa no mundo civilizado.
Dane-se Dante com o seu Inferno quando nós já temos carros
E não precisamos de morrer para ver o inferno nem andamos
A pé pela mão de nenhum filósofo que nos diz para onde olhar:
Guiamos, madrugada pela cidade, o corpo desconjuntando-se
Na metálica trepidação do carro sobre os paralelos, as narinas
Sorvendo o delicado veneno que paira sobre nós, os olhos
Mirando gulosos os corpos que se vendem, que se trocam,
Que se perdem entre os dentes de predadores, a pele
Quente da alma colada ao medo de nos tornarmos assim
De assim sermos quando despimos os preconceitos que nos cobrem.
Os maquinismos já nos devoraram e cuspiram os ossos
E levaram-nos a alma alagada no sangue que fazem correr
Em nome da nossa sagrada democracia, do nosso perene medo.
Resta o
spleen para quem vive na cidade ou o suicídio
Para quem já não consegue fugir ao abraço dos campos.
Poetas? Cuspo nos seus túmulos e sei que isso lhes dá prazer.