25 junho 2009

Reconheço a casa de olhos cegos

Reconheço a casa de olhos cegos
        E mãos trôpegas
Mas não me reconheço a mim
Quando são as tuas mãos a ler-me.

Quando era novo era mais perigoso
Construir: os prédios cresciam suportados
Pelos andaimes, titubeantes florestas de metal,
E não havia linhas de segurança, nem obstáculos
Entre o desequilíbrio do corpo e a certeza da queda.

        Para sobreviver
Só se contava com a dureza do corpo e da mente
Que se tentava matar com o vinho do almoço.
Caminhávamos livres pelos telhados da vida,
        Olhando para baixo como deus,
Como deus entediados com o que ainda nos falta.

Hoje que sou mais velho e o mundo tem mais medo
As obras são um formigueiro organizado e seguro.
Os corpos escravos estão presos ao prédio que cresce
Com o seu sangue e suor; barreiras de segurança brancas
E vermelhas impedem o desequilíbrio ou a escolha;
Os andaimes estão firmemente presos às paredes
E o lixo é conduzido por condutas para a reciclagem.

Só nos resta, no meio de toda esta eficiente rapidez,
Encher a mente com o nada, afogar-nos em vinho
        E esperar que a tarde seja rápida
- E que a segurança da queda ainda tarde no corpo impreparado.

23 junho 2009

Recordando as aplicações desta música ao S. João

As palavras

As palavras são... palavras
palavras, palavras, palavras,
palavras e mais palavras -
sim, palavras e pouco mais.

As palavras são palavras:
palavras, palavras, palavras,
palavras, palavras, palavras,
palavras, palavras, palavras,

São suaves ou duras
Armadilhas das imagens
Ou da compreensão.

Mentes obscuras não vêm:
Entendem o que pretendem
Reescrever na história.
Dando-lhes suficiente tempo
Andaremos, sim, mas como eles querem.

As palavras são merda
porque promovem a inacção
- se ainda assim não quiseres entender,
eles têm os cacetetes para te explicar.

E o som de hoje é....

19 junho 2009

You Can't Bring Me Down






Suicidal Tendencies, Incrível Almadense, 18/6/09

Um dos melhores concertos da minha vida!

16 junho 2009

Os poetas são...

Os poetas são palhaços tristes que vivem em quartos
Cinzentos por aspirar há demasiados meses.
Vestem-se mal e têm mau-hálito e choram 
Com a violência do mundo, com a cupidez dos homens, 
        Com a chuva
- são demasiado delicados para serem reais.

Eu não sou poeta apesar de escrever em verso
Sem rima nem métrica nem matemática 
Ou ciência – sou bruto e assim alinho as palavras  
E recrio o sentido do mundo: os outros não sabem
Brincar ou escrever, fazem-nos sonhar e nada mais 
Enquanto se masturbam com o brinquedo partido.

        Ars imitatio vitae… 

O mundo tem a poesia que merece
Naquela que escrevo: os sonhos mortos, planos 
        Inconclusivos, 
Uma publicidade barata que nos vende a ilusão 
De que há uma higiene no mundo e que o bem 
        É superior ao mal maior 
E que os USA ainda são a terra da liberdade e da oportunidade
E a Europa não é uma donzela-fortaleza com um cinto de castidade
- está fechada e já não fode com ninguém enquanto chupa o sexo
Do capital nas sombras propícias aos enganos e decepções.

É… isto existe longe das mãos pálidas e incertas
De quem escreve poemas sobre a sua inquietação
Pela ausência da pessoa amada 
- e o amador e a coisa amada não passam disso: amadores
Que com sorte aparecem num vídeo de carácter duvidoso 
No Youtube – no sexo e na vida e no nexo que esta tem
        Quando para ela olhamos cuidadosamente e com sentido
De encontrar algo mais para além do vórtice umbilical
Ou das anónimas massas sofredoras que todos amam 
E em quem ninguém realmente pensa no mundo civilizado.

Dane-se Dante com o seu Inferno quando nós já temos carros
E não precisamos de morrer para ver o inferno nem andamos 
A pé pela mão de nenhum filósofo que nos diz para onde olhar:
Guiamos, madrugada pela cidade, o corpo desconjuntando-se
Na metálica trepidação do carro sobre os paralelos, as narinas 
Sorvendo o delicado veneno que paira sobre nós, os olhos
Mirando gulosos os corpos que se vendem, que se trocam,
Que se perdem entre os dentes de predadores, a pele 
Quente da alma colada ao medo de nos tornarmos assim
De assim sermos quando despimos os preconceitos que nos cobrem.

Os maquinismos já nos devoraram e cuspiram os ossos
E levaram-nos a alma alagada no sangue que fazem correr 
Em nome da nossa sagrada democracia, do nosso perene medo.

Resta o spleen para quem vive na cidade ou o suicídio 
Para quem já não consegue fugir ao abraço dos campos.

Poetas? Cuspo nos seus túmulos e sei que isso lhes dá prazer.