01 julho 2009

Jogar o jogo

farei deles uns ricos berlindes
se aceitar a minha morte,
se souber jogar o jogo 
- se aceitar que o tempo 
         aqui
é limitado e apenas temos 
duas mãos e um sonho,
uma famélica hipótese de ser
         feliz.

farei deles uns ricos berlindes
se tiver coragem para viver.

Quero sexo com o perfume verídico

Quero sexo com o perfume verídico
Do amor, da lenta excitação que ferve o sangue
E esvazia a mente. Sexo que cheire a amor,
À terra quente onde os corpos se confundem.

O que aconteceu entre ontem e hoje?
O que muda quando… 
         Os corpos ficam estranhos 
Como papel, vazios de sentido como maus poemas
Que terminam sempre antes de tempo,
         Desarmónicos
Como os sonhos lascivos de um demónio. 

Fica aqui,
         hoje,
Costas contra o meu peito incerto,
As minhas mãos crescendo sobre os teus seios. 

25 junho 2009

Reconheço a casa de olhos cegos

Reconheço a casa de olhos cegos
        E mãos trôpegas
Mas não me reconheço a mim
Quando são as tuas mãos a ler-me.

Quando era novo era mais perigoso
Construir: os prédios cresciam suportados
Pelos andaimes, titubeantes florestas de metal,
E não havia linhas de segurança, nem obstáculos
Entre o desequilíbrio do corpo e a certeza da queda.

        Para sobreviver
Só se contava com a dureza do corpo e da mente
Que se tentava matar com o vinho do almoço.
Caminhávamos livres pelos telhados da vida,
        Olhando para baixo como deus,
Como deus entediados com o que ainda nos falta.

Hoje que sou mais velho e o mundo tem mais medo
As obras são um formigueiro organizado e seguro.
Os corpos escravos estão presos ao prédio que cresce
Com o seu sangue e suor; barreiras de segurança brancas
E vermelhas impedem o desequilíbrio ou a escolha;
Os andaimes estão firmemente presos às paredes
E o lixo é conduzido por condutas para a reciclagem.

Só nos resta, no meio de toda esta eficiente rapidez,
Encher a mente com o nada, afogar-nos em vinho
        E esperar que a tarde seja rápida
- E que a segurança da queda ainda tarde no corpo impreparado.

23 junho 2009

Recordando as aplicações desta música ao S. João

As palavras

As palavras são... palavras
palavras, palavras, palavras,
palavras e mais palavras -
sim, palavras e pouco mais.

As palavras são palavras:
palavras, palavras, palavras,
palavras, palavras, palavras,
palavras, palavras, palavras,

São suaves ou duras
Armadilhas das imagens
Ou da compreensão.

Mentes obscuras não vêm:
Entendem o que pretendem
Reescrever na história.
Dando-lhes suficiente tempo
Andaremos, sim, mas como eles querem.

As palavras são merda
porque promovem a inacção
- se ainda assim não quiseres entender,
eles têm os cacetetes para te explicar.

E o som de hoje é....