21 julho 2009

A roda do eterno retorno

A roda do eterno retorno dita
que hoje, como todos os dias,
sejamos objecto de repulsa.

17 julho 2009

Vou explicar-te o mundo

Vou explicar-te o mundo,
Agora, com o pouco fôlego
Que me sobra nos pulmões
Cansados e fracos.

Há três momentos, três mundos
A descobrir nos desregrados gestos:
no primeiro, és tu que agarras o mundo,
Esse brinquedo fálico e pleno de vida;
No segundo, é ele que te agarra e brinca
Contigo; no terceiro, ambos de descobrem
Inúteis e encostam-se para morrer.

Podes falar da solidão que esqueci de referir
- Ou que tornei óbvia insinuando que todos brincamos
Com o sexo frágil, com a fragilidade corporal
Dos sentimentos que se escondem - mas é assim,
E é simples: nunca vão estar presentes as pessoas
Que esperas ver e quando mais precisares serão tuas
qqqqqAs mãos que te vão salvar.

Mas lembra-te dos poucos rostos que vês quando olhas
À tua volta, das vozes que escutas quando te pensas só:
Essas são as pessoas a quem podes confiar a tua vida
- Tudo o resto é apenas uma ilusão passageira,
qqqqqUma relação de negócios num mundo económico.

13 julho 2009

Por vezes é de lá que vejo o mundo

Cansas a beleza contando os cactos

Cansas a beleza contando os cactos
De aço das mortes que te rodeiam.

Tentas esquecer a vida que te forçaram
A abandonar; como uma velha marcas o tempo
Riscando a parede, contando as mortes
Conhecidas e as familiares
- Vingaste dos velhos que te prenderam,
Que te enganaram a felicidade plena.

És mais feliz agora que tudo está pervertido?
Ou apenas descobres o tédio igual a ti,
As camas vazias às quais regressas, os gestos
Cansados da rotina, abertos para o nada.

Fizeste a experiência do adultério:
O sexo abriu-se, pleno, mais uma vez
Enquanto a felicidade se escoava como água
Por entre dedos frenéticos, línguas animais.

O que voa – pela janela fora da casa
Que nunca foi? Os retratos de um projecto de vida,
A roupa com que se escondia a vergonha e o frio,
Os livros mutilados abrindo as asas como pássaros
Impotentes, os CD´s- espelho que caem no passeio
Ferindo a rua de morte como um coração de papel
Matou a hipótese do amor – que amor?

O origami dos corpos é por demais complicado
Para a rapidez do mundo. O tempo é voraz
E alma sentida é uma alma que não existe,
Que se pode perder facilmente numa esquina
Enquanto se urina e se segue o jacto amarelo
Contra a parede, contra a mancha na parede.

Distraídos por ela lá fica a alma pousada,
Afogada em mijo e nos ácidos das ruas.

Que é preciso fazer mais para apaziguar a consciência?
Onde está o descanso perdido, a solidez do sono
E a consistência do carácter inabalável?

As ruas que vês não têm fim e sobre ti caem;
Por mais que fujas não consegues escapar ao turbilhão
Asfixiante do cheiro arenoso do cimento, das tintas
Desfeitas no pó do tempo, da cinza vermelha dos tijolos.

E nunca sabes onde estás… e as caras fogem desoladas
E há frio ao teu lado na tua cama de solteira.

Nos momentos antes do sono
Os sonhos de uma vida feliz e normal
São desfeitos pelas vozes contrárias a que obedeces
E sabes que nunca terás paz, excepto no oposto
Do que és agora… e agora… e agora…

E por mais que o tentes esconder,
O teu sexo irá despontar sempre,
Como uma flor
Rubra, quente sob o sol do toque.

07 julho 2009

Assimila

Comecei a escrever com 12 anos.
Que diferença é que isso faz agora?
- Tudo ardeu voluntariamente e a água
Da memória levou as palavras na corrente.

Vou dar-vos uma metáfora à vida:
Criar para arder no fogo e aparecer a cinza subjacente a tudo.

A vida sem remorsos é uma ilusão fácil
Por isso criamos – celebramos a unidade impossível;
O fim da atomização solitária – o fim; a cinza;
As mudanças imperceptíveis da esquizofrenia.

Deixem as palavras arder
E os passos e os gestos aproximar o amor
Que parece impossível. Elas já não servem:
São sapatos largos demais para os passos
A dar, adiam a acção até à loucura
Dominar e não deixar os gestos fluírem plenos.

Mas sim, comecei a escrever com 12 anos.
Já sabia faze-lo, mas parecia não ter importância
(não sabia falar ou ainda não tinha voz criada
Na garganta) e as palavras pareciam brinquedos
Sem cor. Preferia...
O pátio de cimento, a luz
Verde das árvores, a areia suja do rio,
Esse sim eterno e grande, maior do que a alegria
De ser inocente e estar vivo, mais vivo do que a ilusão
De qualquer droga. É a visão periférica da infância,
Crescer brincando no seio maligno de Gaia, belo e profícuo.

A caneta veio depois para cortar as veias industrializadas,
Para distorcer a ilusão ocular do mundo e descobrir as pessoas
Que ainda são enigmas impossíveis e mutantes.

Apesar de já ter provado a inutilidade, a minha e a do papel,
Continuo a acumular conceitos relativos tentando dar uma forma
Às coisas, talvez a repetir o que sempre escrevi e queimei.

Sei agora que sou um átomo entre outros e que a união é impossível.
Rodopio como todos sobre a mesma elipse enlouquecedora
E nunca vamos conseguir escapar sem fragmentar o mundo
        Explosivo,
Sem o deixar na carne viva do fogo e da terra queimada - sem luz
        Ou som.
Apenas o arranhar frágil no papel
(Que não é luz nem som),
        Um escape relativo
Que nenhuma história vai contar depois de queimado.

01 julho 2009

Jogar o jogo

farei deles uns ricos berlindes
se aceitar a minha morte,
se souber jogar o jogo 
- se aceitar que o tempo 
         aqui
é limitado e apenas temos 
duas mãos e um sonho,
uma famélica hipótese de ser
         feliz.

farei deles uns ricos berlindes
se tiver coragem para viver.