30 julho 2009

Um poema de...

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
[HOJE QUE ME SINTO]


hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas

fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos

encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.


A Perspectiva da Morte (de As Moradas 1 a 3), org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

retirado deste blog

High on love

23 julho 2009



A lama

Enquanto caminhava
a lama engoliu o sol
- agora são os olhos
que iluminam o caminho.

Comuniquem

aaaaComuniquem
Ou esqueçam o meu número,
aaaaPrático entre tantos
E gratuito para trabalhos
aaaa- Ou companhia.

Perdi a minha utilidade entre sombras;
Nos buracos do caminho fiz a solidão
Crescer e tomar conta do abandono.
Do silêncio que ficou desde que comecei a exigir
aaaaDireitos e respeito
Ficou o mundo mais vazio,
aaaaMais rico, eu,
Agora que sei quem é quem e quem é ninguém.

A tecnologia, esse frágil elo ao mundo,
Repousa no bolso ou esquecido em casa
No computador desligado, estranho comutador
De estados e sentidos quando o único sentido
É a projecção errada de um engano digital.

Esqueçam-me se me querem apenas para trocar
Medos ou conquistas - ou para uma vaga e orgulhosa
Afirmação da fragilidade do vosso carácter.
Estou ausente para trabalhos gratuitos,
Para vos ler as divagações, para estudar os vossos
Miseráveis egos divididos até ao nada.

Comuniquem apenas se me quiserem, a mim,
aaaaCompleto e íntegro
E não um mero fantoche que preencha plenamente
As necessidades das pessoas que vocês não são.