20 agosto 2009

Os 3 dias da morte

Dia 1

Um dia acordamos
E reparamos que apenas existimos
- Que somos sem nada ser senão um vago
Pó de coisas desconexas, de uma biologia
Traiçoeira ou de ossos de negros rituais.

Quanta morte se esconde em mim,
aaaaaaagora,
Que sou um exilado deste mundo e do outro?

Dia 2

Abertos num último fôlego de luz,
Fecham-nos os olhos que, entregando
Por uma última vez o corpo à luminiscência,
Iluminavam todo o mundo em redor para o gravar
- Por uma última vez vivo, por uma última vez belo,
Por uma última vez nítido e perfeito - como nunca foi.

Dia 3

Na monotonia deste caminho de sombras
Que me afasta de mim próprio, do que sou
Em mim, para o vazio sem cor e sem som
Para onde vou agora, desconfio que não há
Como voltar nem comunicar com quem fica
Neste cais de onde caí e as ondas me levaram
O corpo
aaaaaae o pavio da vida tranquila.

aaaaaa(ainda assim vou continuar a gritar)

18 agosto 2009

I got a

Sou um cão que não conhece dono e que morde

Chego à casa de hoje na hora em que os homens
-Invisíveis limpam as ruas, em que as pessoas despertam
Para me pontapear. Escondo-me até a fome me encontrar
Dormindo um sono possível no abraço do chão nu.
Dividido, entre o dia e a noite, caço fantasmas
E persigo as pernas que gradeiam o meu caminho.

Sou um cão que não conhece dono e que morde
aaaaaaaaa mão e o corpo que o alimenta.

16 agosto 2009

A praia

O mar salgado já não tem lágrimas,
Nem de Portugal, nem de lado algum;
É água, apenas isso - com sal, como outros
A tomam com açúcar.

Aqui mata-se o tempo, esquece-se o tédio,
Distrai-se a vaga líbido no desejo intocável.
Especialmente aqui, há que fazer como os animais:
Baixar a cabeça respeitosa e aceitar o sol e o azul
Do céu e da água, a estranha vela no horizonte, única,
Solitária como eu que estou sempre... noutro local.

Saber existir é uma ciência rara - penso e sei
Que nunca fui cientista; que apenas observo
De fora do saber e da engrenagem da máquina celeste -
Que escapa como areia por entre os dedos.

As crianças, por exemplo, sentam-se
Com olhos de filósofo que compreende
A linguagem das ondas,
Fazem castelos de areia, correm para o medo
Da água, para a alegria da rebentação
E do ssshhhhhhhhhhhhh das pedras;
Preparam-se para o resto das suas vidas
A saltar obstáculos, a sonhar o impossível, a enfrentar
O primeiro medo.

Ao menos, por uma breve conjunção de signos e astros,
É-nos permitida a felicidade; uma só vez
Em que se sente a alegria das cores, em que uma pedra húmida
Vale mais que um telemóvel e o sol é um brinquedo
Que a todos pertence.

Sabem, a vida que levamos não faz muito sentido
Quando se pode resumir à simplicidade do respirar,
Aos olhos abertos para o nada, a esquecer a depressão,
À falta de jeito para jogar ao jogo da vida, ao engano
Do bolso vazio e dos milhares de euros em dívidas
Que dinheiro algum poderá pagar, à gordura acumulada
Em torno da idade e outras mentiras.

Está na hora de correr para a água, agora,
E testar a hidrodinâmica do corpo ainda quente.

Vou mergulhar bem fundo e voltar a esquecer-me ao sol.

30 julho 2009

Um poema de...

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
[HOJE QUE ME SINTO]


hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas

fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos

encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.


A Perspectiva da Morte (de As Moradas 1 a 3), org. Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

retirado deste blog

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