Não se pode atingir o Homem
olhando ao animal religioso:
A mente escapa-se no labirinto
Da rete mirabillis; o coração, essa jóia
De carne, arrefece o sangue e o cérebro
É a sede de um pensamento que se sente
No calor do corpo vivo e palpitante.
E é no sangue que se vai encontrar equilíbrio
- No sangue de deus encontra-se a manutenção humana,
Dos humores que rugem nas areias do deserto.
A criatura chamada Homem ainda tinha os olhos
Demasiado cegos para o voo da ciência.
Para informações sobre a importância da civilização islâmica na europa renascentista clicar aqui
Para mais informações sobre Ibn Sina e as suas descobertas clicar aqui
Para mais informações sobre a rete mirabillis clicar aqui
Para quem não quer seguir os links, deixo uma explicação: Ibn Sina foi um sábio em vários campos da ciência. Durante a Idade Média, entre outros campos, dedicou-se ao estudo do corpo humano para demonstrar a existência de deus através da lógica e da experimentação.
Contudo, devido ao carácter sagrado que os cadáveres humanos tinham nessa época, cometeu o erro de extrapolar que a rete mirabillis, presente no cérebro de símios, fazia também parte do corpo humano. Comentador de Galeno, cai em muitos dos erros das suas observações directas: o coração servia para arrefecer o sangue; o corpo humano e a psicologia humana era regida por humores, etc.
Penso que assim se torne mais compreensível o significado do poema.
28 agosto 2009
Antes de adormecer, finalmente, de madrugada
O sono teima em não chegar e nas cicatrizes
Dos estores começa a brilhar a primeira luz.
Tentou-se a música, os filmes, o cansaço
Dos corpos confusos mas ainda não perdidos
- E os olhos permaneceram abertos, a boca
Criando imateriais pontes no escuro.
Entre o receio e a novidade de um calor novo,
Alice está acorrentada às ondas catódicas;
Não pode escapar à fronteira de vidro, espelho
Onde agora se reflecte o corpo masculino,
Tosco e adormecido,
E um feminino que finge o sono onde se esconde.
Dos estores começa a brilhar a primeira luz.
Tentou-se a música, os filmes, o cansaço
Dos corpos confusos mas ainda não perdidos
- E os olhos permaneceram abertos, a boca
Criando imateriais pontes no escuro.
Entre o receio e a novidade de um calor novo,
Alice está acorrentada às ondas catódicas;
Não pode escapar à fronteira de vidro, espelho
Onde agora se reflecte o corpo masculino,
Tosco e adormecido,
E um feminino que finge o sono onde se esconde.
27 agosto 2009
A roda da rotina conspurca o azul
A roda da rotina conspurca o azul
Dos sonhos, a hipótese de melhor
Tempo ou momento para viver.
Estou encurralado dentro de um quarto
Cheio de livros que não consigo ler,
Cheio de palavras incompreensíveis
Que não explicam o porquê de estar aqui,
Fechado, entre as quatro paredes
Do meu nervosismo - da voz que seca na garganta
A impossível comunicação entre quem está
E a fantasia que é distante.
Não consigo ler este mapa que encontrei no bolso:
Que caminhos percorreram minhas mãos e em que águas
Beberam esta inquietação que agora habita na pele?
Que sinais são estes que tenho entre os dedos e sob os olhos
Que não explicam as noites passadas
e a confusão da madrugada?
Entre um dia e outro, até se completar os sete dias da semana,
Resta-nos o medo que entrega os corpos e guarda as palavras
Para um dia fora do tempo - fora do medo de sermos reconhecidos
Por uma outra face tão desconhecida como a nossa.
Dos sonhos, a hipótese de melhor
Tempo ou momento para viver.
Estou encurralado dentro de um quarto
Cheio de livros que não consigo ler,
Cheio de palavras incompreensíveis
Que não explicam o porquê de estar aqui,
Fechado, entre as quatro paredes
Do meu nervosismo - da voz que seca na garganta
A impossível comunicação entre quem está
E a fantasia que é distante.
Não consigo ler este mapa que encontrei no bolso:
Que caminhos percorreram minhas mãos e em que águas
Beberam esta inquietação que agora habita na pele?
Que sinais são estes que tenho entre os dedos e sob os olhos
Que não explicam as noites passadas
e a confusão da madrugada?
Entre um dia e outro, até se completar os sete dias da semana,
Resta-nos o medo que entrega os corpos e guarda as palavras
Para um dia fora do tempo - fora do medo de sermos reconhecidos
Por uma outra face tão desconhecida como a nossa.
26 agosto 2009
24 agosto 2009
e
Há um terror que toma conta de mim
Antes de agarrar a caneta e olhar
O papel, o inconlusivo mundo que se tenta
Organizar e dizer a outros olhos semióticos.
e
A dúvida permanece - o eco relativo
Do envelhecimento - enquanto as mensagens
Não chegam, enquanto amigos trémulos
Explicam os mecanismos do vício e se recordam
Tempos passados e incertas vitórias.
e
Onde estão as palavras que expliquem
Que o que nos faz viver agora continua a ser
A dúvida do coração: o sítio de onde vem a batida
Que nos lança desenfreados em livre-queda
Nos corpos-solidão que adornam a noite turva?
e
Não há forma de coordenar os anjos destas palavras
Com os demónios que trago nos ossos; prolongo a luta
Entre um bem e um mal ainda mais relativo e alinho mortos
Antes de ir dormir. A tragédia é que as memórias persistem
Na pele e no tempo, na necrópole da mente rasteira
Invadida por tristes insectos que me devoram os olhos
E apagam os sentidos às coisas.
e
Nem o sangue da caneta se consegue prender a este papel
Gorduroso de mil bebidas e mil noites dispersas em mil
Conversas que nenhuma ciência económica consegue traçar
O rasto ou o sentido ou o propósito comum. Como escrever
Quando a caneta se nega ou apenas suja as dúvidas da folha,
Que é pele e corpo de mim mesmo, quando o que se tenta
Agarrar é diáfano como uma fantasia demasiado breve?
e
Quando já toda a gente abandonou a madrugada e as ruas
Apenas estão adornadas pelo lixo e pelo silêncio, um ocasional
Vizinho ainda está à janela e fuma sobre o granito polido
Pelos venenos e pelos passados passos dados contra os muros;
Os últimos passos da noite chutam para longe os copos vazios
Do dia que se aproxima; os anticorpos municipais preparam
A limpeza das veias, o sistemático apagamento da memória.
e
É esta a dança em torno da árvore dos esqueletos, o passatempo
Do amor que se perde e encontra em ruas mascaradas e nos passos
Incertos que nos impelem para casa de estranhos ou para o frígido futuro
Em que se oferece o calor do corpo, mas não a intimidade das palavras
Que caem e se perdem como o dinheiro com que se enchem os bolsos.
e
Depois de tudo isto vem o alheamento do sono e a relativa paz
Em que se descansa a razão sem saber ao lado de quem se dorme
- Preenchendo com sonhos os desejos mais íntimos que nunca mais serão
E a permanência do terror de ter as mãos partidas em inúteis palavras.
Antes de agarrar a caneta e olhar
O papel, o inconlusivo mundo que se tenta
Organizar e dizer a outros olhos semióticos.
e
A dúvida permanece - o eco relativo
Do envelhecimento - enquanto as mensagens
Não chegam, enquanto amigos trémulos
Explicam os mecanismos do vício e se recordam
Tempos passados e incertas vitórias.
e
Onde estão as palavras que expliquem
Que o que nos faz viver agora continua a ser
A dúvida do coração: o sítio de onde vem a batida
Que nos lança desenfreados em livre-queda
Nos corpos-solidão que adornam a noite turva?
e
Não há forma de coordenar os anjos destas palavras
Com os demónios que trago nos ossos; prolongo a luta
Entre um bem e um mal ainda mais relativo e alinho mortos
Antes de ir dormir. A tragédia é que as memórias persistem
Na pele e no tempo, na necrópole da mente rasteira
Invadida por tristes insectos que me devoram os olhos
E apagam os sentidos às coisas.
e
Nem o sangue da caneta se consegue prender a este papel
Gorduroso de mil bebidas e mil noites dispersas em mil
Conversas que nenhuma ciência económica consegue traçar
O rasto ou o sentido ou o propósito comum. Como escrever
Quando a caneta se nega ou apenas suja as dúvidas da folha,
Que é pele e corpo de mim mesmo, quando o que se tenta
Agarrar é diáfano como uma fantasia demasiado breve?
e
Quando já toda a gente abandonou a madrugada e as ruas
Apenas estão adornadas pelo lixo e pelo silêncio, um ocasional
Vizinho ainda está à janela e fuma sobre o granito polido
Pelos venenos e pelos passados passos dados contra os muros;
Os últimos passos da noite chutam para longe os copos vazios
Do dia que se aproxima; os anticorpos municipais preparam
A limpeza das veias, o sistemático apagamento da memória.
e
É esta a dança em torno da árvore dos esqueletos, o passatempo
Do amor que se perde e encontra em ruas mascaradas e nos passos
Incertos que nos impelem para casa de estranhos ou para o frígido futuro
Em que se oferece o calor do corpo, mas não a intimidade das palavras
Que caem e se perdem como o dinheiro com que se enchem os bolsos.
e
Depois de tudo isto vem o alheamento do sono e a relativa paz
Em que se descansa a razão sem saber ao lado de quem se dorme
- Preenchendo com sonhos os desejos mais íntimos que nunca mais serão
E a permanência do terror de ter as mãos partidas em inúteis palavras.
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