Vai onde te leva o corpo
E esquece as palavras que usavas
Como roupa sobre o mundo,
Para o explicar na sua inútil teoria.
Faz a experiência e abraça a queda
Irremediável
Que te elevará à sabedoria.
Mesmo que não faças sentido e sejas
Visto com outros olhos sem luz por dentro,
Vai onde te leva o corpo e queima
Os teus navios e os portos. Eleva-te
A um céu supradivino e sente-te vivo
Nem que seja por um inútil segundo.
Mesmo sem o equilibrio mental da existência
Não olhes nunca para trás senão, inevitavelmente,
Vais fraquejar - quando fraquejar é impossível
Na corda esticada em que corres sobre o vazio.
02 setembro 2009
31 agosto 2009
O meu nome é nada
O meu nome é nada e a minha posse
Mais preciosa são as caixas de cartão
Onde vou fazer hoje a minha casa e cama
Ao lado dos vossos carros fechados,
Das casas vigiadas e muradas até à luz.
Quando me olham ninguém me vê, cinzento
Como os paralelos que são a minha almofada
Quando a bebedeira ou a tristeza me encontram
Caindo nas ruas da vida amargurada por encontrada
Ter sido nunca; nem posta em palavras simples
Para o intelecto do azar ser compreensível
- Para fazer mais sentido dormir nas sombras
Da compreensão e do nojo que me rodeia.
Se estendo a mão doente nada me dão, nem um segundo
Mais preciosa são as caixas de cartão
Onde vou fazer hoje a minha casa e cama
Ao lado dos vossos carros fechados,
Das casas vigiadas e muradas até à luz.
Quando me olham ninguém me vê, cinzento
Como os paralelos que são a minha almofada
Quando a bebedeira ou a tristeza me encontram
Caindo nas ruas da vida amargurada por encontrada
Ter sido nunca; nem posta em palavras simples
Para o intelecto do azar ser compreensível
- Para fazer mais sentido dormir nas sombras
Da compreensão e do nojo que me rodeia.
Se estendo a mão doente nada me dão, nem um segundo
De existência me querem conceder, vocês que têm dinheiro
E substância e que existem para além de vós, nos carreiros
Das contas bancárias, na memória tributária do estado.
Eu nem um número tenho, não tenho identidade.
Os meus ossos e a minha pele valem pelo que eu sou.
E eu sou nada.
E eu sou nada.
30 agosto 2009
Quão longe estamos agora de nós
Quão longe estamos agora de nós
Mesmos? As portas estão abertas
E do outro lado está o medo de ser.
O que aconteceu naquele quarto
Quando as afiadas facas das línguas
Bifurcadas brilharam brevemente?
Nada ganhamos em viver 24 horas solitárias
Ornamentando perfeitamente os dias com os objectos
Do nosso desespero quando só o sofrimento
Com que pintamos os olhos nos faz sentir
Que
Estamos permanentemente separados
E a tecnologia e os dias só serviram
Para nos afastar, para mitigar os febris sonhos
Dos nossos próprios dias de ninguém.
Quem matou fui eu - e buscava a liberdade.
Mesmos? As portas estão abertas
E do outro lado está o medo de ser.
O que aconteceu naquele quarto
Quando as afiadas facas das línguas
Bifurcadas brilharam brevemente?
Nada ganhamos em viver 24 horas solitárias
Ornamentando perfeitamente os dias com os objectos
Do nosso desespero quando só o sofrimento
Com que pintamos os olhos nos faz sentir
Que
Estamos permanentemente separados
E a tecnologia e os dias só serviram
Para nos afastar, para mitigar os febris sonhos
Dos nossos próprios dias de ninguém.
Quem matou fui eu - e buscava a liberdade.
29 agosto 2009
Apenas a minha loucura
De que cinzas renasci? - improvável
Fénix cujas plumas nunca tinham sido vistas
Na racionalidade dos filósofos ou nas visões místicas
De irracionais poetas enlouquecidos pelo mundo.
À meses que a luz se ausentou da minha escrita,
Desta modesta afirmação do poder transmutador das mãos
E do desejo que ilumina os corpos por dentro dos sonhos;
As tardes, agora, passo-as sozinho, o sexo inflamado
Em precoce descanso; a mente vazia enquanto os sentidos
Sentem o calor do ar parado,
As trepidações ocasionais dos carros,
O funesto silêncio e o seu futuro.
Se a transmutação fosse real - e não apenas uma ilusão
Operada sobre a misteriosa alquimia dos álcoois - olharia
O tempo que se estende impreciso e dar-lhe-ia a ignota forma
Que preencheria o vazio em mim. De resto, a contar aos outros,
Tenho apenas a minha loucura.
Fénix cujas plumas nunca tinham sido vistas
Na racionalidade dos filósofos ou nas visões místicas
De irracionais poetas enlouquecidos pelo mundo.
À meses que a luz se ausentou da minha escrita,
Desta modesta afirmação do poder transmutador das mãos
E do desejo que ilumina os corpos por dentro dos sonhos;
As tardes, agora, passo-as sozinho, o sexo inflamado
Em precoce descanso; a mente vazia enquanto os sentidos
Sentem o calor do ar parado,
As trepidações ocasionais dos carros,
O funesto silêncio e o seu futuro.
Se a transmutação fosse real - e não apenas uma ilusão
Operada sobre a misteriosa alquimia dos álcoois - olharia
O tempo que se estende impreciso e dar-lhe-ia a ignota forma
Que preencheria o vazio em mim. De resto, a contar aos outros,
Tenho apenas a minha loucura.
28 agosto 2009
Atravessamos a ponte e começa a cidade
Atravessamos a ponte e começa a cidade.
Entre ruas cinzentas e vielas húmidas,
organiza-se o medo dos bairros pobres
e dos bairros ricos que determinam o mar
morto que se estende sob as suas janelas
grandes e brilhantes como a tua cintura de alcatrão .
Porto,
o sol quando brilha arranca casais das casas
Porto,
as casas como corais apodrecidos
Porto,
o ar poluído e as árvores mortas
Porto,
casas vazias cheias de memórias
Porto,
difícil recordar antigos caminhos
Porto,
loucos alheados olhando o infinito
Porto,
ruas de dificuldade sob copas de granito
Porto,
operações stop à entradas dos bairros
Porto,
nas tuas pedras lavradas palavras proferidas
Porto,
poetas bêbedos gritando ódio ao infinito
Porto,
capitalistas magros e bronzeados procurando a moda
Porto,
tias chiques morrem lentamente em Mercedes presos
no trânsito
Porto,
sentado numa esplanada da baixa recordo as ruas
de Barcelona
Porto,
tempo perdido e palavras sacrificadas no nada
Porto,
para onde mais posso ir em ti para fugir de mim
Porto,
um mar poluído e uma areia imunda de anos tristes
Porto,
portas fechadas e cortinas corridas para melhor espreitar
Porto,
bairros burgueses e calmos longe do centro
Porto,
uma fotografia desfocada de quem mendiga a paixão.
Entre ruas cinzentas e vielas húmidas,
organiza-se o medo dos bairros pobres
e dos bairros ricos que determinam o mar
morto que se estende sob as suas janelas
grandes e brilhantes como a tua cintura de alcatrão .
Porto,
o sol quando brilha arranca casais das casas
Porto,
as casas como corais apodrecidos
Porto,
o ar poluído e as árvores mortas
Porto,
casas vazias cheias de memórias
Porto,
difícil recordar antigos caminhos
Porto,
loucos alheados olhando o infinito
Porto,
ruas de dificuldade sob copas de granito
Porto,
operações stop à entradas dos bairros
Porto,
nas tuas pedras lavradas palavras proferidas
Porto,
poetas bêbedos gritando ódio ao infinito
Porto,
capitalistas magros e bronzeados procurando a moda
Porto,
tias chiques morrem lentamente em Mercedes presos
no trânsito
Porto,
sentado numa esplanada da baixa recordo as ruas
de Barcelona
Porto,
tempo perdido e palavras sacrificadas no nada
Porto,
para onde mais posso ir em ti para fugir de mim
Porto,
um mar poluído e uma areia imunda de anos tristes
Porto,
portas fechadas e cortinas corridas para melhor espreitar
Porto,
bairros burgueses e calmos longe do centro
Porto,
uma fotografia desfocada de quem mendiga a paixão.
Não te preocupes com a morte - a um grande escritor que não conheço pessoalmente
Não te preocupes com a morte
que chegará sempre demasiado cedo:
quando morreres vais regressar à raíz
vulcânica das coisas e serás novamente
uma pedra de sal, uma lágrima
- a visão mística do terceiro olhar.
que chegará sempre demasiado cedo:
quando morreres vais regressar à raíz
vulcânica das coisas e serás novamente
uma pedra de sal, uma lágrima
- a visão mística do terceiro olhar.
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