03 setembro 2009

A indiferença da tua memória

Reservo para mim o previlégio
De fazer a escolha errada, esquecer
O correcto sob uma capa de indiferença.
Compreende que andamos apenas a preencher
O vazio, sempre grande demais para o infinito
Tédio de estar vivo. O que fazer às mãos
E aos dedos e aos olhos que lêm as mentiras
Que escrevemos? O que fazer aos conceitos afundados
Na pele tatuada, aos esquecidos significados das coisas?
Agora estamos longe da força que um dia nos encheu os braços
Que um dia também abraçaram um corpo quente
Para se salvar e ter alguém para contar os passos
Do seu sono, dessa ilusão de descanço.

Em ti, outro, não confio e só espero o silêncio
Que recebo, nada mais - nem mesmo o poluído sexo
Oferecido entre palavras duvidosas. Não há paixão
Na minha vida. O amor está morto. O ódio e os seus
Trilhos férreos são uma hipótese definitiva...
Apenas resta a lógica da indiferença da tua memória.

O nome disto é existência

Não aprendi as lições da minha geração.

A amizade utilitária e os princípios
Economicos acima das prerrogativas morais
Sempre me foram estrangeiros. Também nunca
Soube lidar com os olhares dúplices do ódio
Nem com as vidas encarreiradas pelo poder.

Passou pouco tempo, mas já demais para continuar
A encher os verbos das acções, para prolongar
O prazer egoísta de chupar o sexo ao tempo
Enquanto se acredita ainda no vazio da mente
E no sono apaziguador que traz a realidade
E a fantasmática liberdade dos pesadelos.

Aqui, neste deserto de ruas vazias, já não existe
O tempo: apenas fracções de luzes e escuridões
E coisas desconexas que se sucedem como água.

A lógica disto? - absolutamente nenhuma. O nome
Disto é existência!

- perdão:

Desistência.

02 setembro 2009

Vai onde te leva o corpo

Vai onde te leva o corpo
E esquece as palavras que usavas
Como roupa sobre o mundo,
Para o explicar na sua inútil teoria.
Faz a experiência e abraça a queda
Irremediável
Que te elevará à sabedoria.

Mesmo que não faças sentido e sejas
Visto com outros olhos sem luz por dentro,
Vai onde te leva o corpo e queima
Os teus navios e os portos. Eleva-te
A um céu supradivino e sente-te vivo
Nem que seja por um inútil segundo.

Mesmo sem o equilibrio mental da existência
Não olhes nunca para trás senão, inevitavelmente,
Vais fraquejar - quando fraquejar é impossível
Na corda esticada em que corres sobre o vazio.

31 agosto 2009

O meu nome é nada

O meu nome é nada e a minha posse
Mais preciosa são as caixas de cartão
Onde vou fazer hoje a minha casa e cama
Ao lado dos vossos carros fechados,
Das casas vigiadas e muradas até à luz.

Quando me olham ninguém me vê, cinzento
Como os paralelos que são a minha almofada
Quando a bebedeira ou a tristeza me encontram
Caindo nas ruas da vida amargurada por encontrada
Ter sido nunca; nem posta em palavras simples
Para o intelecto do azar ser compreensível
- Para fazer mais sentido dormir nas sombras
Da compreensão e do nojo que me rodeia.

Se estendo a mão doente nada me dão, nem um segundo
De existência me querem conceder, vocês que têm dinheiro
E substância e que existem para além de vós, nos carreiros
Das contas bancárias, na memória tributária do estado.
Eu nem um número tenho, não tenho identidade.
Os meus ossos e a minha pele valem pelo que eu sou.
                            E eu sou nada.

30 agosto 2009

It's the beat...





Quão longe estamos agora de nós

Quão longe estamos agora de nós
Mesmos? As portas estão abertas
E do outro lado está o medo de ser.

O que aconteceu naquele quarto
Quando as afiadas facas das línguas
Bifurcadas brilharam brevemente?

Nada ganhamos em viver 24 horas solitárias
Ornamentando perfeitamente os dias com os objectos
Do nosso desespero quando só o sofrimento
Com que pintamos os olhos nos faz sentir
Que
Estamos permanentemente separados
E a tecnologia e os dias só serviram
Para nos afastar, para mitigar os febris sonhos
Dos nossos próprios dias de ninguém.

Quem matou fui eu - e buscava a liberdade.

29 agosto 2009

Apenas a minha loucura

De que cinzas renasci? - improvável
Fénix cujas plumas nunca tinham sido vistas
Na racionalidade dos filósofos ou nas visões místicas
De irracionais poetas enlouquecidos pelo mundo.

À meses que a luz se ausentou da minha escrita,
Desta modesta afirmação do poder transmutador das mãos
E do desejo que ilumina os corpos por dentro dos sonhos;
As tardes, agora, passo-as sozinho, o sexo inflamado
Em precoce descanso; a mente vazia enquanto os sentidos
Sentem o calor do ar parado,
As trepidações ocasionais dos carros,
O funesto silêncio e o seu futuro.

Se a transmutação fosse real - e não apenas uma ilusão
Operada sobre a misteriosa alquimia dos álcoois - olharia
O tempo que se estende impreciso e dar-lhe-ia a ignota forma
Que preencheria o vazio em mim. De resto, a contar aos outros,
         Tenho apenas a minha loucura.