11 setembro 2009

09 setembro 2009

O homem em construção

Dentro de nós cresce o ódio 
Enquanto nos oferecemos à solidão
Que alquimicamente se mistura nas noites
Tecnológicas. As televisões e os telefones 
E os computadores agora já não se desligam:
Apenas nós dormimos, máquinas de carne, 
Antigos modelos de barro que são nada
Do que eram suposto ser. Caminhamos e somos
Ocos por dentro; se nos falam ao coração 
As vozes ecoam dentro até desaparecerem 
No ar que uma vez vibrou. Quem somos agora?
Para onde fomos todos e quem nos roubou 
A luz dos olhos, o ouro das acções puras,
A sabedoria que nos trazia dias melhores?
Hoje os apelos são intermináveis: compra, compra!
Vende-te, vende-te! Esquece tudo aquilo que te torna
Humano aos teus olhos e limita-te a existir agora que sabes
Que a felicidade é impossível e que o passado existe
Apenas nas tuas memórias, que vive na tua pele agora
Que acordaste de um longo sono e estás morto, ácido 
Por dentro como as poluídas plantas que mordemos 
Para existir. Os dias não te trouxeram o conhecimento 
Que esperavas; a idade apenas te embruteceu e nada te deu
- Apenas a confusão que agora te tornou outro, terrorista do nada.
Não irei votar. Não acredito nas mentiras que todos eles nos vendem
E sei que o voto é útil para manter o status quo de quem tem 
Sobre aqueles que trabalham para comer as migalhas sob a mesa.
Ainda alguém acredita que Eles estão aqui para cuidar de nós? 
Para nos trazer o bem e o equilibrio económico? Os meus pés 
Cansados cheiram melhor do que esta democracia plutocrática
Quando estão esticados depois de mais um dia de desespero 
Em frente à televisão - e pela janela o fumo da linha do horizonte 
Em chamas que depois serão afogadas em cimento e lixo e cataratas
De merda que tombarão do topo dos vossos prédios desabitados
Para asfixiar todas as cidades e os povos na sua estupidez monetária.

Tenho as mãos cheias de cicatrizes e palavras. Estão sujas e nenhuma 
Água as poderá limpar. Escolhi estar sozinho antes que a morte separasse
O que tempos melhores uniu. Sei agora que nada mereci e tudo tive durante anos.
Vivo a vida calma e desafogada e depressiva do mundo civilizado. Estou sempre
Contactável, sempre presente para todos quando ninguém se importa onde estou
Ou quem sou ainda entre uma inspiração e expiração - sou outro. A construção 
Do homem é assim: passos lentos e uma morte diária. A infância lavada do rosto,
Os olhos que se enchem de nada, de coisas incumpridas e da ira da impotência.
Portanto esquece-te e trabalha: afinal de contas, és um homem desabitado.

08 setembro 2009

Nunca os meus pais me leram poesia

A mim, nunca os meus pais me leram poesia
Nem nunca tiveram tempo para me mostrar
As artes e as letras... estavam ocupados,
Trabalhavam de sol a sol para me levar
O mundo e a comida e o tecto e as paredes
Completas da casa. Lembro-me de brincar
Aos piratas com o meu pai, correndo em
Busca de tesouros sob a mesa da sala;
Transfigurando o tapete rude em mar
E o cotão em sargaço onde o navio
Da imaginação se prendia, perseguido.
Da minha mãe, lembro-me das mãos àsperas
De mil águas, mil roupas e duros esfregões
De palha d' aço com que se areavam os tachos;
Lembro-me das suas mãos e do cheiro puro dos lençois
Da minha infância; lembro-me da sensação dessas mãos
Ásperas contra todos os ditames da moda e do bem-estar
Sobre os meus pulmões inflamados em noites de insónia irrespirável;
Lembro-me dos seus cozinhados e da sua enorme tristeza, engolida,
Por se saber inteligente e assassinada na sua geração pela lição
De salazar: sempre limitada à função de esposa e mãe.


"- Minha mãe: já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar.
- Está bem, minha filha. Quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa."


Nunca me leram poesia, não, mas nos seus olhos brilhava o mundo
Real; das suas mãos saía o pão e as uvas e o conhecimento frágil
Da natureza; o auto-conhecimento dos músculos onde nasce a vida.
Nas palavras vem montado o mundo e a sua morte - a compreensão
De que será sempre impossível medir o valor real do amor, da vida,
Da cor e do calor, o sabor dos morangos eternos da juventude.
Com as palavras, começamos a compreender que flutuamos
Sobre uma inútil teia de significados imperfeitos que nada explicam:
E isto sim é um inferno sobre o qual nenhum poeta tinha ainda perdido
A doentia madrugada. Por tudo isto, e por muito mais que ainda fica por dizer,
Nunca terei filhos e, se os tiver, queimarei todos os livros, aniquilarei todas as palavras
        Para que eles possam manter a sua infância perfeita para sempre.


escrito com alguma raiva para com este texto

Beatbox Dub FX