17 setembro 2009

Micromanifesto

Criar a partir do nada da rotina

Cada momento é valioso como o mundo

O mundo é feito de momentos

Somos todos peças da engrenagem do confronto

Tentar encontrar uma ordem no coração do caos

Procurar a iluminação absoluta na confrontação

Somos todos animais infelizes com a racionalidade

Não acreditar nas vis mensagens do capital

Tudo é uma ilusão

14 setembro 2009

A procura do amor

Andamos todos à procura do amor
E quando o encontramos sabemos
Que não é aquilo porque não ouvimos
Nenhuma música, porque no guião
Não estava planeado aquele nada,
O momento simples em que se torna
Óbvio que, ao contrário dos filmes,
Esta é a realidade e que o fim é incógnito
- E o intermédio do medo é uma viagem
Atribulada para o orgulho e desconhecida
Porque ainda ninguém escreveu o futuro.

Ninguém acredita no que procura e a culpa,
Vendo bem, é de ninguém ou dos dias apenas
Que se desenrolam uns iguais aos outros
Até morrer o desejo ou a necessidade de encontrar
Um par de olhos ou de mãos diferentes, um calor
Novo e desconhecido. Vendo bem, sentindo ainda
Melhor, desdenhámo-lo e a culpa é dos filmes de ficção
Amorosa que acabam sempre bem e sem dificuldades
- Mas o pessoal sabe que estava apenas em filme.

12 setembro 2009

De onde venho

De onde venho não era suposto saber
Pensar ou falar ou defender-me com
Os punhos e com palavras. Para ser
Compreendido, deveria ser simples
E monossilábico - fácil para as mentes
Descansadas me esmiuçarem o suor.

Produto da cultura suburbana da violência
E do crime fácil, da subida a pulso
E dos dedos ágeis para a subtracção,
Não deveria - vejo nos vossos olhos -
Deslocar-me calmo e superior entre vós
E as vossas vozes frágeis e cansadas,
Iguais às dos vossos avós e fracas como eles.

Não, deveria ser fácil ver o meu ódio,
Auscultar-me as intenções no olhar lateral
Lançado em direcção ao conflito que vocês adiam;
Não deveria conseguir disfarçar, como vocês fazem bem,
O meu amor pelos fármacos, pelas drogas, pelo álcool
E pelo doce esquecimento da factual merda que sou.
         Mas consigo.

De onde venho não era suposto ter sucesso
            (e provavelmente não terei),
Mas ao menos terei tentado a vida fora dos bolsos
- e dos simpáticos conhecimentos - dos meus pais.

A distância

Muito mais longa é a distância
Entre o que se deseja e o que é
Dado a saborear agora que o caos
É certo e a loucura assegurada.

Ninguém sabe a distância entre a verdade
E a mentira, entre a fronteira que separa
E a confiança da convivência, mas todos tentam
Explicar o corpo do delito, o pedido
Que não se soube calar e a resposta
Sempre negativa... o medo.

Mil vezes foi já dito que as palavras
Não servem e que o corpo é feito
De mil separados planos. Por vezes a boca
É apenas uma rosa de carne plena
De medos e mentiras, outras é
Uma boca manchada de fumo, apenas.
A distância entre o que se vê
E o que existe é maior do que se deseja.

A resposta às perguntas será sempre negativa,
O medo tolherá sempre o desejo e o corpo
Será sempre uma mentira criada no intelecto.
Há uma distância intransponível entre eu
E todos os outros, uma distância sem pontes
Com um caminho de um sentido arruinado.

A distância entre um corpo e outro
É a nocturna estrada que se percorre cego.

11 setembro 2009

09 setembro 2009

O homem em construção

Dentro de nós cresce o ódio 
Enquanto nos oferecemos à solidão
Que alquimicamente se mistura nas noites
Tecnológicas. As televisões e os telefones 
E os computadores agora já não se desligam:
Apenas nós dormimos, máquinas de carne, 
Antigos modelos de barro que são nada
Do que eram suposto ser. Caminhamos e somos
Ocos por dentro; se nos falam ao coração 
As vozes ecoam dentro até desaparecerem 
No ar que uma vez vibrou. Quem somos agora?
Para onde fomos todos e quem nos roubou 
A luz dos olhos, o ouro das acções puras,
A sabedoria que nos trazia dias melhores?
Hoje os apelos são intermináveis: compra, compra!
Vende-te, vende-te! Esquece tudo aquilo que te torna
Humano aos teus olhos e limita-te a existir agora que sabes
Que a felicidade é impossível e que o passado existe
Apenas nas tuas memórias, que vive na tua pele agora
Que acordaste de um longo sono e estás morto, ácido 
Por dentro como as poluídas plantas que mordemos 
Para existir. Os dias não te trouxeram o conhecimento 
Que esperavas; a idade apenas te embruteceu e nada te deu
- Apenas a confusão que agora te tornou outro, terrorista do nada.
Não irei votar. Não acredito nas mentiras que todos eles nos vendem
E sei que o voto é útil para manter o status quo de quem tem 
Sobre aqueles que trabalham para comer as migalhas sob a mesa.
Ainda alguém acredita que Eles estão aqui para cuidar de nós? 
Para nos trazer o bem e o equilibrio económico? Os meus pés 
Cansados cheiram melhor do que esta democracia plutocrática
Quando estão esticados depois de mais um dia de desespero 
Em frente à televisão - e pela janela o fumo da linha do horizonte 
Em chamas que depois serão afogadas em cimento e lixo e cataratas
De merda que tombarão do topo dos vossos prédios desabitados
Para asfixiar todas as cidades e os povos na sua estupidez monetária.

Tenho as mãos cheias de cicatrizes e palavras. Estão sujas e nenhuma 
Água as poderá limpar. Escolhi estar sozinho antes que a morte separasse
O que tempos melhores uniu. Sei agora que nada mereci e tudo tive durante anos.
Vivo a vida calma e desafogada e depressiva do mundo civilizado. Estou sempre
Contactável, sempre presente para todos quando ninguém se importa onde estou
Ou quem sou ainda entre uma inspiração e expiração - sou outro. A construção 
Do homem é assim: passos lentos e uma morte diária. A infância lavada do rosto,
Os olhos que se enchem de nada, de coisas incumpridas e da ira da impotência.
Portanto esquece-te e trabalha: afinal de contas, és um homem desabitado.