Andamos todos à procura do amor
E quando o encontramos sabemos
Que não é aquilo porque não ouvimos
Nenhuma música, porque no guião
Não estava planeado aquele nada,
O momento simples em que se torna
Óbvio que, ao contrário dos filmes,
Esta é a realidade e que o fim é incógnito
- E o intermédio do medo é uma viagem
Atribulada para o orgulho e desconhecida
Porque ainda ninguém escreveu o futuro.
Ninguém acredita no que procura e a culpa,
Vendo bem, é de ninguém ou dos dias apenas
Que se desenrolam uns iguais aos outros
Até morrer o desejo ou a necessidade de encontrar
Um par de olhos ou de mãos diferentes, um calor
Novo e desconhecido. Vendo bem, sentindo ainda
Melhor, desdenhámo-lo e a culpa é dos filmes de ficção
Amorosa que acabam sempre bem e sem dificuldades
- Mas o pessoal sabe que estava apenas em filme.
14 setembro 2009
12 setembro 2009
De onde venho
De onde venho não era suposto saber
Pensar ou falar ou defender-me com
Os punhos e com palavras. Para ser
Compreendido, deveria ser simples
E monossilábico - fácil para as mentes
Descansadas me esmiuçarem o suor.
Produto da cultura suburbana da violência
E do crime fácil, da subida a pulso
E dos dedos ágeis para a subtracção,
Não deveria - vejo nos vossos olhos -
Deslocar-me calmo e superior entre vós
E as vossas vozes frágeis e cansadas,
Iguais às dos vossos avós e fracas como eles.
Não, deveria ser fácil ver o meu ódio,
Auscultar-me as intenções no olhar lateral
Lançado em direcção ao conflito que vocês adiam;
Não deveria conseguir disfarçar, como vocês fazem bem,
O meu amor pelos fármacos, pelas drogas, pelo álcool
E pelo doce esquecimento da factual merda que sou.
Mas consigo.
De onde venho não era suposto ter sucesso
(e provavelmente não terei),
Mas ao menos terei tentado a vida fora dos bolsos
- e dos simpáticos conhecimentos - dos meus pais.
Pensar ou falar ou defender-me com
Os punhos e com palavras. Para ser
Compreendido, deveria ser simples
E monossilábico - fácil para as mentes
Descansadas me esmiuçarem o suor.
Produto da cultura suburbana da violência
E do crime fácil, da subida a pulso
E dos dedos ágeis para a subtracção,
Não deveria - vejo nos vossos olhos -
Deslocar-me calmo e superior entre vós
E as vossas vozes frágeis e cansadas,
Iguais às dos vossos avós e fracas como eles.
Não, deveria ser fácil ver o meu ódio,
Auscultar-me as intenções no olhar lateral
Lançado em direcção ao conflito que vocês adiam;
Não deveria conseguir disfarçar, como vocês fazem bem,
O meu amor pelos fármacos, pelas drogas, pelo álcool
E pelo doce esquecimento da factual merda que sou.
Mas consigo.
De onde venho não era suposto ter sucesso
(e provavelmente não terei),
Mas ao menos terei tentado a vida fora dos bolsos
- e dos simpáticos conhecimentos - dos meus pais.
A distância
Muito mais longa é a distância
Entre o que se deseja e o que é
Dado a saborear agora que o caos
É certo e a loucura assegurada.
Ninguém sabe a distância entre a verdade
E a mentira, entre a fronteira que separa
E a confiança da convivência, mas todos tentam
Explicar o corpo do delito, o pedido
Que não se soube calar e a resposta
Sempre negativa... o medo.
Mil vezes foi já dito que as palavras
Não servem e que o corpo é feito
De mil separados planos. Por vezes a boca
É apenas uma rosa de carne plena
De medos e mentiras, outras é
Uma boca manchada de fumo, apenas.
A distância entre o que se vê
E o que existe é maior do que se deseja.
A resposta às perguntas será sempre negativa,
O medo tolherá sempre o desejo e o corpo
Será sempre uma mentira criada no intelecto.
Há uma distância intransponível entre eu
E todos os outros, uma distância sem pontes
Com um caminho de um sentido arruinado.
A distância entre um corpo e outro
É a nocturna estrada que se percorre cego.
Entre o que se deseja e o que é
Dado a saborear agora que o caos
É certo e a loucura assegurada.
Ninguém sabe a distância entre a verdade
E a mentira, entre a fronteira que separa
E a confiança da convivência, mas todos tentam
Explicar o corpo do delito, o pedido
Que não se soube calar e a resposta
Sempre negativa... o medo.
Mil vezes foi já dito que as palavras
Não servem e que o corpo é feito
De mil separados planos. Por vezes a boca
É apenas uma rosa de carne plena
De medos e mentiras, outras é
Uma boca manchada de fumo, apenas.
A distância entre o que se vê
E o que existe é maior do que se deseja.
A resposta às perguntas será sempre negativa,
O medo tolherá sempre o desejo e o corpo
Será sempre uma mentira criada no intelecto.
Há uma distância intransponível entre eu
E todos os outros, uma distância sem pontes
Com um caminho de um sentido arruinado.
A distância entre um corpo e outro
É a nocturna estrada que se percorre cego.
11 setembro 2009
10 setembro 2009
09 setembro 2009
O homem em construção
Dentro de nós cresce o ódio
Enquanto nos oferecemos à solidão
Que alquimicamente se mistura nas noites
Tecnológicas. As televisões e os telefones
E os computadores agora já não se desligam:
Apenas nós dormimos, máquinas de carne,
Antigos modelos de barro que são nada
Do que eram suposto ser. Caminhamos e somos
Ocos por dentro; se nos falam ao coração
As vozes ecoam dentro até desaparecerem
No ar que uma vez vibrou. Quem somos agora?
Para onde fomos todos e quem nos roubou
A luz dos olhos, o ouro das acções puras,
A sabedoria que nos trazia dias melhores?
Hoje os apelos são intermináveis: compra, compra!
Vende-te, vende-te! Esquece tudo aquilo que te torna
Humano aos teus olhos e limita-te a existir agora que sabes
Que a felicidade é impossível e que o passado existe
Apenas nas tuas memórias, que vive na tua pele agora
Que acordaste de um longo sono e estás morto, ácido
Por dentro como as poluídas plantas que mordemos
Para existir. Os dias não te trouxeram o conhecimento
Que esperavas; a idade apenas te embruteceu e nada te deu
- Apenas a confusão que agora te tornou outro, terrorista do nada.
Não irei votar. Não acredito nas mentiras que todos eles nos vendem
E sei que o voto é útil para manter o status quo de quem tem
Sobre aqueles que trabalham para comer as migalhas sob a mesa.
Ainda alguém acredita que Eles estão aqui para cuidar de nós?
Para nos trazer o bem e o equilibrio económico? Os meus pés
Cansados cheiram melhor do que esta democracia plutocrática
Quando estão esticados depois de mais um dia de desespero
Em frente à televisão - e pela janela o fumo da linha do horizonte
Em chamas que depois serão afogadas em cimento e lixo e cataratas
De merda que tombarão do topo dos vossos prédios desabitados
Para asfixiar todas as cidades e os povos na sua estupidez monetária.
Tenho as mãos cheias de cicatrizes e palavras. Estão sujas e nenhuma
Água as poderá limpar. Escolhi estar sozinho antes que a morte separasse
O que tempos melhores uniu. Sei agora que nada mereci e tudo tive durante anos.
Vivo a vida calma e desafogada e depressiva do mundo civilizado. Estou sempre
Contactável, sempre presente para todos quando ninguém se importa onde estou
Ou quem sou ainda entre uma inspiração e expiração - sou outro. A construção
Do homem é assim: passos lentos e uma morte diária. A infância lavada do rosto,
Os olhos que se enchem de nada, de coisas incumpridas e da ira da impotência.
Portanto esquece-te e trabalha: afinal de contas, és um homem desabitado.
Enquanto nos oferecemos à solidão
Que alquimicamente se mistura nas noites
Tecnológicas. As televisões e os telefones
E os computadores agora já não se desligam:
Apenas nós dormimos, máquinas de carne,
Antigos modelos de barro que são nada
Do que eram suposto ser. Caminhamos e somos
Ocos por dentro; se nos falam ao coração
As vozes ecoam dentro até desaparecerem
No ar que uma vez vibrou. Quem somos agora?
Para onde fomos todos e quem nos roubou
A luz dos olhos, o ouro das acções puras,
A sabedoria que nos trazia dias melhores?
Hoje os apelos são intermináveis: compra, compra!
Vende-te, vende-te! Esquece tudo aquilo que te torna
Humano aos teus olhos e limita-te a existir agora que sabes
Que a felicidade é impossível e que o passado existe
Apenas nas tuas memórias, que vive na tua pele agora
Que acordaste de um longo sono e estás morto, ácido
Por dentro como as poluídas plantas que mordemos
Para existir. Os dias não te trouxeram o conhecimento
Que esperavas; a idade apenas te embruteceu e nada te deu
- Apenas a confusão que agora te tornou outro, terrorista do nada.
Não irei votar. Não acredito nas mentiras que todos eles nos vendem
E sei que o voto é útil para manter o status quo de quem tem
Sobre aqueles que trabalham para comer as migalhas sob a mesa.
Ainda alguém acredita que Eles estão aqui para cuidar de nós?
Para nos trazer o bem e o equilibrio económico? Os meus pés
Cansados cheiram melhor do que esta democracia plutocrática
Quando estão esticados depois de mais um dia de desespero
Em frente à televisão - e pela janela o fumo da linha do horizonte
Em chamas que depois serão afogadas em cimento e lixo e cataratas
De merda que tombarão do topo dos vossos prédios desabitados
Para asfixiar todas as cidades e os povos na sua estupidez monetária.
Tenho as mãos cheias de cicatrizes e palavras. Estão sujas e nenhuma
Água as poderá limpar. Escolhi estar sozinho antes que a morte separasse
O que tempos melhores uniu. Sei agora que nada mereci e tudo tive durante anos.
Vivo a vida calma e desafogada e depressiva do mundo civilizado. Estou sempre
Contactável, sempre presente para todos quando ninguém se importa onde estou
Ou quem sou ainda entre uma inspiração e expiração - sou outro. A construção
Do homem é assim: passos lentos e uma morte diária. A infância lavada do rosto,
Os olhos que se enchem de nada, de coisas incumpridas e da ira da impotência.
Portanto esquece-te e trabalha: afinal de contas, és um homem desabitado.
08 setembro 2009
Nunca os meus pais me leram poesia
A mim, nunca os meus pais me leram poesia
Nem nunca tiveram tempo para me mostrar
As artes e as letras... estavam ocupados,
Trabalhavam de sol a sol para me levar
O mundo e a comida e o tecto e as paredes
Completas da casa. Lembro-me de brincar
Aos piratas com o meu pai, correndo em
Busca de tesouros sob a mesa da sala;
Transfigurando o tapete rude em mar
E o cotão em sargaço onde o navio
Da imaginação se prendia, perseguido.
Da minha mãe, lembro-me das mãos àsperas
De mil águas, mil roupas e duros esfregões
De palha d' aço com que se areavam os tachos;
Lembro-me das suas mãos e do cheiro puro dos lençois
Da minha infância; lembro-me da sensação dessas mãos
Ásperas contra todos os ditames da moda e do bem-estar
Sobre os meus pulmões inflamados em noites de insónia irrespirável;
Lembro-me dos seus cozinhados e da sua enorme tristeza, engolida,
Por se saber inteligente e assassinada na sua geração pela lição
De salazar: sempre limitada à função de esposa e mãe.
Nunca me leram poesia, não, mas nos seus olhos brilhava o mundo
Real; das suas mãos saía o pão e as uvas e o conhecimento frágil
Da natureza; o auto-conhecimento dos músculos onde nasce a vida.
Nas palavras vem montado o mundo e a sua morte - a compreensão
De que será sempre impossível medir o valor real do amor, da vida,
Da cor e do calor, o sabor dos morangos eternos da juventude.
Com as palavras, começamos a compreender que flutuamos
Sobre uma inútil teia de significados imperfeitos que nada explicam:
E isto sim é um inferno sobre o qual nenhum poeta tinha ainda perdido
A doentia madrugada. Por tudo isto, e por muito mais que ainda fica por dizer,
Nunca terei filhos e, se os tiver, queimarei todos os livros, aniquilarei todas as palavras
Para que eles possam manter a sua infância perfeita para sempre.
escrito com alguma raiva para com este texto
Nem nunca tiveram tempo para me mostrar
As artes e as letras... estavam ocupados,
Trabalhavam de sol a sol para me levar
O mundo e a comida e o tecto e as paredes
Completas da casa. Lembro-me de brincar
Aos piratas com o meu pai, correndo em
Busca de tesouros sob a mesa da sala;
Transfigurando o tapete rude em mar
E o cotão em sargaço onde o navio
Da imaginação se prendia, perseguido.
Da minha mãe, lembro-me das mãos àsperas
De mil águas, mil roupas e duros esfregões
De palha d' aço com que se areavam os tachos;
Lembro-me das suas mãos e do cheiro puro dos lençois
Da minha infância; lembro-me da sensação dessas mãos
Ásperas contra todos os ditames da moda e do bem-estar
Sobre os meus pulmões inflamados em noites de insónia irrespirável;
Lembro-me dos seus cozinhados e da sua enorme tristeza, engolida,
Por se saber inteligente e assassinada na sua geração pela lição
De salazar: sempre limitada à função de esposa e mãe.
"- Minha mãe: já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar.
- Está bem, minha filha. Quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa."
Nunca me leram poesia, não, mas nos seus olhos brilhava o mundo
Real; das suas mãos saía o pão e as uvas e o conhecimento frágil
Da natureza; o auto-conhecimento dos músculos onde nasce a vida.
Nas palavras vem montado o mundo e a sua morte - a compreensão
De que será sempre impossível medir o valor real do amor, da vida,
Da cor e do calor, o sabor dos morangos eternos da juventude.
Com as palavras, começamos a compreender que flutuamos
Sobre uma inútil teia de significados imperfeitos que nada explicam:
E isto sim é um inferno sobre o qual nenhum poeta tinha ainda perdido
A doentia madrugada. Por tudo isto, e por muito mais que ainda fica por dizer,
Nunca terei filhos e, se os tiver, queimarei todos os livros, aniquilarei todas as palavras
Para que eles possam manter a sua infância perfeita para sempre.
escrito com alguma raiva para com este texto
Subscrever:
Mensagens (Atom)