04 outubro 2009
03 outubro 2009
Pés descalços
Contra todas as expectativas animais crescemos
Sobre a areia do tempo. Do nada ganhamos a forma
Da pele e a luz da mente e durante séculos retiramos
O sustento das árvores da terra e do ocasional sangue.
Se olharmos bem agora, como ossos, palavras
Despontam das ruínas e é nelas que ferimos os pés
Descalços por tão longa e vaga caminhada de história
Devorada pela mesma terra que nos alimentou.
Nesta paisagem de dentes, metálicos edifícios
Mudos e instáveis crescem frágeis como nós
Com as nossas doenças psicológicas, com o nosso soro
Mediático para a insónia e para a solidão.
O céu é da televisão e para as telecomunicações
De tempos de paz e de guerra e é um mar onde ondas
Magnéticas, radiofónicas, ultrasónicas politraumáticas
Tratam de nós e nos dão um significado para viver
Mais um dia, apenas mais um dia é tudo o que preciso.
Depois de milénios a passar fome e a contar
Os trocos vamos aproveitar agora e devorar
Até à inconsciência ruminante. Não esquecer:
Uma fila única; pedir tudo o que as cores anunciantes
Dizem ao cérebro que traduz para a gula que pede mais
Do que deseja; pagar contando os trocos; comer olhando
Em volta da zona de alimentação em fórmica vendo bem
Quem vive nas jaulas ao lado da tua; despejar o tabuleiro
Individual e desinfectado e colocar sobre os outros;
Sair gordo e com fome, pronto para ser abatido.
Agora no exterior, mas ainda dentro de uma jaula,
São estes pés que nos movem em linhas paralelas
Onde nos vemos sem ponto fixo algum na recta
Para o encontro. Estamos há muito fechados, selvagens
Domésticos que perderam a compreensão do espaço
Aberto
Longe das fronteiras impostas por outros corpos.
02 outubro 2009
Quando as noites são um empréstimo
Quando as noites são um empréstimo
a cobrar noutras noites
é isto que temos: ruas plenas de pessoas
orquestrando o seu ruído - nada; a leveza
de um ombro livre para chorar as desilusões
e um mundo a prazo onde nos deixam viver.
a cobrar noutras noites
é isto que temos: ruas plenas de pessoas
orquestrando o seu ruído - nada; a leveza
de um ombro livre para chorar as desilusões
e um mundo a prazo onde nos deixam viver.
30 setembro 2009
Ali estava ela
E ali estava ela:
Sustida pela balaustrada
Inoxidável da pastelaria.
E era assim que ela estava:
O sol cobrindo de luz o rosto
Bissectado pela sombra da paragem;
O gesso da mão esquerda rezando nervoso
Sobre o calor da direita e o seu afagar distraído;
O cabelo negro de alguma idade e oleoso, cortado;
A roupa, velha como ela gasta. Quando a aproximação
Se concretiza e os olhos falam a outros olhos, ela olha a sombra
Do horizonte turvo pelas lágrimas fáceis dos velhos.
Porque é que ela chorava?
Não sei... não lhe perguntei e segui caminho.
Sustida pela balaustrada
Inoxidável da pastelaria.
E era assim que ela estava:
O sol cobrindo de luz o rosto
Bissectado pela sombra da paragem;
O gesso da mão esquerda rezando nervoso
Sobre o calor da direita e o seu afagar distraído;
O cabelo negro de alguma idade e oleoso, cortado;
A roupa, velha como ela gasta. Quando a aproximação
Se concretiza e os olhos falam a outros olhos, ela olha a sombra
Do horizonte turvo pelas lágrimas fáceis dos velhos.
Porque é que ela chorava?
Não sei... não lhe perguntei e segui caminho.
As ferramentas da corrupção
A cerveja e o fumo;
A mesa plana
Como um mapa;
O aquoso turbilhão da folha;
As ocasionais companhias
Duvidosas
- Eis, alinhadas, as ferramentas
Da corrupção.
A mesa plana
Como um mapa;
O aquoso turbilhão da folha;
As ocasionais companhias
Duvidosas
- Eis, alinhadas, as ferramentas
Da corrupção.
29 setembro 2009
O terceiro excluído
Os triângulos são formas
Socialmente impraticáveis:
Entre a soma dos dois catetos
E o comprimento da hipotenusa
Não há nenhum teorema capaz
De estabelecer uma relação.
O quadrado desta bizarra soma
É o trapézio traçado a giz no quadro
Negro, primário, onde se jogam
As somas de dois com o comprimento
De uma fina linha traçada, improvável,
A branco. Vendo bem a raíz quadrada
De todo este problema está no resultado:
Que é sempre zero.
Socialmente impraticáveis:
Entre a soma dos dois catetos
E o comprimento da hipotenusa
Não há nenhum teorema capaz
De estabelecer uma relação.
O quadrado desta bizarra soma
É o trapézio traçado a giz no quadro
Negro, primário, onde se jogam
As somas de dois com o comprimento
De uma fina linha traçada, improvável,
A branco. Vendo bem a raíz quadrada
De todo este problema está no resultado:
Que é sempre zero.
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