13 outubro 2009

O livro

abre-me como se eu fosse feito de páginas
soltas que só a estranheza da cola industrial
aglutinou e tornou uno. abre-me com o gume
afiado do x-acto, recupera a minha individualidade;
as estranhas palavras que tenho para oferecer
e, quem sabe,
talvez baralhes quem eu sou até ser algo novo.

07 outubro 2009

Temos a agradecer à televisão

Nunca nos podemos esquecer
Do quanto temos a agradecer à televisão:
Graças a ela, e a quem a controla, julgamos
Conhecer o mundo, julgamos saber a ciência
Que nos move ordeiramente pelo espaço e tempo;
Julgamos conhecer o súbtil perfume da realidade.
Vejam só que hoje, num programa aprovado
Em concelho de administradores, soube e apreendi
Que há peixes criados em viveiros que são vacinados
Para não levarem bactérias e outras doenças às nossas
Delicadas e civilizadas bocas. Quanto às pessoas que vi
Noutro programa (e que morrem todos os dias como percevejos
Que não são economicamente viáveis para crescer em viveiros
Controlados) não sei se existem mesmo... devem estar a enganar-me.
Com certeza já foram testadas e vacinadas para não matarem
De doenças quem se alimenta da fraqueza da sua carne.

Sou apenas um entre muitos

Sou apenas um, entre muitos que te atravessaram
Sem deixar uma marca nos dias que eram passados
A olhar os cádaveres da civilização a inchar sob o sol.

Agora só resta esperar que tudo isto seja um sonho e que,
um dia, se reencontrem os passos; os ecos uniformes das vozes
Na magnética procura do rumo perdido,
Ou desencontrado, sem bússola ou mapa,
        Nós todos perdidos de facto,
Sem meios ou um significado maior para esta viagem.

Depois de tanto tempo, as tatuagens já se afundaram na pele
Como um carcinoma de fantasmas, como uma rotina tóxica
Em que se ressuscitam os fantasmas e o corpo entediado
Onde existimos - escapando com milhares de mensagens
Inúteis que nos resumem aos olhos dos outros. A história,
E a sua cicatriz, é curta e indiferente como uma dança com o demónio.

Hoje vou viver. Amanhã,
Já nada restará entre as cinzas frias do contentamento.

04 outubro 2009



a blast from the past

03 outubro 2009

Pés descalços


Contra todas as expectativas animais crescemos
Sobre a areia do tempo. Do nada ganhamos a forma
Da pele e a luz da mente e durante séculos retiramos
O sustento das árvores da terra e do ocasional sangue.
Se olharmos bem agora, como ossos, palavras
Despontam das ruínas e é nelas que ferimos os pés
Descalços por tão longa e vaga caminhada de história
Devorada pela mesma terra que nos alimentou.

Nesta paisagem de dentes, metálicos edifícios
Mudos e instáveis crescem frágeis como nós
Com as nossas doenças psicológicas, com o nosso soro
Mediático para a insónia e para a solidão.
O céu é da televisão e para as telecomunicações
De tempos de paz e de guerra e é um mar onde ondas
Magnéticas, radiofónicas, ultrasónicas politraumáticas
Tratam de nós e nos dão um significado para viver
Mais um dia, apenas mais um dia é tudo o que preciso.

Depois de milénios a passar fome e a contar
Os trocos vamos aproveitar agora e devorar
Até à inconsciência ruminante. Não esquecer:
Uma fila única; pedir tudo o que as cores anunciantes
Dizem ao cérebro que traduz para a gula que pede mais
Do que deseja; pagar contando os trocos; comer olhando
Em volta da zona de alimentação em fórmica vendo bem
Quem vive nas jaulas ao lado da tua; despejar o tabuleiro
Individual e desinfectado e colocar sobre os outros;
Sair gordo e com fome, pronto para ser abatido.

Agora no exterior, mas ainda dentro de uma jaula,
São estes pés que nos movem em linhas paralelas
Onde nos vemos sem ponto fixo algum na recta
Para o encontro. Estamos há muito fechados, selvagens
Domésticos que perderam a compreensão do espaço
         Aberto
Longe das fronteiras impostas por outros corpos.