13 outubro 2009

Horas vazias

Senta-se vazio atrás de uma chávena
Vazia sobre uma mesa que, não fosse
A chávena e o homem, estaria vazia. Lê
O horizonte predial com os olhos agitados
E indecifráveis, atento às vibrações do ar.

Portanto, o homem vazio atrás da chavena
Vazia olha o vazio e sente-o. Até aqui nada
Se passa excepto as horas marcadas pelas
Cervejas e o correr simples da caneta e
O alheamento de quem não pertence ao mundo.

Um vulto magro chega, altivo sob o mercúrio
Das luzes da nossa noite e ilumina outros olhos.
Afinal, o homem vazio sentado atrás da chávena
Vazia esperava a sua incerta substância.

Casal a uma mesa de restaurante romântica e devidamente iluminada por velas

O bolso produz a carteira com um passe de mão.
Certeira, encontra uma nota... depois outra.
Setenta euros pagam a conta e ainda trazem
troco. Depois, permanecem silenciosos à mesa,
Bebendo o vinho demasiado caro
E vendo as velas a derreter.

O livro

abre-me como se eu fosse feito de páginas
soltas que só a estranheza da cola industrial
aglutinou e tornou uno. abre-me com o gume
afiado do x-acto, recupera a minha individualidade;
as estranhas palavras que tenho para oferecer
e, quem sabe,
talvez baralhes quem eu sou até ser algo novo.

07 outubro 2009

Temos a agradecer à televisão

Nunca nos podemos esquecer
Do quanto temos a agradecer à televisão:
Graças a ela, e a quem a controla, julgamos
Conhecer o mundo, julgamos saber a ciência
Que nos move ordeiramente pelo espaço e tempo;
Julgamos conhecer o súbtil perfume da realidade.
Vejam só que hoje, num programa aprovado
Em concelho de administradores, soube e apreendi
Que há peixes criados em viveiros que são vacinados
Para não levarem bactérias e outras doenças às nossas
Delicadas e civilizadas bocas. Quanto às pessoas que vi
Noutro programa (e que morrem todos os dias como percevejos
Que não são economicamente viáveis para crescer em viveiros
Controlados) não sei se existem mesmo... devem estar a enganar-me.
Com certeza já foram testadas e vacinadas para não matarem
De doenças quem se alimenta da fraqueza da sua carne.

Sou apenas um entre muitos

Sou apenas um, entre muitos que te atravessaram
Sem deixar uma marca nos dias que eram passados
A olhar os cádaveres da civilização a inchar sob o sol.

Agora só resta esperar que tudo isto seja um sonho e que,
um dia, se reencontrem os passos; os ecos uniformes das vozes
Na magnética procura do rumo perdido,
Ou desencontrado, sem bússola ou mapa,
        Nós todos perdidos de facto,
Sem meios ou um significado maior para esta viagem.

Depois de tanto tempo, as tatuagens já se afundaram na pele
Como um carcinoma de fantasmas, como uma rotina tóxica
Em que se ressuscitam os fantasmas e o corpo entediado
Onde existimos - escapando com milhares de mensagens
Inúteis que nos resumem aos olhos dos outros. A história,
E a sua cicatriz, é curta e indiferente como uma dança com o demónio.

Hoje vou viver. Amanhã,
Já nada restará entre as cinzas frias do contentamento.