Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí, a mexer nesse pó
De gesso e a abrir buracos nos tectos das casas para chegar ao céu
E o entubar até às paredes respiratórias. No desencontro
Desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro e voltar
A pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole. Sabes
Que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso, nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.
Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.
21 outubro 2009
20 outubro 2009
Pergunta-te
Pergunta-te:
porque continuam as autoestradas
cobertas de sangue? porque somos
dez milhões seiscentos e dezassete mil quinhentas e setenta e cinco
pessoas diferentes e só pediram seis milhões de vacinas contra a gripe A
e destas só chegaram três milhões? e o que são
as vacinas? quem nos ensinou a temer tão rapidamente?
quem será escolhido, fora da retórica da assessoria pública,
para beneficiar com tudo isto? quem morrerá, assim, a frio
e em redondas palavras que passam inexpressivas ao lado da dor?
quem paga o meu medo? o nosso medo? (o medo de todos para todos
- o supremo bem democrático; o valor televisivo.)
quem paga as mãos vazias e o medo dos meus pais? quem nos comprou?
a quem pertenço? que desinfectante devo usar para limpar a minha pele do medo?
que me inocularam? estarei mesmo em perigo? precisarei mesmo de recear
a minha sombra? serão todos os estrangeiros terroristas? e se forem,
será que o primeiro-ministro inglês é? e o barack obama? e o berlusconi?
o que fazer a tanta frustração, aos cadáveres de mim que apodrecem como sonhos
enterrados em pântanos? solitários fósseis numa noite petrolífera, seremos apenas um bem
económico, um material bidireccionado reduzido ao longo de uma vida a comprador
e matéria-prima? que animais me alimentam? o que devo comer e o que devo pensar
agora que ninguém me diz nada? quem sou? o que sou agora? o que serei amanhã?
de onde vim? (de onde vim eu sei, e sei o que me trouxe - doi-me é não saber
para onde me querem levar, em que espécie de monstro me querem tornar,
frágil reflexo do teu rosto, e do teu, e do teu também quando olhas estas linhas
feitas memória feita de perguntas impronunciadas e de desilusões. o círculo
da nossa prisão vai a meio: será que quando o anel se fechar em volta do teu tornozelo
ainda te conseguirás reconhecer? terás medo de sair e do teu reflexo no rosto de outro?)
por isso pergunta-te:
terás mesmo motivos para confiar no que ouves, em tudo o que te fazem dizer e ver?
e lembra-te das respostas.
porque continuam as autoestradas
cobertas de sangue? porque somos
dez milhões seiscentos e dezassete mil quinhentas e setenta e cinco
pessoas diferentes e só pediram seis milhões de vacinas contra a gripe A
e destas só chegaram três milhões? e o que são
as vacinas? quem nos ensinou a temer tão rapidamente?
quem será escolhido, fora da retórica da assessoria pública,
para beneficiar com tudo isto? quem morrerá, assim, a frio
e em redondas palavras que passam inexpressivas ao lado da dor?
quem paga o meu medo? o nosso medo? (o medo de todos para todos
- o supremo bem democrático; o valor televisivo.)
quem paga as mãos vazias e o medo dos meus pais? quem nos comprou?
a quem pertenço? que desinfectante devo usar para limpar a minha pele do medo?
que me inocularam? estarei mesmo em perigo? precisarei mesmo de recear
a minha sombra? serão todos os estrangeiros terroristas? e se forem,
será que o primeiro-ministro inglês é? e o barack obama? e o berlusconi?
o que fazer a tanta frustração, aos cadáveres de mim que apodrecem como sonhos
enterrados em pântanos? solitários fósseis numa noite petrolífera, seremos apenas um bem
económico, um material bidireccionado reduzido ao longo de uma vida a comprador
e matéria-prima? que animais me alimentam? o que devo comer e o que devo pensar
agora que ninguém me diz nada? quem sou? o que sou agora? o que serei amanhã?
de onde vim? (de onde vim eu sei, e sei o que me trouxe - doi-me é não saber
para onde me querem levar, em que espécie de monstro me querem tornar,
frágil reflexo do teu rosto, e do teu, e do teu também quando olhas estas linhas
feitas memória feita de perguntas impronunciadas e de desilusões. o círculo
da nossa prisão vai a meio: será que quando o anel se fechar em volta do teu tornozelo
ainda te conseguirás reconhecer? terás medo de sair e do teu reflexo no rosto de outro?)
por isso pergunta-te:
terás mesmo motivos para confiar no que ouves, em tudo o que te fazem dizer e ver?
e lembra-te das respostas.
17 outubro 2009
Sei que outros serão teus
Então, já aqui chegamos: tu forçando a cena
Do ódio e eu tentanto manter a memória
Dos dias viva. No princípio eram os nomes
Com que se definia a descoberta, os corpos
Escondidos em casas estranhas e vazias;
Depois foi a sua confusão e chegaram os verbos:
Era preciso fazer, agir, pensar, ganhar e sobreviver
E depois de tudo ficamos quietos e emudecidos
Como coisas sem nome nem acção; o tempo
E a solidão relativizando tudo: as palavras e a força.
Tão pouco tempo passado e já mão nocturnas
Começam a explorar o pesadelo destas noites
Quando parece que nos começamos a afastar
Há muito, mesmo quando os dias pareciam brilhar
E nós estavamos como crianças acomodadas
No vigor perene da juventude.
Sei que outros serão teus
E te abraçarão pela cintura fina para te prenderem
À cama em noites mais memoráveis onde braços
Vão sentir o peso do teu corpo, o brilho solar
Da tua pele e, vendo bem, talvez eles sejam melhores
E tenham melhores horários para te amar.
A mim restam-me as ruas, a jangada de pedra
Onde me agarro às coisas materiais e vivas e tento
Resistir ao tédio, à vida normal e cíclica. Preciso de afogar
A dor do corpo morto que arrasto, febril e suado, pela noite
- Pelas mil noites em que me perco e volto a encontrar.
Outros marcarão o teu corpo, deixarão nele o seu cheiro,
O sulco poluído do seu sexo e as marcas das suas mãos
E ele perderá as minhas formas e eu perderei as tuas
E seremos ambos outros, desmemoriados sem amor
Esperando um dia melhor para conseguir voltar a encontrá-lo.
Do ódio e eu tentanto manter a memória
Dos dias viva. No princípio eram os nomes
Com que se definia a descoberta, os corpos
Escondidos em casas estranhas e vazias;
Depois foi a sua confusão e chegaram os verbos:
Era preciso fazer, agir, pensar, ganhar e sobreviver
E depois de tudo ficamos quietos e emudecidos
Como coisas sem nome nem acção; o tempo
E a solidão relativizando tudo: as palavras e a força.
Tão pouco tempo passado e já mão nocturnas
Começam a explorar o pesadelo destas noites
Quando parece que nos começamos a afastar
Há muito, mesmo quando os dias pareciam brilhar
E nós estavamos como crianças acomodadas
No vigor perene da juventude.
Sei que outros serão teus
E te abraçarão pela cintura fina para te prenderem
À cama em noites mais memoráveis onde braços
Vão sentir o peso do teu corpo, o brilho solar
Da tua pele e, vendo bem, talvez eles sejam melhores
E tenham melhores horários para te amar.
A mim restam-me as ruas, a jangada de pedra
Onde me agarro às coisas materiais e vivas e tento
Resistir ao tédio, à vida normal e cíclica. Preciso de afogar
A dor do corpo morto que arrasto, febril e suado, pela noite
- Pelas mil noites em que me perco e volto a encontrar.
Outros marcarão o teu corpo, deixarão nele o seu cheiro,
O sulco poluído do seu sexo e as marcas das suas mãos
E ele perderá as minhas formas e eu perderei as tuas
E seremos ambos outros, desmemoriados sem amor
Esperando um dia melhor para conseguir voltar a encontrá-lo.
13 outubro 2009
Horas vazias
Senta-se vazio atrás de uma chávena
Vazia sobre uma mesa que, não fosse
A chávena e o homem, estaria vazia. Lê
O horizonte predial com os olhos agitados
E indecifráveis, atento às vibrações do ar.
Portanto, o homem vazio atrás da chavena
Vazia olha o vazio e sente-o. Até aqui nada
Se passa excepto as horas marcadas pelas
Cervejas e o correr simples da caneta e
O alheamento de quem não pertence ao mundo.
Um vulto magro chega, altivo sob o mercúrio
Das luzes da nossa noite e ilumina outros olhos.
Afinal, o homem vazio sentado atrás da chávena
Vazia esperava a sua incerta substância.
Vazia sobre uma mesa que, não fosse
A chávena e o homem, estaria vazia. Lê
O horizonte predial com os olhos agitados
E indecifráveis, atento às vibrações do ar.
Portanto, o homem vazio atrás da chavena
Vazia olha o vazio e sente-o. Até aqui nada
Se passa excepto as horas marcadas pelas
Cervejas e o correr simples da caneta e
O alheamento de quem não pertence ao mundo.
Um vulto magro chega, altivo sob o mercúrio
Das luzes da nossa noite e ilumina outros olhos.
Afinal, o homem vazio sentado atrás da chávena
Vazia esperava a sua incerta substância.
Casal a uma mesa de restaurante romântica e devidamente iluminada por velas
O bolso produz a carteira com um passe de mão.
Certeira, encontra uma nota... depois outra.
Setenta euros pagam a conta e ainda trazem
troco. Depois, permanecem silenciosos à mesa,
Bebendo o vinho demasiado caro
E vendo as velas a derreter.
Certeira, encontra uma nota... depois outra.
Setenta euros pagam a conta e ainda trazem
troco. Depois, permanecem silenciosos à mesa,
Bebendo o vinho demasiado caro
E vendo as velas a derreter.
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