23 outubro 2009

O MacCain, a Mãe caída e uma diária de 75 euros

Se me permitem, vou fugir um pouco do âmbito já de si lato deste blog e vou transcrever verbatim um artigo que vinha no site TVI24. Foi consultado dia 23 de Outubro de 2009 às 3:46 da manhã. Falantes de inglês preparem-se. This is going to be tough!

"Roberta McCain suffer accident in Lisbon
Mother of senator John McCain is in an hospital in Portugal



Mother of the Republican nominee for the presidency of USA is hospitalized in the Hospital S. José in Lisbon, Portugal

Roberta Wright McCain, mother of the Republican nominee for president in the 2008 United States election, was hospitalized at the Hospital São José in Lisbon this Tuesday afternoon, acknowledge tvi24.pt.

Roberta Wright McCain, 97, was taken by INEM, an emergency national service, to this hospital at 7:26 pm, local time in Lisbon, due to a fall in one of the streets in the downtown. She was found lined on the ground but her condition is not serious, according to hospital sources.

Tvi24.pt knows that Roberta McCain is hurt in her head and face, and for moments suffered amnesia. After an electrocardiogram and a x-ray she stayed for the night in the hospital.

Tvi24.pt also knows that Roberta McCain is hosted at Hotel Borges which is located in Lisbon downtown where she check-in around 16:00 pm (local time in Lisbon). According to sources of Hotel Borges the reservation for one night was made online and Roberta McCain, 97, arrived alone.

Senator McCain was informed by tvi24.pt about this accident. The mother of Arizona senator is very well known in USA for her vitality and for her love for travelling."

O artigo pode ser consultado aqui 

De notar que desta notícia está ausente um pormenor que vem na notícia em português: o Hotel Borges tem apenas duas estrelas e uma diária de 75 euros... e que a senhora estava hospedada no quarto 202... Nenhum destes pormenores teria muita importância se não soubessemos que John MacCain, segundo este artigo, declarou "little more wealth than when he started in politics. With his book royalties and radio-appearance fees donated to charity, McCain's Senate salary of $169,300 and Navy pension of about $56,000 are his only significant sources of income. He has accounts at two banks with his wife worth up to $15,000 each, according to his most recent financial disclosure report". Pode não ser muito, mas já podia pagar um hotelzito melhor à mãe.

21 outubro 2009

Bon voyage!

Finalmente iguais sob a mesma desgraça

Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí, a mexer nesse pó
De gesso e a abrir buracos nos tectos das casas para chegar ao céu
E o entubar até às paredes respiratórias. No desencontro
Desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro e voltar
A pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole. Sabes
Que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso, nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.
Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.

20 outubro 2009

Pergunta-te

Pergunta-te:
porque continuam as autoestradas
cobertas de sangue? porque somos
dez milhões seiscentos e dezassete mil quinhentas e setenta e cinco
pessoas diferentes e só pediram seis milhões de vacinas contra a gripe A
e destas só chegaram três milhões? e o que são
as vacinas? quem nos ensinou a temer tão rapidamente?
quem será escolhido, fora da retórica da assessoria pública, 
para beneficiar com tudo isto? quem morrerá, assim, a frio
e em redondas palavras que passam inexpressivas ao lado da dor?
quem paga o meu medo? o nosso medo? (o medo de todos para todos
- o supremo bem democrático; o valor televisivo.)
quem paga as mãos vazias e o medo dos meus pais? quem nos comprou? 
a quem pertenço? que desinfectante devo usar para limpar a minha pele do medo? 
que me inocularam? estarei mesmo em perigo? precisarei mesmo de recear 
a minha sombra? serão todos os estrangeiros terroristas? e se forem, 
será que o primeiro-ministro inglês é? e o barack obama? e o berlusconi? 
o que fazer a tanta frustração, aos cadáveres de mim que apodrecem como sonhos
enterrados em pântanos? solitários fósseis numa noite petrolífera, seremos apenas um bem 
económico, um material bidireccionado reduzido ao longo de uma vida a comprador 
e matéria-prima? que animais me alimentam? o que devo comer e o que devo pensar 
agora que ninguém me diz nada? quem sou? o que sou agora? o que serei amanhã? 
de onde vim? (de onde vim eu sei, e sei o que me trouxe - doi-me é não saber 
para onde me querem levar, em que espécie de monstro me querem tornar, 
frágil reflexo do teu rosto, e do teu, e do teu também quando olhas estas linhas 
feitas memória feita de perguntas impronunciadas e de desilusões. o círculo 
da nossa prisão vai a meio: será que quando o anel se fechar em volta do teu tornozelo
ainda te conseguirás reconhecer? terás medo de sair e do teu reflexo no rosto de outro?)
por isso pergunta-te:

terás mesmo motivos para confiar no que ouves, em tudo o que te fazem dizer e ver?

 e lembra-te das respostas.

17 outubro 2009

Sei que outros serão teus

Então, já aqui chegamos: tu forçando a cena
Do ódio e eu tentanto manter a memória
Dos dias viva. No princípio eram os nomes
Com que se definia a descoberta, os corpos
Escondidos em casas estranhas e vazias;
Depois foi a sua confusão e chegaram os verbos:
Era preciso fazer, agir, pensar, ganhar e sobreviver
E depois de tudo ficamos quietos e emudecidos
Como coisas sem nome nem acção; o tempo
E a solidão relativizando tudo: as palavras e a força.
Tão pouco tempo passado e já mão nocturnas
Começam a explorar o pesadelo destas noites
Quando parece que nos começamos a afastar
Há muito, mesmo quando os dias pareciam brilhar
E nós estavamos como crianças acomodadas
No vigor perene da juventude. 

Sei que outros serão teus
E te abraçarão pela cintura fina para te prenderem
À cama em noites mais memoráveis onde braços
Vão sentir o peso do teu corpo, o brilho solar
Da tua pele e, vendo bem, talvez eles sejam melhores
E tenham melhores horários para te amar.
A mim restam-me as ruas, a jangada de pedra
Onde me agarro às coisas materiais e vivas e tento
Resistir ao tédio, à vida normal e cíclica. Preciso de afogar
A dor do corpo morto que arrasto, febril e suado, pela noite
- Pelas mil noites em que me perco e volto a encontrar.
Outros marcarão o teu corpo, deixarão nele o seu cheiro,
O sulco poluído do seu sexo e as marcas das suas mãos
E ele perderá as minhas formas e eu perderei as tuas
E seremos ambos outros, desmemoriados sem amor
Esperando um dia melhor para conseguir voltar a encontrá-lo.