09 novembro 2009

Chega a idade

I

Chega a idade e o sangue solta os cavalos
Em direcção ao fim da pele, sem preocupações
Metafísicas ou filosóficas chega a hora de perder
A inocência, chega a hora de conhecer tudo
E tirar a lama que cobria os olhos da infância.
O amor, nestes casos, é a última das preocupações
- é preciso um corpo para tirar o peso do corpo novo
E só sobre o branco dos lençóis; um corpo que depois
Consiga tentar preencher os dias... Se não o preencher,
O corpo ou os dias, também não há problema:
Há uma vida à espera e milhares  de outras possibilidades
De experimentação – há muito que o corpo já não pertence
        Apenas a uma só pessoa.

II

Há um dia, então, em que nos descobrimos olhando
Sem que o espelho responda o nosso rosto, os caminhos
Familiares dos nossos traços, da história da face, e
Perguntamo-nos para onde fomos - quem é aquele
Que nos olha do outro lado da compreensão? Nesse dia,
Então, reconhecemos a estória da nossa descoberta,
Enfrentamos os nossos olhos factuais e sabemos
Que precisamos de outros que nos contem as verdades
De outros mundos e melhores horas. Outro dia então,
Depois de já termos completado as muitas horas que nos
Toma o trabalho, esse milagre assassino, damos por nós
Sentados num sofá a uma sexta à noite, esperando e
Temendo que a espera não chegue para completar
O teu regresso, que talvez o amor, só, não chegue
Para enfrentar o mundo e os incertos planos esboçados
Sobre o sonho. Neste dia, então, o medo devora o cadáver
Em que o corpo se tornou, e então compreendes
Que nenhum corpo mais conseguirá preencher o vazio.

III

Quando os dias terminarem nos teus olhos cegos aí sim,
Será tarde demais para voltar atrás e recuperar o tempo
Perdido. Passaram anos e os rastos desapareceram;
As pistas dos cheiros foram levadas pela chuva ou
Por um comercial de uma empresa de comunicações,
Vendendo proximidade e melhores serviços a preços módicos
E sacrificando todas as memórias esquecidas dependentes
De uma sequência aleatória de números. Ficaste tu, só, tu
Apenas e mais ninguém cravejando os dias com preocupações
E das mãos retirando todo o sustento e paciência para levar
O sol de um ponto ao outro do firmamento. Até que um dia
Acordas e perdeste o corpo e a vista e passam dias sem que vejas
Ninguém e não sentes a passagem das horas no ar parado
Do quarto cinzento onde perdeste a memória de melhores dias,
Esses de quando ainda trazias um sorriso na algibeira, a magia
De uma moeda que trocavas por um beijo nos dias dos dias
Quentes. Mais tarde, para matar a solidão, muitas vezes, percorrias
As ruas com um maço de notas na algibeira, pronto a entrega-lo
À entrada das pernas de uma puta que te agradasse; outras vezes
Ias para os jardins jogar à sueca, esquecer nas cartas o jogo
Que o teu corpo já não consegue jogar. O corpo esqueceu o corpo
E o sexo agora é um apêndice flácido, inútil como tu
Que perdeste a mulher e a utilidade e agora vives pedindo
Ao mundo um espaço emprestado. Mais vezes do que confessas
Quando te apanham distraído acariciando as cartas nos dedos,
Retardando a jogada que tanto pode ser a mão tirânica que cai
Estrondosamente sobre a mesa ou a displicente que atira a carta
De longe, imaginas como poderia ter sido se uma mulher te tivesse
Escolhido, como teria sido se alguém te resistisse aos dedos
Destruidores, às palavras confusas e às dores humanas. Agora
Que vais ou te preparas e és o último com o teu nome recordas
A juventude desprevenida e inocente, incapaz de falar claramente
O nome que descobriste depois em dias mais longos, na luta
Pelo sustento que te roubou a vida. Recordas sim, mas este recordar
Não é viver: é ressuscitar da tua morte quando os olhos se fecham,
Uma última vez, e sabes que vais sozinho e anónimo, sem lágrimas.

A verdade é esta

Desde que me fiz homem e comecei a compreender
A engrenagem que sou numa vasta máquina
Incompreensível que me alimentam o estômago
E os bolsos vazios de promessas ou pão duro.
Há negócios a ganhar e não há espaço para contemplar
A amizade cega para o trabalho gratuito, para o tempo
Perdido nas vagas promessas e pedidos concretos,
Para os problemas digestivos por amor à arte
- se amor for aquela cegueira ou loucura que nos confunde
A economia. Eu sei que isto não interessa nem pouco
Nem nada e as horas preenchidas na teimosia de fazer
As coisas correctas valem como boas intenções sem sentido
Prático. A garganta arranhada com todo pão e promessas
Dados já não consegue nem falar para explicar a situação
Do corpo e das regras que o contém: não há como escapar
Da organização social e resta-nos ficar cada vez mais semelhantes
À idade do corpo, do número que nos deram para nome.
Nesta era do vazio somos a letra miúda do contrato lavrado
Para maior conveniência de quem oferece o serviço e,
Depois de tudo terminado, abrimos a camisa
No final de mais um dia de trabalho num gesto de débil revolta,
Causa e expressão da nossa juventude perdida. Envelhecer é isto:
Perder a fé nas crenças ou acabar ainda mais agarrados
A elas e ao peso das decisões impossíveis sem a voz egoísta
        - a verdade é esta.

23 outubro 2009

O MacCain, a Mãe caída e uma diária de 75 euros

Se me permitem, vou fugir um pouco do âmbito já de si lato deste blog e vou transcrever verbatim um artigo que vinha no site TVI24. Foi consultado dia 23 de Outubro de 2009 às 3:46 da manhã. Falantes de inglês preparem-se. This is going to be tough!

"Roberta McCain suffer accident in Lisbon
Mother of senator John McCain is in an hospital in Portugal



Mother of the Republican nominee for the presidency of USA is hospitalized in the Hospital S. José in Lisbon, Portugal

Roberta Wright McCain, mother of the Republican nominee for president in the 2008 United States election, was hospitalized at the Hospital São José in Lisbon this Tuesday afternoon, acknowledge tvi24.pt.

Roberta Wright McCain, 97, was taken by INEM, an emergency national service, to this hospital at 7:26 pm, local time in Lisbon, due to a fall in one of the streets in the downtown. She was found lined on the ground but her condition is not serious, according to hospital sources.

Tvi24.pt knows that Roberta McCain is hurt in her head and face, and for moments suffered amnesia. After an electrocardiogram and a x-ray she stayed for the night in the hospital.

Tvi24.pt also knows that Roberta McCain is hosted at Hotel Borges which is located in Lisbon downtown where she check-in around 16:00 pm (local time in Lisbon). According to sources of Hotel Borges the reservation for one night was made online and Roberta McCain, 97, arrived alone.

Senator McCain was informed by tvi24.pt about this accident. The mother of Arizona senator is very well known in USA for her vitality and for her love for travelling."

O artigo pode ser consultado aqui 

De notar que desta notícia está ausente um pormenor que vem na notícia em português: o Hotel Borges tem apenas duas estrelas e uma diária de 75 euros... e que a senhora estava hospedada no quarto 202... Nenhum destes pormenores teria muita importância se não soubessemos que John MacCain, segundo este artigo, declarou "little more wealth than when he started in politics. With his book royalties and radio-appearance fees donated to charity, McCain's Senate salary of $169,300 and Navy pension of about $56,000 are his only significant sources of income. He has accounts at two banks with his wife worth up to $15,000 each, according to his most recent financial disclosure report". Pode não ser muito, mas já podia pagar um hotelzito melhor à mãe.