30 novembro 2009

Anónimos

Antes de mais, quero que saibas:
todos somos anónimos e nenhum
de nós se consegue esconder da face
que se torna estranha dia após dia
e que os reflexos devolvem inclementes.
Lamento que o desgosto te tenha encontrado
aí, onde te foste esconder com a mágoa
de emprestar civilização a quem dela precisa;
sempre é melhor que estar aqui a ser civilizado,
dia após dia vivendo a mesma mentira, a rotina
das horas marcadas. Tu sabes que escolhas temos:
partir ou ficar, e normalmente escolhemos partir
- tememos as raízes, as âncoras de carne na noite,
os seus dedos nos dias que nos pertencem plenos.
Partimos para encher os olhos de mundo,
as mãos e a boca com a terra dos caminhos estranhos
e não cruzados. É por isso que choramos, quando há
demasiado pó nos olhos e não vemos; quando a terra
que fica no lugar da saliva do outro não nos deixa respirar;
chorar limpa-nos a mente e serve para não ser sangue
o líquido vertido para lavar as feridas das mãos e dos olhos.
Enquanto engordo este poema não sei que ar respiras,
que noite conheces aí nesse país do dia de antes,
mas sei que chorar é bom, mas não vale a pena.
Não lamentes nada: vive porque o caminho chama
e sozinhos conseguiremos encontrar-nos sendo cada vez mais
nós mesmos, sem remorsos ou segundas intenções.

29 novembro 2009

Exercício 1 - ser inanimado

      Está escuro aqui e não sei bem onde me encontro. Já nem sei há quanto tempo ando a trocar de mãos, de saco em saco até a uma algibeira qualquer. Ontem, não sei a que horas porque o tempo não foi uma invenção minha, vi a luz por umas horas, vozes, a textura de umas mãos familiares que me passavam a outras desconhecidas e depois o aconchego do tecido quente que amparou a minha queda.
      Agora, continuo aqui nesta prisão escura, não sei por que motivo; não sei porquê, mas estou aqui alheio e sem serviço. Outros pedaços de mim serviram para organizar o mundo: chão, paredes, tectos (este papel onde me dão substância e a que empresto a voz que não tenho), mas eu fiquei aqui parado nesta algibeira para nada.    
      Para ser esquecido afinal, pelo menos até uma qualquer mão me tirar daqui e, se tudo correr bem, me devolver a um mundo que conheço.

27 novembro 2009

A corrente

Já não há ninguém para rever do outro lado
da música; há o silêncio e os dias cinzentos
do outono, os rastos frios do amor e a água
         que os levou na corrente.

25 novembro 2009

Porque nos faltou tempo

Que faremos mais para suportar o vazio? Onde encontrar
As muletas para a depressão que nos traz mancos?
Música, trabalho, drogas, mais trabalho e umas palavras
Escritas sem nenhum significado palpável. Ninguém nos ensinou
A sentir; ninguém nos disse como usar as mãos para o amor: as ruas
Apanharam-nos primeiro e ensinaram-nos que vacilões caem
E que os dedos foram feitos para a trapaça. Tudo isto desaparecerá? 
- para que tudo volte a ser pleno como a infância e a sua cegueira.
É uma pena, mas o amor está podre e é preciso construir sobre ele, 
Sempre, um novo começo, um novo dia – porto de partida para longe
Dos fantasmas de todos os homens e do primeiro homem
Que fui, eu, já desaparecido e morto. Há uma pergunta que se impõe,
Que se tem de gritar: Porque é que ninguém me salvou?
Para onde foram todos, e tu especialmente... Olhando para trás,
Agora, parece que nunca atravessaste o meu corpo e nada me resta
Senão as mãos vazias. Quero escrever e não consigo; quero
Fotografar e não sei o que escolher, para onde olhar, como
Transfigurar o mundo visível. Nenhum livro ou música ou pessoa
Nos diz nada já... eles também não sabem como aguentar isto
E há muito tempo que já não vejo televisão para saber como me salvar
- Além do mais não teria como, sem dinheiro que não cresce
Nas árvores; não sem mãos para a jardinagem económica.
A lição a tirar destes tempos é esta: aprende a esquecer; esquece tudo
Isto, todas as palavras incompletas: eu não existo, nem alguma vez cheguei
A ser apenas uma excepção. Mas sim, sem dúvidas, esquece tudo
Isto; esquece-me porque estou morto e foi o mundo que me comeu;
Foram as horas certas que me mataram; foi o corpo, o meu corpo repetido
Até ao excesso de peso que nos fez esquecer quem fomos, o que eramos
Até que apenas restou uma frágil pele a unir este esqueleto.
Agora, resta-nos esta fome que nos come por dentro, este calor
Que nos devora as memórias e os gritos e as palavras ditas
- Tudo aquilo que poderíamos ter sido e nunca fomos
Porque nos faltou tempo.