06 dezembro 2009

Desenha um círculo de giz à tua volta

Desenha um círculo de giz à tua volta como se fosses
Uma fortaleza;  fecha-te em ti, dentro de ti visceral,
Homem-verme que aprofunda as razões de ser assim
Na incerteza do que é. Atenção às muralhas de papel,
Causticas, que derretem qualquer corpo vivo
Que se aproxime com passos de guerra ou paz;
Atenção aos espaços em branco por onde possam passar
E ver o teu corpo cinzento e multiforme, as cascas
Da tua dor feita corpo, da tua morte feita existência
Diária, do teu corpo conservado no frio cerebral
Que te mantém a respirar e a ansiar por outro dia.
Mira fundo de dentro da tua cova contando pelos dedos
Os direitos e os deveres do amor, da amizade, dos dias
Mal passados e pensa que um dia, quando menos esperares,
Podes dar por ti afogado na tua própria lama a desejar
Tudo aquilo que um dia quiseste e não soubeste manter,
Tudo aquilo que um dia tiveste e perdeste por uma névoa
Que te turvasse o entendimento do mundo e das coisas.

30 novembro 2009

Anónimos

Antes de mais, quero que saibas:
todos somos anónimos e nenhum
de nós se consegue esconder da face
que se torna estranha dia após dia
e que os reflexos devolvem inclementes.
Lamento que o desgosto te tenha encontrado
aí, onde te foste esconder com a mágoa
de emprestar civilização a quem dela precisa;
sempre é melhor que estar aqui a ser civilizado,
dia após dia vivendo a mesma mentira, a rotina
das horas marcadas. Tu sabes que escolhas temos:
partir ou ficar, e normalmente escolhemos partir
- tememos as raízes, as âncoras de carne na noite,
os seus dedos nos dias que nos pertencem plenos.
Partimos para encher os olhos de mundo,
as mãos e a boca com a terra dos caminhos estranhos
e não cruzados. É por isso que choramos, quando há
demasiado pó nos olhos e não vemos; quando a terra
que fica no lugar da saliva do outro não nos deixa respirar;
chorar limpa-nos a mente e serve para não ser sangue
o líquido vertido para lavar as feridas das mãos e dos olhos.
Enquanto engordo este poema não sei que ar respiras,
que noite conheces aí nesse país do dia de antes,
mas sei que chorar é bom, mas não vale a pena.
Não lamentes nada: vive porque o caminho chama
e sozinhos conseguiremos encontrar-nos sendo cada vez mais
nós mesmos, sem remorsos ou segundas intenções.

29 novembro 2009

Exercício 1 - ser inanimado

      Está escuro aqui e não sei bem onde me encontro. Já nem sei há quanto tempo ando a trocar de mãos, de saco em saco até a uma algibeira qualquer. Ontem, não sei a que horas porque o tempo não foi uma invenção minha, vi a luz por umas horas, vozes, a textura de umas mãos familiares que me passavam a outras desconhecidas e depois o aconchego do tecido quente que amparou a minha queda.
      Agora, continuo aqui nesta prisão escura, não sei por que motivo; não sei porquê, mas estou aqui alheio e sem serviço. Outros pedaços de mim serviram para organizar o mundo: chão, paredes, tectos (este papel onde me dão substância e a que empresto a voz que não tenho), mas eu fiquei aqui parado nesta algibeira para nada.    
      Para ser esquecido afinal, pelo menos até uma qualquer mão me tirar daqui e, se tudo correr bem, me devolver a um mundo que conheço.

27 novembro 2009

A corrente

Já não há ninguém para rever do outro lado
da música; há o silêncio e os dias cinzentos
do outono, os rastos frios do amor e a água
         que os levou na corrente.