08 janeiro 2010

Fotografia

Olhando para este papel, branco 
de ambos os lados, ninguém diria 
que é daqui que surgem as imagens 
e as memórias. Que desta superfície 
sensível atacada pelas águas e químicos
a emulsão regista a luz e as ondas invisíveis 
da intenção da mente por detrás do gesto, 
do registo simples e fácil, imediato 
como quem escolhe a vida ou a indiferença. 
Para trás fica uma história simples, 
bidimensional, do tamanho da nossa memória
e do que escolhemos recordar. 

31 dezembro 2009

E para começar o último dia do ano

Amanhã, não regresso.

Estranhos um ao outro permanecemos
enquanto trocávamos a pele e a saliva 
que construía o nosso frágil casulo;
ou talvez fossemos memórias de outros 
menos estranhos que nos atravessaram.
Desta básica matemática, o que nos resta
senão dias silenciosos como este, a solidão
imensa dos autoretratos que nos constroem 
perante os outros. O que te posso contar 
é que o meu coração é de outra 
- posso emprestar-te o meu corpo para 
te aqueceres. Mas, amanhã, não regresso.

28 dezembro 2009

Quando não olhas

Mesmo quando não me olhas
é nos teus olhos que eu acredito.
Por isso foge, mas não te escondas.
Já sei o que quero e como o encontrar.

27 dezembro 2009

Para provar a tua inexistência

Dá-me um chuto no coração e uma grama de coca
para abalar este nariz enjoado de todos os cheiros
nauseabundos que varrem os céus da cidade.
Empurra também, para mim, um monte de merda
capaz de enjaular todos os ortodoxos terrores
dos nervos em franja, das buzinas e das sirenes
da ausência casual, dos brumosos propósitos
da existência. Um pouco de agitação, agora,
amor que te partiste sem nunca te teres encontrado!
Vamos snifar o sémen seco dos deuses
e descobrir a potência perdida, os filhos desdenhosos
em dias cinzentos na cinzelada selva de metal
e os monstros verdes que nos esperam
na bruma, onde ser e não ser faz o nosso ser frágil tremer
a cada hora, a cada chuto do coração nas raízes
do medo. O corpo, musculado de tanto tremor,
parado numa eternidade ilusória,
transpira uma imagem casual e acertada que no sonho
paira, icónica.Todos nós, enquanto foragidos,
deturpados pela ondulação dos sentidos, procuramos
a razão e o motivo que tragam sentido à flor
de sangue no nosso jardim, à cidade contínua.
E se a televisão natalícia te grita agora imagens
que nunca escolheste ver, pensa no passado, relembra
o conforto estofado da infância. Cocas, o Sapo e a sua
voz debaixo da luz holofótica:
"Talvez, reinventando o tempo, apanhando os cacos
fragmentados do vidro do passado, esse espelho
em que já não nos revemos, parasitas,
possamos reaver os problemas que nunca emergiram
da casca dura que nos precede
e teima em prolongar o movimento cadente
dos sentidos lineares. Se o coração não aguentar,
bem, tens sempre a fantasia. Para provar a tua inexistência".



em filmes surrealistas com este blog 




Coisas a que ninguém presta a mínima atenção

Escatológicos e com espinhas, vivemos,
na mole época do chocolate. Encontramos
em cada caixa, que tanto nos diz,
pedaços de todas as formas e feitios, embrulhados
por mãos velhas e calorosas que nada sabiam
dizer do que as rodeava. Nós, pelo contrário,
sabemos bem em que mentiras vendem a felicidade,
que a causa e o efeito, a boca e a epiderme,
são relações directas que não negam
a proximidade ténue entre o bem e o mal,
essa comparação tão em desuso
e a que já ninguém presta a mínima atenção.  


lavrado com este blog