19 janeiro 2010

A superfície da superfície visível das coisas.

Agora convém que me explique:
Estas ruas cheias de signos e ordens
Mudas tornaram o lar num débil
Conceito impossível; o tempo é
Perseguir o tempo, ocupar as horas
E o corpo com outras
Necessidades em acordos tácitos
E silenciosos. A vida, este inócuo
Espectáculo, este contar regressivo
Até a um zero, é trabalho suficiente
Sem nos foderem a cabeça todos
Os dias - fodem-nos, e não deixam
Dinheiro na mesinha à saída e não
Há forma deste corpo despertar
Do torpor desta mente que mente.
Não há como regressar ao lugar
De onde partimos e é isto a morte:
O longo caminho de regresso
Onde os navios ardem no cais
E o mar ficou mais selvagem.
O medo - cão faz hoje parte de nós,
Exploradores
Destas noites claras, deste novo
Calor que somente aquece a superfície
Da superfície visível das coisas.

17 janeiro 2010

Dias tristes

Os domingos são dias tristes
Como os outros. Se parecem
Maiores é porque são mais
Tristes que os outros porque
O mundo,
Parece ter parado de rodar
E toda a gente parece ter
Desaprendido como viver.
Acordamos tarde e deprimidos
Por já se ter perdido parte
Da inutilidade do dia, por
Haver menos horas a ocupar
Com o tédio do dia, o filme
Prático e pop na tv; trabalhos
Há que ainda estão por fazer,
Pontuando a inutilidade
Das mãos, das horas diurnas,
Da vontade de fugir deste
Círculo de insucesso. Este
Domingo, vou ficar fechado
Em casa, sem vontade ou
Desejo de sair - também,
Com quem sair ao domingo,
Quando tudo está parado e
Fechado e uma chuva leve
E ácida corroi as paredes
Graníticas da cidade e a
Natureza deste tempo mole,
De uma inconsequência oncológica?

15 janeiro 2010

Serviço público de televisão

Um senhor em entrevista no canal 2. Joan Margarit no programa Bairro Alto falando de democracia, educação, cultura e poesia.

Sabor da despedida

Estes beijos sabem a despedida,
A sal, a dedos cortados. Estes 
Beijos são sem o serem. 
São um contacto fútil, fugaz 
Alegria, suprema cegueira
De tardes inconclusivas.
Estes beijos já não falam 
A língua da paixão.

Economia de sentimentos

É duro viver nesta economia de sentimentos.
Passar os dias acordado a contar o dever
E o haver do que se dá e do que se esconde
À minúcia da fiscalização; reclamar quando 
A altura se apresenta correcta, oportunidade
Única para melhorar uma situação impossível.
Há que ter tudo anotado em cadernos negros
E sujos como a nossa consciência, pronto a ser 
Apresentado quando chega a ordem e provar
Que, no fundo de nós mesmos, somos inocentes.
E, quando chega a noite, levamos as mãos
Aos bolsos vazios e, para nos distrair, apanhamos
Pontas do cinzeiro frio para fumar o tempo 
Para longe. Lá fora é Inverno e está frio e tentamos 
A reaproximação à ilusão em planos que ficam 
Por cumprir. A descoberta e a sua estranheza: 
Encontrar-me cobarde, fraco dia após dia pensando, 
Repensando e reencontrando o cérebro no lugar 
Do coração e o coração no cimentado círculo exterior  
Da circunvalação, perdido. Sei o que é andar aí, 
No mundo, procurando um lugar certo para a felicidade
Ou para poder viver; alguém que nos encontre 
Quando os dias terminam e o ânimo se perde no sono. 
Quando escapo da consciência e a última imagem do dia
É um quarto enfumarado, silencioso, e a luz que se tem 
É a de um monitor que traz tudo menos o contacto, 
Sei que depois de tudo se oferecer ficamos de mãos vazias
E atadas, julgados por um tribunal invisível: algures, 
Enganamo-nos nestas contas e o estado é um matemático 
                                                              infalível.