Somos bons, bonitos e baratos
enquanto encontram utilidade
nos nossos trejeitos e tiques.
Quando esta se perde, somos
somente mais um que atravessou
a vida ou o corpo sem deixar
uma pista atrás de si. A esta
existência, estas pessoas
estranhas chamam "amor".
25 janeiro 2010
24 janeiro 2010
A zona
A bófia patrulha a zona, incansável,
dentro de carrinhas azuis, redes
metálicas protegendo os corpos
lá dentro, olhando para fora
em ameaças surdas. Cá fora,
nesta prisão sem paredes inventada
para tentarmos a descoberta,
a vida permanece igual e procuramos
algo novo para dizer - se bem que,
na verdade, nunca chegamos a falar,
a dizer algo que altere o estado
das coisas. Enchemos o saco do tempo
com inutilidades que, sacudidas, nada
diriam acerca de quem somos, de quem
se esconde por debaixo desta pele
silenciosa e impaciente e, quando
os esforços caem curtos, resta continuar
a tentar, a jogar este jogo invisível, correr
riscos enquanto o homem de mãos
cobertas de ouro não chega para cobrar.
Estas ruas vão terminar invariavelmente
como nos outros dias... vazias e cheias
de lixo; porque continuamos a vir aqui
quando já conhecemos o futuro? Da tarde
cinzenta resta a recordação de que a avenida,
hoje, estava fechada ao trânsito automóvel
e isso pareceu-me aterrorizante e estas vozes
de álcool e tabaco parecem morrer respirando
estas calçadas, este cimento e estas pedras
húmidas, e não se calam um segundo para
ouvir. É assim que tudo termina: muitas
palavras que ninguém nunca vai compreender.
A patrulha não para aqui, desta vez; segue
sempre procurando outros sítios melhores
para nos enfrentar.
dentro de carrinhas azuis, redes
metálicas protegendo os corpos
lá dentro, olhando para fora
em ameaças surdas. Cá fora,
nesta prisão sem paredes inventada
para tentarmos a descoberta,
a vida permanece igual e procuramos
algo novo para dizer - se bem que,
na verdade, nunca chegamos a falar,
a dizer algo que altere o estado
das coisas. Enchemos o saco do tempo
com inutilidades que, sacudidas, nada
diriam acerca de quem somos, de quem
se esconde por debaixo desta pele
silenciosa e impaciente e, quando
os esforços caem curtos, resta continuar
a tentar, a jogar este jogo invisível, correr
riscos enquanto o homem de mãos
cobertas de ouro não chega para cobrar.
Estas ruas vão terminar invariavelmente
como nos outros dias... vazias e cheias
de lixo; porque continuamos a vir aqui
quando já conhecemos o futuro? Da tarde
cinzenta resta a recordação de que a avenida,
hoje, estava fechada ao trânsito automóvel
e isso pareceu-me aterrorizante e estas vozes
de álcool e tabaco parecem morrer respirando
estas calçadas, este cimento e estas pedras
húmidas, e não se calam um segundo para
ouvir. É assim que tudo termina: muitas
palavras que ninguém nunca vai compreender.
A patrulha não para aqui, desta vez; segue
sempre procurando outros sítios melhores
para nos enfrentar.
20 janeiro 2010
Praça D. João I
Até os bófias se comovem com os gritos
das crianças que correm, alheias
às carrinhas anti-motim; sem lei
nem ordem precipitam-se no interior
do teatro, onde lhes venderão a magia
fácil dos holofotes acéfalos,
o entretenimento cor-de-rosinha
com que adoçam o mundo corporativo.
Hoje é um dia de clemência amena
e casais sentam-se nos degraus da praça
esmagados sob as sombras, vendo
os velhos passar lentos, esquecidos
do trânsito e da poluição, o ruído
dos autocarros e do mundo - são
apenas face e toque e esperam
um sinal, um pressentimento dúctil.
Nós, os que caminhamos à volta,
andamos à procura e improvisamos
uma vida.
das crianças que correm, alheias
às carrinhas anti-motim; sem lei
nem ordem precipitam-se no interior
do teatro, onde lhes venderão a magia
fácil dos holofotes acéfalos,
o entretenimento cor-de-rosinha
com que adoçam o mundo corporativo.
Hoje é um dia de clemência amena
e casais sentam-se nos degraus da praça
esmagados sob as sombras, vendo
os velhos passar lentos, esquecidos
do trânsito e da poluição, o ruído
dos autocarros e do mundo - são
apenas face e toque e esperam
um sinal, um pressentimento dúctil.
Nós, os que caminhamos à volta,
andamos à procura e improvisamos
uma vida.
19 janeiro 2010
Mortos, Dia dos
Ninguém compra velas
Para adorar as noções
Românticas
ou os mortos.
Mortos
Não podem adorar os seus
mortos.
Para adorar as noções
Românticas
ou os mortos.
Mortos
Não podem adorar os seus
mortos.
A superfície da superfície visível das coisas.
Agora convém que me explique:
Estas ruas cheias de signos e ordens
Mudas tornaram o lar num débil
Conceito impossível; o tempo é
Perseguir o tempo, ocupar as horas
E o corpo com outras
Necessidades em acordos tácitos
E silenciosos. A vida, este inócuo
Espectáculo, este contar regressivo
Até a um zero, é trabalho suficiente
Sem nos foderem a cabeça todos
Os dias - fodem-nos, e não deixam
Dinheiro na mesinha à saída e não
Há forma deste corpo despertar
Do torpor desta mente que mente.
Não há como regressar ao lugar
De onde partimos e é isto a morte:
O longo caminho de regresso
Onde os navios ardem no cais
E o mar ficou mais selvagem.
O medo - cão faz hoje parte de nós,
Exploradores
Destas noites claras, deste novo
Calor que somente aquece a superfície
Da superfície visível das coisas.
Estas ruas cheias de signos e ordens
Mudas tornaram o lar num débil
Conceito impossível; o tempo é
Perseguir o tempo, ocupar as horas
E o corpo com outras
Necessidades em acordos tácitos
E silenciosos. A vida, este inócuo
Espectáculo, este contar regressivo
Até a um zero, é trabalho suficiente
Sem nos foderem a cabeça todos
Os dias - fodem-nos, e não deixam
Dinheiro na mesinha à saída e não
Há forma deste corpo despertar
Do torpor desta mente que mente.
Não há como regressar ao lugar
De onde partimos e é isto a morte:
O longo caminho de regresso
Onde os navios ardem no cais
E o mar ficou mais selvagem.
O medo - cão faz hoje parte de nós,
Exploradores
Destas noites claras, deste novo
Calor que somente aquece a superfície
Da superfície visível das coisas.
18 janeiro 2010
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